O paraíso na outra esquina (5)

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Era uma vez um fracasso. Neste caso, era anterior à derrocada do muro que espelha, como nada, o cumular dos fracassos. Aquele de que falo é uma revista com o nome de “Pott”, que quer dizer, mais uma vez, fracasso, em euskera (basco). Vivia-se o início da segunda metade da década de 70. Na Europa Ocidental e civilizada eram os “anos de chumbo” (uma espécie de ressaca dos “68” de todas as promessas), no Estado espanhol a transição do franquismo ainda não se dera.
Nas universidades de Madrid e Barcelona já não hasteavam a bandeira portuguesa como desafio da revolta. No pequeno e atrasado Portugal caíra ferida a paixão revolucionária, em muitos sítios do rectângulo sabia-se, agora, que ser realista era de facto exigir o impossível. Ainda soavam nos ares a voz do cantor catalão Lluis Llach, que assinalava a sangrenta repressão na catedral de Gazteiz (Vitória), a 3 de Março de 1976:
“Campanades a morts
fan un crit per la guerra
dels tres fills que han perdut
les tres campanes negres”.
No chão da Praça da Virgem Branca ficaram tombados cinco mortos (os três da canção e mais dois dos baleados) e quase cem feridos. Os cinco mil operários, reunidos na igreja, tinham sido expulsos do templo a tiros de gás lacrimogéneo. À saída, a polícia franquista tinha-os fuzilado à queima roupa. Nas ruas cinzentas de Bilbau alguns jovens tacteavam um novo caminho. Tomar os céus de assalto tinha, por enquanto, falhado. Seria possível, pelo menos, mudar a “terra dos que falam basco” (Eukal Herria), salvar a língua e construir uma comunidade imaginada.
Três deles simbolizam, 30 anos depois, os diferentes caminhos da revista “Pott” (como fracasso). Fixemos os nomes: Jon Juaresti, José Irazu Garmendia (Bernardo Atxaga) e Joseba Sarrionandia. Na altura da fundação da revista apenas ultrapassavam os 20 anos e, como se sabe, nessa idade tudo é possível . Na senda do poeta e comunista Gabriel Aresti, falecido prematuramente aos 42 anos, queriam, nas palavras de Atxaga, “escrever numa língua estranha que nunca pisou os jardins da corte”. Como gritava, nas letras, Gabriel Aresti, num dos mais célebres poemas bascos da época:

“Tirar-me-ão as armas,
e, com as minhas mãos, eu defenderei a
casa do meu pai;
Cortar-me-ão as mãos
e, com os meus braços, eu defenderei a casa
do meu pai;
Deixar-me-ão sem braços, sem peito
e, com a minha alma, eu defenderei a casa
do meu pai;
Eu morrerei
a minha alma perder-se-á
a minha linhagem perder-se-á,
mas a casa do meu pai
continuará
de pé”

Trinta anos depois, a “Pott” é uma memória, mas o fracasso perdura. Vejamos os caminhos que levam cada um dos três bascos aos lugares e territórios que ocupam. Jon Juaresti converteu-se no intelectual de serviço na denúncia do nacionalismo como identidade assassina. Permanentemente sob a ameaça de uma bala na nuca, disparada pelos comandos da ETA Militar, dá entrevistas em sítios secretos e aparentemente seguros. Nos seus livros, como “El Bucle Melan- cólico”, denuncia histórias escutadas e repetidas na sua juventude: “Muitos bascos da minha geração estiveram expostos aos significantes deleutérios deste tipo de histórias – narrações sacrificiais de amor e imolação, de heroísmo e de culpa, de traições e de derrotas” e, acrescenta Joresti, “porque o nacionalismo basco só sabe uma coisa (…) mas sabe-o muito bem: é necessário perder para ganhar, manter vivo os agravos para que o sacrifício das várias gerações se mantenha politicamente rentável”.
Por sua vez, Bernardo Atxaga transformou-se no mais conhecido escritor basco, “Ababakoak”, “El Hombre Solo” e “Lista de Locos” são alguns dos seus livros. Politicamente apoiou a Esquerda Unida Basca (Comunistas) nas últimas eleições.
Num pequeno texto do livro “Nueva Etiópia”, Atxaga relata um diálogo com um amigo historiador mantido enquanto estavam parados nos engarrafamentos de Bilbau. O escritor diz ao companheiro de viagem que encontrou um armazém de livros invendáveis. Uma espécie de
“cemitério de ilusões”. Aqui se encontrariam obras de Mao, de Marx, de Lenine e de Trostski e memórias de mulheres libertadas e revolucionárias. “Os mesmos livros que há 15 ou 20 anos circulavam entre a juventude inquieta com desejos de mudar a realidade; os mil textos, tantas vezes citados e comentados, que tanto haviam influenciado a vida (…). Não tinha sido preso um companheiro de turma por ter as obras de Mao? Não tinha ido para o campo um grupo de estudantes da nossa faculdade, para trabalhar com os assalariados rurais, porque tinham lido Kropotkine? Por outras palavras, os livros que víamos mortos naquele armazém haviam sido mais do que um monte de páginas: representavam os desejos de muita gente, a sua rebeldia e a sua luta. E agora estavam abandonados naquele armazém perdido da periferia”. O amigo responde-lhe que “seria reaccionário recusar a possibilidade de transformar uma realidade que, a todas as luzes, continua a ser indesejável. Porém, recusar um erro, uma simplificação, um ponto de partida falso, não pode ter nada de reaccionário”.
O vértice desta bifurcação, em que participam Joresti e Atxaga, é Sarri (aliás Joseba Sarrionandia), que é preso em 1980, acusado de ser membro da ETA Militar, e condenado a 28 anos de prisão. A 7 de Julho de 1985, escapa da cadeia de Matutene, escondido numa aparelhagem sonora que tinha sido utilizada para dar um concerto no estabelecimento prisional. Desde aí, este homem, que traduziu Pessoa e Jorge de Sena para euskera, continua fugido. Como por encantamento, todos os anos aparecem livros seus. O último é de 2002 e ganhou um dos mais conceituados prémios literários do Estado Espanhol. O lugar em que se encontra permanece secreto, pistas, talvez, só a letra, em português, do fado que mandou ao cantor Mikel Laboa:

“Não és tu faculdade de sentir um espaço
Terminado por linhas ou superfícies
E não obstante chove sobre ti na cidade”.

Há um poema seu que ilustra bem – provavelmente sem ser essa a intenção do seu autor – a situação de fracasso daqueles que resistem nas suas convicções sem conseguirem fugir a uma lógica perversa, admiravelmente enredados, para além de toda a coerência. Talvez esta seja a conclusão possível desta história.

“El viajero se aventura a través del labirinto
aunque apenas sí recuerda cuándo ni por dónde entró.
Supone que el camino ha de ser un laberinto
Pues advina en lo nuevo reflejos del ayer.
Mas no son reflejos amables, son vástagos del miedo
Pues le revelam que cae, que se derrumba hacia el centro.
Pero hay un centro acaso?
No cae hacia los bordes?”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a O paraíso na outra esquina (5)

  1. Julia W diz:

    Infelizmente não tive tempo para lêr a poesia toda. Viste o filme?

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