Rui Tavares: O brilharete

Autor: Rui Tavares

(Público, 4 de Junho 2007)

O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois. 

Uma das melhores maneiras de conseguir que se leve a cabo uma tarefa ingrata, ou mesmo indecorosa, é convencer alguém de que ao cumpri-la fará um “brilharete”. Esta técnica funcionará melhor com um sujeito que passe por insignificante mas não deixe de ter a sua vaidade. Como país, Portugal é um inabalável candidato ao óscar do brilharete.

É curioso que não raramente é o próprio que sai prejudicado, embora não o tenha previsto enquanto escutava a lisonja e o encorajamento dos maiores interessados. Nesse caso, chama-se-lhe um “trouxa” – mas discretamente, para não ferir os sentimentos de uma pessoa tão útil.

Aproxima-se agora uma nova ocasião para demonstrarmos os nossos dotes nesse papel, sob a forma da presidência da União Europeia. O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois. Mas já foi há muito tempo – 29 de Maio e 1 de Junho de 2005 – e franceses e holandeses tinham acabado de votar não à Constituição europeia. Jurou-se que nunca mais a UE se faria longe dos seus cidadãos e que os seus líderes nunca mais se fechariam no “quarto mais alto da torre”, nas palavras do inimitável Tony Blair.

São coisas que se dizem no calor do momento, como explicaria recentemente Cavaco Silva: “às vezes, avança-se para essas coisas sem pensar bem nas consequências e, depois, discute-se é como corrigir”.

Como corrigir, então? Sarkozy tem uma ideia: faça-se um mini-tratado com três características fundamentais. A primeira é referir-se sempre a ele como “mini”, um abre-te sésamo para muita gente. A segunda é chamar-lhe tratado em vez de “constituição”, o que deverá funcionar com os restantes. A terceira – e única que tem a ver com actos e não palavras – é nunca o referendar.

Tirando isto, não se sabe nada sobre o mini-tratado, a não ser que será um conjunto de regras fundamentais sobre a maneira como as coisas se fazem na UE – pensando bem, não é isso mesmo que costumam ser as constituições? E na maneira como as coisas se fazem encontramos já duas regras fundamentais. Uma é fugir ao referendo. A outra é caminhar para o directório dos países grandes, solução que permitirá vencer com facilidade as objecções da Espanha e da Polónia. Esta reincidência em fazer as coisas “no quarto mais alto da torre” tem o seu custo, que nenhum líder gosta de pagar sozinho. Mas é preciso dar o passo decisivo a tempo de se ratificar tudo antes das eleições para a única instituição em que os europeus votam – o Parlamento Europeu, onde verdadeiramente se deveria discutir a constituição. Felizmente, agora só é preciso arranjar alguém para fazer um brilharete.

Perante uma bateria de jornalistas portugueses, perguntou-se a Durão Barroso se era por patriotismo que gostaria de ver o “mini-tratado” decidido durante a presidência portuguesa. Durão respondeu logo que não, mas depois de olhar em torno para ver se não havia por ali algum jornalista estrangeiro sorriu e acrescentou que “sim, um bocadinho”. Ora aí está: Durão é um mestre na arte do brilharete, como se viu na Cimeira das Lajes, antes de começar a Guerra do Iraque. Mas hoje, cada aniversário dessa ocasião é lembrado em todo o mundo como um momento vergonhoso de desrespeito pela vontade dos cidadãos.

Ao ouvi-lo, lembrei-me de que também eu teria um mini-tratado a propôr aos nossos líderes. É a citação de Tucídides que estava no preâmbulo da Constituição, e mais curto não me parece que seja possível. É uma frase apenas: “A nossa constituição é chamada de democracia porque nela o poder está nas mãos, não da minoria, mas do maior número.” 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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2 respostas a Rui Tavares: O brilharete

  1. david diz:

    encontrei uma coisa que talvez lhe interesse, aqui:
    http://derterrorist.blogs.sapo.pt/153394.html
    cumprimentos

  2. two towers diz:

    “Tancredi Falconeri: If we want things to stay as they are, things will have to change.”

    “Prince Don Fabrizio Salina: We were the leopards, the lions, those who take our place will be jackals and sheep, and the whole lot of us – leopards, lions, jackals and sheep – will continue to think ourselves the salt of the earth.”

    Il Gattopardo.

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