Paraíso na outra esquina (4)

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“Não há liberdade sem liberdade de pensar. O meu direito ao conhecimento é superior às leis dos que roubam o que é de todos”, dizia-me um hacker alemão num cenário revelador. Computadores empilhados. Canibalizados. Esventrados. Salvo do massacre das máquinas estava um velho Apple Lisa, de 1983. O Kaos Komputer Klub (KKK) é uma organização de hacktivistas que tem uma sede em Kreuzberg, o bairro que eu mais gosto do lado ocidental de Berlim. Boémia, imigração e activismo misturados. “Shaken, not stirred”, dizia alguém. As pinturas da resistência curda confundem-se com palavras de ordem dos autonomistas. A história está escrita nas paredes. É possível ver os impactes de bala que restaram do assalto soviético, no lado leste, junto ao centro da cidade. Nas ruas de Kreuzberg estão ainda as pichagens, datadas do final dos anos 70, protestos contra o assassinato na prisão de Ulrike Meinhof e Andreas Baader, da Facção do Exército Vermelho.
À saída do KKK (não, não são os tipos do lençol), vêmos passar um grupo de autonomistas vestidos de preto, um amigo comenta-me que o problema dos autonomistas é que não querem mudar a Alemanha, mas aprender espanhol para ir para a América Latina. Acham que é “lá” que “as coisas vão acontecer”. Distraído, com a ‘movida’ do bairro onde se cruzam gente de lenço islâmico misturada com punks de crista verde, no mais puro estilo Bilal, pergunto: “acontecer o quê?”. “A revolução”, garante-me, divertido. Gargalhada geral. Naquele ano, de 1994, tinha atravessado Cuba de carro, durante um mês, e aquilo que consegui ver foi que a revolução andava cansada. A meio da viagem, um velho disse-me : “Camaguey é o estômago de Cuba, e este estômago está vazio”. Quase a chegar à cidade de Guantánamo, falei com um camponês. Tinha a casa cheia de condecorações. O “Herói do trabalho” várias vezes tinha ultrapassado recordes das colheitas de cana de açúcar. Afirmava estar disposto a defender a sua pátria das ameaças dos yanquis, para, sorrindo, dizer-me: “o socialismo é a coisa mais bonita do mundo, funciona nos livros, infelizmente não na realidade”.
Viviam-se os anos do “período especial”, a União Soviética tinha acabado e Cuba estava só. Tudo faltava. O turismo era um remédio que salvava e sujava. No final do Malecon, a mítica marginal de Havana, acotovelavam-se as jiniteras, nome por que as prostitutas são conhecidas na ilha. O rum e a música misturavam-se nas ruas, as pessoas dançavam ao som dos NG La Banda e a sua música de homenagem às novas heroínas: “tú te crees la mejor, tú te crees una artista/ Porque vas en turitaxi por buena vista/ Buscando lo imposible…”
Bebíamos no Malecon o rum do cartão de racionamento, bastante mais adstringente do que o do Havana Club, aniejo do Hotel Nacional. Enquanto emborcávamos as conversas multiplicavam-se. Todo o mundo ria. Gente de copos. Homens que queriam partir da ilha. Bispos. Santeiros. Membros do partido. Marginais. Médicos. Putas. Artistas. Dissidentes. Polícias. Intelectuais. Cosmonautas se os houvesse. Cuba entranha-se na pele. Todas as pessoas são geniais. Se houvesse um concurso internacional de retórica, Cuba ganhava. Não há ninguém no mundo que fale tanto. Mal. Bem. Contra o regime. Viva Fidel! Sobre a ciência. Deus. O sexo. E os anjos. As mulatas e os mulatos dançavam. Os turistas e os jornalistas abanavam-se.
Recordo-me de duas entrevistas, uma do Bispo Carlos Manuel de Cespedes, salvo erro, bisneto de um dos heróis da independência de Cuba, e outra de Abel Prieto, membro do Politburo do Partido Comunista Cubano. O dirigente do partido Abel Prieto respondeu-me a todas as perguntas de uma forma apaixonada, quando lhe disse que havia pessoas que estavam descontentes e que em algumas zonas de Havana tinha havido protestos por causa dos apagones (cortes de energia), ele respondeu-me duro: “Tu acreditaste em todas essas mentiras, Nuno? Os cubanos não são cobardes, na guerra com Espanha, mais de um milhão de pessoas morreu. Se não quisessem o regime, há muito que ele teria caído. Bastava que alguém subisse acima de um palanque, para que um multidão se formasse”, e olhou-me nos olhos e afirmou: “Se abríssemos as fronteiras meio milhão fugiria, mas essa gente não tem projectos, não quer um outro país, quer viver num outro país”.
O Homem da Igreja disse-me, em pura linguagem marxista, que quando um país muda de estruturas económicas, legaliza o dólar, permite actividades privadas e autoriza o investimento estrangeiro, necessariamente a super-estrutura da sociedade não vai ficar igual. Para falar verdade, passados estes anos, parece-me que tudo está diferente, embora tudo esteja igual. Como dizia o cantor: “não é o mesmo, mas é igual”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a Paraíso na outra esquina (4)

  1. f. diz:

    muito bom, nuno. e muito triste, na verdade. porque não sei bem se quando cuba finalmente mudar não vou ter saudades dessa espécie de museu vivo da revolução morta.

  2. Pingback: cinco dias » xatoo: Havana não é Felgueiras

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