Filipe Moura:Um pouco de “Fox News” nos comentários de um blogue de física

Passam hoje quarenta anos sobre o início da Guerra dos Seis Dias. Entretanto tem dado que falar a recusa do físico americano Steven Weinberg em participar numa conferência no Reino Unido em homenagem ao falecido físico paquistanês Abdus Salam, fundador do Centro Internacional de Física Teórica, dirigido principalmente a físicos dos países em desenvolvimento. Weinberg (judeu) e Salam (muçulmano) partilharam com Sheldon Glashow o prémio Nobel da Física de 1979 pela formulação do Modelo Padrão das interacções electrofracas, que permitiu unificar a descrição do electromagnetismo e de um certo tipo de forças nucleares.
A razão da recusa de Weinberg é um “boicote ao boicote”: académicos britânicos não desejam a presença no país dos seus colegas israelitas, como forma de protesto contra a política levada a cabo pelos sucessivos diferentes governos de Israel no Médio Oriente. Weinberg, americano e professor reformado da Universidade do Texas em Austin, decidiu solidarizar-se com os seus colegas israelitas por considerar o protesto britânico de cariz… (adivinhem!) anti-semita.
A carta de Weinberg, e os detalhes da história, podem ser lidos aqui. Lendo a carta, podemos aperceber-nos que Weinberg vê “anti-semitismo” (ou em alternativa “medo de provocar a comunidade muçulmana na Grã Bretanha”) em órgãos como a BBC, o The Guardian e o The Independent.
Devo esclarecer que não acho adequado o boicote à presença de académicos de uma certa nacionalidade ou credo. O credo ou a nacionalidade não vinculam ninguém à política colonialista e agressiva de Israel. Concordaria se o boicote se limitasse a mercadorias, a bens de consumo. Mas pessoas não são mercadorias. Deve boicotar-se o capital, mas não as pessoas. Por isso lamento o tal boicote e lamento profundamente a decisão de Weinberg. O seu colega Salam, que tão frutíferas colaborações com ele teve, não o merecia.
Soube deste episódio através do blogue The Reference Frame. E é para esta mesma entrada deste blogue que eu quero chamar a vossa atenção, nomeadamente para os seus comentários. Comentários que demonstram bem como é impossível ter uma discussão racional sobre o conflito israelo-palestiniano nos EUA. Eu tentei ter essa conversa por algumas vezes e sei o que me aconteceu. Um comentador de bom senso (europeu), Kasper Olsen, fala timidamente sobre o direito dos palestinianos a terem o seu próprio estado, e é imediatamente rodeado por falcões pró-israelitas. Convido-vos a passarem por lá e a fazerem o vosso próprio julgamento. Podem encontrar opiniões que em Portugal (por enquanto) só o colunista do DN Alberto Gonçalves tem o desplante de emitir (enquanto escreve “Palestina” entre aspas), como

“I would probably also give up at this moment and give them a country – which means that Palestinians have the right, too. If you asked what I really think, my answer would be No, they don’t deserve it. The concept of the Palestinian nation is just an abstract, soft construct.”

Eu sou contra a Intifada, mas notem que toda esta opinião – o “desistir e dar-lhes um país”, apesar de achar que os palestinianos não têm direito a ele – é o melhor argumento a favor dessa mesma Intifada que eu já li.
Quero ainda destacar

“The problem is that the more land and authority they were granted… the more israelis died in terrorist attacks…”

Como se os territórios ocupados fossem uma concessão feita aos palestinianos, uma prenda que se lhes dava – e não uma devolução daquilo que legitimamente sempre lhes pertenceu. É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).
Não julguem que estes comentadores são necessariamente neoconservadores, ou mesmo simplesmente republicanos. Pelo contrário: muitos deles são, infelizmente, democratas.
Espero que esta pequena (mas representativa) amostra demonstre que a principal prioridade em política internacional é a necessidade de acabar com o apoio incondicional dos EUA a Israel, se se quer ter um mundo mais seguro. Enquanto isso não acontecer, no que a Europa deve apostar é numa política de defesa comum e autónoma (sem pôr em causa as suas alianças) o mais depressa possível. Que nos proteja das ameaças dos talibãs e dos Ahmenijads, sem dúvida. Mas que nos proteja também dos Drs. Estranhoamores de Washington e dos falcões de Tel Aviv.

Filipe Moura

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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27 respostas a Filipe Moura:Um pouco de “Fox News” nos comentários de um blogue de física

  1. Julia W diz:

    Esta polémica não começa com Weinberg. Começa com o UCU (sindicato dirigido por um lider anti-semita que não esconde o seu anti semitismo sofisticado). Existe muito antisemitismo na GB, caro filipe moura. Sempre existiu, e continuará a existir. Pessoalmente, estou-me a borrifar. Hoje os britânicos estão a se borrifar com medo das suas comunidades islâmicas. Esta polémica da ucu serve um outro propósito, o de reposicionar as percepções da comunidade islâmica (face à relação gb-israel), assegurar-lhes que a GB não gosta de judeus.(relações públicas muito sofisticadas) Foi engenhada desde o principio com este propósito. A meu ver, todos os judeus europeus deveriam partir para israel. Se fosse judia, seria isto que eu faria. Na frança passa-se o mesmo. Os franceses, mais borrados ainda do que os seus primos do outro lado da mancha, não punem as centenas de ataques a cemitérios judaicos e a judeus na frança. Tem medo de os agitar. Na alemanha, as coisas não estão muito melhores. Sharon tinha toda a razão. Judeus, regressem a Israel. Os brits perderiam, repentinamente, mais de um terço dos seus melhores investigadores. Fuck them!

  2. Julia W diz:

    Tem medo de os agitar (os muçulmanos, é claro)

    estou no carro, desculpas pelos erros.

  3. Julia W diz:

    Como disse anteriormente, o Labour Party é uma colecção de carroçeiros e spin doctors. São peritos neste tipo de mexiriquice vulgarote. E os sindicatos são o seu braço armado…

  4. Julia W diz:

    “É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).”

    Filipe, será que poderia fazer o favor de demonstrar a veracidade desta afirmação?

    É que estou mesmo quase a chamar-lhe de mentiroso. A opinião pública Americana NUNCA se inclinou para a têse de um Grande Israel (mesmo em Israel, esta é a “visão” lunática de uma minoria insignificante, politicamente marginalizada e estigmatizada por grupos terroristas judaicos que o estado israelita combate!)

  5. MP-S diz:

    Aqui esta’ um debate a que vale a pena assitir sobre Israel-Palestina. Existem, de facto, meios nos EUA onde se podem ver discussoes serias e informadas sobre este tema. Infelizmente, nao sao difundidos pelo mainstream da comunicacao social norte-americana.

    http://www.democracynow.org/article.pl?sid=06/02/14/1518230&mode=thread&tid=25

    http://www.democracynow.org/article.pl?sid=06/02/14/1518235&tid=25

  6. Está um calor do caraças, eu não conheço a Julia W de lado nenhum e não estou para me chatear. Eu falei em “opinião pública”, não em opinião publicada. Não é o “The New York Times” que defende o Grande Israel. Mas mesmo assim muitos sectores radicais de direita defendem. E desde o 11 de Setembro que, para o americano médio, que elegeu Bush, tudo o que é muçulmano é mau e deveria ser corrido à bomba.

    Obrigado pelos links, MP-S. É claro que nos EUA também temos o Carter e muita gente decente.

  7. Julia W diz:

    Não está para se chatear? É assim que responde a uma interpelação. Foi o senhor que publicou isto, não fui eu. O sr Moura, telepata e cientista que é, tem acesso directo à “opinião pública”Americana (são 300 milhões de pessoas). Ficamos com a palavrinha do Moura. É mais do que suficiente. Se ele diz, é porque é. Viveu lá e tudo. Tem amigos e amigas judeus e, claro, muçulmanos. O homem sabe da coisa. Veja se percebe uma coisa. É claro que o NYT não defenderia tal coisa. Se me encontrar um único jornal ou publicação (significativa, com relevância política) onde se defenda este ideal eu, Julia Weiss, ofereço-lhe uma viajem até NY, com estadia em Brooklyn, por uma semana (e não estou a brincar). Procure até no Heritage Foundation, aquela congregação de imbecis neocons, nem sequer eles defendem tal coisa.

    Ouça outra coisa. Os EUA dão lições ao mundo no que toca à integração dos Muçulmanos na sua sociedade. (Vide entrevista ao representante da comunidade islâmica Americana do Hardtalk-BBC- by Stephen Sackur….São eles, Muçulmanos, que o afirmam)….Na Europa, infelizmente, as coisas são bastante diferentes. Há muitos membros de think tanks Europeus que estão, neste preciso momento, a visitar os eua para aprender com o exemplo americano de integração. O “americano médio”, pois, é muito burro, o americano médio…voçês, au contraire, são todos inteligentissimos, cultissimos (cambada de carroçeiros pretenciosos) e coisa e tal…

    eu fiz-lhe uma pergunta directa e concreta: Demonstre quais os membros da malévola direita americana que defendem o grande israel ?? (e por favor, não cite o buggs bunny ou um imbecil insignificante qualquer)

    Sim, mas há muita gente decente nos EUA..bendita salvaguarda!E o Carter, claro, aquele grande presidente, é um gajo porreiro…tão burro como o George, mas porreiro, claro…é ele que fala do apartheid na palestina…claro…

    Não culpe o calor Filipe. Porte-se como um homenzinho. Gosto mais das mulheres deste blog. Pelo menos tem vibra.

  8. Julia W diz:

    dummschwallen

    “É esta a visão que prevalece na opinião pública americana (que defende um “Grande Israel”) e nos principais meios de comunicação social (não é só a “Fox News”).”

  9. Não sei o que se passa aqui – o meu comentário não entra. Será por ter links? Será que os administradores da página o poderiam desbloquear, por favor?

  10. Julia W diz:

    É preciso uma imaginação prodigiosa e um talento especial para a distorção propagandística para interpretar estas citações como defesa do Grande Israel. E onde estão as sondagens que revelam que a opinião pública defende o conceito?? Foi da opinião pública que falou mas, mesmo assim, estou a ser benevolente e a considerar estas citações que não validam a veracidade do seu argumento. Obviamente o Sr. Filipe Moura não faz a minima ideia do significado do termo. Netanyahu não defende o grande israel (que é um conceito que se refere a uma area muito mais vasta) Apenas fala das conquistas militares de 67 e das suas implicações geopolíticas. Cita uma reflexão de UMA judia que encontra o divino. E depois? E todas as outras refs tem que ver com territórios que israel já reconheceu como sendo do domínio da Aut Palestiniana de facto e de jure. Repito: o seu argumento tinha a ver com a opinião pública e não com crenças de umas quantas pessoas. A retirada da Cisjordânia foi anunciada e iniciada por Sharon, e interrompida depois de não ter estimulado qq reciprocidade pela AP. O Sr. Moura afirma que se deve devolver antes de negociar, negando o principio da reciprocidade neste caso. Eu concordo, aé certo ponto. Na minha opinião Israel deveria abandonar todo o território Palestiniano. O problema é que sempre que o faz, o dilema da segurança regressa com maior ferocidade. Quem devolver os territórios conquistados na guerra de 67, que foi causada por um processo exterminatório de estrangulamento (Nasser), tem a responsabilidade suprema de garantir a segurança de Israel (até parece que não há precedentes no que diz respeito às tentativas de destruição de Israel)

    O Sr Filipe Moura deve perceber muito pouco de estratégia militar: quem ocupa os pontos altos, consegue uma vantagem comparativa considerável. Só se deve abdicar dos pontos altos nefrálgicos quando se sabe que
    Se fosse possivel devolver sem comprometer a segurança, Israel não hesitaria em o fazer. Já o afirmou repetidamente. E iniciou o processo com Sharon. Veja lá o que deu! Isto não corrobora qualquer argumento sobre o Grande Israel. Os que defendem este conceito não reconhecem a legitima propriedade dos Palestinianos sobre os sesu territórios. Não querem negociar e defendem a completa expurgação dos Palestinianos de toda a Palestina, a conquista de territórios à Jordánia etc. Os únicos que defendem este ideal são um grupo de terroristas Judeus que são ferozmente combatidos pelo estado hebraico. A Condie republicana defende as fronteiras de 1967 e a vasta maioria dos Americanos reconhecem a two-state solution.

    “Para o americano comum, que vota em Bush e tem uma bandeira à porta de casa, os palestinianos (e os árabes em geral) são vistos como uma ameaça.”

    Quase todos os Americanos tem uma bandeira à porta de casa. Como cientista, versado nos principios Popperianos da indução critica, deveria saber fazer melhor do que isto. O facto de se ter uma bandeira na porta não é um acto condenável per si. Mais uma vez o Sr Moura erra, e erra de forma folclórica. Muitos muitos republicanos defendem precisamente o oposto: defendem que os EUA não deveriam, segundo eles, apoiar incondicionalmente Israel. Tanta ignorância! De alguém que viveu nos EUA. Impressionante! Os Árabes são vistos como uma ameaça? Alguns são, sem dúvida. Mas a maioria vive bem, estão bem integrados e não se queixam muito. Contacte as associações muçulmanas nos eua! Ou quer que o faça por si?

    pode começar por aqui.

    http://www.bbc.co.uk/newsa/n5ctrl/progs/06/hardtalk/mukadam_08nov.ram

    Nenhuma das citações que menciona fala do Grande Israel. Nem UMA! Quando desejar visitar os EUA visite a zona judaica-islâmica-cristã de Brooklyn.

  11. Julia W diz:

    compare…

    Eu não vivo sempre. Aprenda alguma coisinha.

    Se fosse Americana, teria muito, muito, orgulho neste Americano, de nome Rehab. A good American!

    http://www.bbc.co.uk/newsa/n5ctrl/progs/06/hardtalk/rehab_09nov.ram

  12. “Netanyahu não defende o grande israel (que é um conceito que se refere a uma area muito mais vasta) Apenas fala das conquistas militares de 67”

    Muito bem. Para os efeitos deste texto tomemos “conquistas militares de 67” como o que eu referia por “Grande Israel” (mesmo sem contar com Sinai e a Jordânia), mesmo se historicamente tal é incompleto. A grande questão é que os territórios ocupados são vistos, como bem refere, como uma “conquista de guerra”. E isto é o quê?

    A questão da segurança é uma desculpa para não devolver os territórios, está mais do que visto. Manter os palestinianos sob um regime colonial e de terror de estado dá “segurança”? Não, não dá; se quisessem devolver os territórios devolviam. O Sharon só devolveu o que já não podia manter!

    Quanto à questão da integração, tem tudo a ver com o acolhimento dos imigrantes nos EUA (bem diferente do europeu, por razões históricas e culturais). Não tem a ver com muçulmanos ou judeus. Se perguntar aos hispânicos ou aos russos provavelmente ouve o mesmo.

    “Não julguem que estes comentadores são necessariamente neoconservadores, ou mesmo simplesmente republicanos. Pelo contrário: muitos deles são, infelizmente, democratas.”, escrevi eu. E sei muito bem que a esmagadora maioria dos judeus americanos vota democrata. E sei muito bem o que visitar nos EUA; obrigado mas dispenso os seus conselhos.

    Está um calor do caraças e estas pretzels estão a dar-me sede. Passe bem.

  13. Julia W diz:

    correção: “exterminatorio” es un termo espanol.

    Muchas gracias.

  14. Julia W diz:

    E ESTES pretzels. Não gosto de pretzels. Prefiro bacon&eggs&beans&chips&erdinger

    As “conquistas de guerra” são isso mesmo, conquistas. Não me recordo de lêr em parte alguma que a guerra de 1967 foi iniciada porque os lideres israelitas defendiam o “grande israel.” Não resultaram da implementação de um projecto chamado “grande israel.”

    “Para os efeitos deste texto tomemos conquistas militares de 1967…” Ena pá! A percepção da realidade é moldada pela intenção interpretativa, pelo vontade do autor, pelo texto. Grande cambalhota epistemológica. Que se lixe a história! Ela é aquilo que nós queremos que ela seja. É assim: tomemos x como y neste texto, sim senhor!!

    Partes dos territórios já foram devolvidos. Será isto uma fição?

    Qual é o interesse israelita num regime “colonial”?

    O Sharon devolveu aquilo que decidiu devolver.

    Incompleto?? Não, meu caro, é completamente desonesto.

    Sim, passe muito bem, Filipe. Há aqui alguém a mandar-lhe cumprimentos. Está muito chato e cheio de sono. Não coma pretzels a mais. Podem causar obstipação. Tende a acumular-se. 🙂

  15. MP-S diz:

    “Na minha opinião Israel deveria abandonar todo o território Palestiniano.”

    Ainda bem, esse e’ o consenso internacional com excepcao dos sucessivos governos dos EUA.

    ” O problema é que sempre que o faz, o dilema da segurança regressa com maior ferocidade.”

    Nao verdade, *nunca* o fez.

    “As “conquistas de guerra” são isso mesmo, conquistas. ”

    Se sabe isso, tambem sabe que, segundo as convencoes de Geneva, um exercito/potencia ocupante nao pode estabelecer, nem permitir o estabecimento, de outras populacoes em territorio ocupado.

    O debate entre Shlomo Ben-Ami e Norman Finkelstein e’ um exemplo de um debate informado, serio, respeitoso entre pessoas que teem enormes divergencias mas centram-se completamente na discussao dos temas. Vale a pena assistir. E, repito, o Filipe pode nao ter expresso a sua critica aos meios de comunicacao norte-americanos da melhor forma. Mas tem razao no fundo da questao: por que motivo os mainstream media nao passam pecas com a qualidade desta feita pelo Democracy Now? Se as questoes do Medio Oriente sao tao prioritarias na agenda? Vale a pena pensar nisso.

  16. Julia W diz:

    MPS. Os governos dos EUA sempre defenderam uma reciprocidade entre land-for-peace. Land que foi conquistada, durante sucessivas guerras de agressão. Israel não tem mais nada com que negociar. NADA. Gosto muito de Shlomo Ben Ami. Sempre gostei. E se lêr o seu livro Israel, que futuro, perceberá do que falo. Os mainstream norteamericanos fartam-se de explorar as questões de fundo, desde o 60 minutes até a PBS (televisão pública), debates de rádio. Os senhores pensam que os EUA são uma sociedade monolítica. Sim, muitos votaram em Bush, mas as coisas não são assim tão lineares. A Democracy Now é uma congregação de idealistas, que eu respeito. O problema é que a política internacional não é feita de “normatividades puras”, desconexadas de processos concretos (históricos). Não são movimentos como o DN que conseguirão a paz. Serão generais, políticos e a raison d´etat. Livni seria uma boa dirigente para Israel. O que que eu sei é que existem maiorias de ambos os lados que desejam a paz entre Israel e a Palestina. É uma situação trágica. As maiorias desejam a paz e é a guerra que persiste. Os israelitas estão fartos de guerras. E os palestinianos também. Já nada faz sentido no meio de toda esta merda.

    Sim, sou contra os colonatos em terra Palestiniana. Sharon afirmou, repetidamente, que todos os colonatos da cisjordânia seriam desmantelados. Conseguiu desmantelar alguns, mas outros persistem. Ninguém acredita na paz. O hamas conseguiu dar a volta à opinião pública Israelita. Israel saiu de gaza e o hamas foi eleito. Mas que se lixe tudo isto. Parece que gostam de andar à pancada. Não sou eu que vou decidir o futuro do médio oriente.

    Viemos aqui apenas para dizer o seguinte ao Filipe Moura. Nós, J e E, não concordamos contigo, mas respeitamos a tua posição. Viveste em NYC e, pelos vistos, gostaste de lá viver. Comeste a tua primeira lagosta e ouviste a tua primeira ópera nos United States of America. Não é coisa pouca! A partir de outubro estaremos lá, na cidade da Lady Liberty. Gostaríamos de te conhecer. Se alguma vez decidires regressar a NY, tens sitío para ficar e malta para conversar. Se quiseres claro. Podemos assegurar-te que serás bem-vindo em nossa casa. Teremos alguns pretzels para ti. O convite fica feito e é feito com genuina boa fé.

    We dont agree with you, but you have your heart in the right place, como dizem os New Yorkers. Na América há lugar para todos!

    all the best,J/E

  17. Julia W diz:

    “O Outro metafísico é outro de uma alteridade que não é formal, de uma alteridade que não é um simples inverso da identidade, nem de uma alteridade feita de resistência ao Mesmo, mas de uma alteridade anterior a toda a iniciativa, a todo o imperialismo do Mesmo; outro de uma alteridade que não limita o Mesmo, porque nesse caso o Outro não seria rigorosamente Outro: pela comunidade da fronteira, seria, dentro do sistema, ainda o Mesmo. O absolutamente Outro é Outrem; não faz número comigo. A coletividade em que eu digo ‘tu’ ou ‘nós’ não é um plural de ‘eu’. Eu, tu, não são indivíduos de um conceito comum.” (extraído de LEVINAS, E. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p.26.)”

  18. MP-S diz:

    Julia, o DN e’ mesmo um dos melhores argumentos que pode invocar em defesa da sociedade norte-americana. Nao e’ o unico, e’ claro.

    A PBS e’ uma excepcao no panorama mediatico norte-americano. Produz bons documentarios e tem alguns bons programas com pontos de vista alternativos como o do Bill Moyers, debates decentes como o do Charlie Rose (embora seja evidente que e’ muitissimo, muitissimo raro ver um programa dele em que se fale deste tipo de questoes como o faz Shlomo Ben Ami, ja’ para nao falar do Finkelstein — alias , este ultimo foi banido dos media por ser critico do governo de Israel, foi perseguido em Princeton, esta’ a ser perseguido em DePaul por obra e graca
    daquele tipo de Harvard Dershowitz; e’ verdade que ele e’ bastante cortante e antipatico, mas foi perfeitamente possivel ter uma discussao construtiva, mas e’ necessario um interlocutor do calibre e estatura do Ben Ami).

    Verdadeiros debates teem de ser como aquele do DN: comecer bem os factos no terreno, chamar os bois pelos nomes, ter a candura do Ben Ami. Compreendamo-nos: o Ben Ami a negociar em Camp David ou em Taba nao pode, nem deve! , falar como falou no DN. Nem nenhum negociador. Mas num debate publico e demcratico e’ nesses termos que se tem de falar. Julgo que se pode dizer que devia ser uma questao de honra pessoal. E de brio profissional e social no que toca aos jornalistas, jornais, televisoes et al.

  19. MP-S diz:

    PS: nao e’ so’ questao Israel-Palestina. Eu dou um exemplo: o C. Rose e’ um excelente profissional, inteligente e bem informado. Agora, nos meses que antecederam a invasao do Iraque foi confrangedor assistir aos programsa dele. O tipo era de uma subserviencia espantoasa perant o establishment. Lembro-me de um entrevista ao George Schultz; lembro-me de numerosas entrevistas em que ele perguntava com um ar genuinamente surpreendido ‘a pessoa que entrevistava se esta estava mesmo convencida que o petroleo era um factor importante para a invasao!…. E dava o tempo todo do mundo a nulidades como o Thomas Friedmann para vir explicar por Tukkanallah (ou como raio se escreve e pronuncia) as nobres razoes por uma “war of choice”. E a impaciencia, a rocar a grosseria, com que interrompia intelectuais serios como Tony Judt ou o Stanley Hoffman quando estes exprimiam o seu cepticismo e as suas criticas. E’ verdade que na sociedade norte-americana existe liberdade de expressao mas as pressoes informais (‘as vezes formais) sao extremamente fortes e tornam o panorama mediatico extremamente esquizofrenico. Quantos norte-americanos faziam, ou fazem, ideia de que o Bin Laden e’ um ex-aliado do governo dos EUA, ou que os EUA promoveram golpe de Estado no Irao nos anos 50? (alias, outro exemplo do Charlie: foi la’ aquele Republicano (Clyde Prestowitz) que mencionou o caso do golpe no Irao —- Charlie, num golpe de rins brusco, mudou o assunto mais rapido do que a sua propria sombra…)

  20. MP-S diz:

    Para acabar um ponto a favor do Charlie nessa epoca pre-invasao:

    uma entrevista hilariante com o Calvin Trillin que resumiu tudo numa simples expressao: “sissy hawks”.

  21. MP-S diz:

    Onde se constata que o problematica acerca da (des-)informacao se estende muito para la’ da politica… (ou sera’ uma manobra tactica dos evangelicos?!?) :O)

    http://cosmicvariance.com/2007/06/07/the-enlightenment-marches-on/

  22. Julia W diz:

    Concordo com quase tudo o que escreveu MP-S. Presumo que se refira ao Friedman do NYT. Nunca gostei dele e nunca percebi porque e como chegou onde chegou. Enfim. Shlomo Ben Ami, Stanley Hoffman, Finkelstein (não conheço) parecem-me intelectuais sérios.

    A estratégia de Sharon que, segundo o Haaretz, foi pensada por Livni, foi a melhor de sempre.

    1-Retirar de todos os territórios ocupados unilateralmente e recuperar a primazia moral, internamente e internacionalmente (além de ser uma questão da mais elementar justiça).

    2-Acabar com o boicote à AP. Nunca faltará dinheiro aos grupos terroristas Palestinianos, provenientes de “dadores árabes” independentes e de teerão. A lógica do boicote é idiotica. Magoa os inocentes e fortaleze os culpados.

    Mas,

    3-Combater ferozmente TODOS os grupos terroristas Palestinianos, dentro e fora da Palestina.

    4-Iniciar uma guerra subversiva contra o hezbollah. A ameaça a norte é muito perigosa e não deve, a meu ver, ser tolerada pelos israelitas. O terrorismo não se combate com tanques, tecnologia de ponta etc. O paradigma ” tecnológico ” está completamente errado. O terrorismo islâmico combate-se com um terrorismo selectivo.
    Israel precisa mais do que nunca de muitas Haganahs e Irguns e de uma política de Ha Havlagah (não se pode magoar inocentes, foi a política da haganah…Mas, tudo isto é, nos dias que correm, muito dificil de implementar, por razões várias).

    Tudo isto só será possivel se Israel se libertar do ónus, muitas vezes injustamente imposto, da “imoralidade” da ocupação-colonatos-boicote. Esta imoralidade é, por vezes, uma percepção completamente errada (por parte dos lefties Americanos e Europeus que detestam Israel)…noutros casos é de facto verdadeira.

    MP S, não te podes esquecer das milhares de estações de rádio independentes? Nem umas sete ou oito estações de televisão por cabo de elevada qualidade. Para não falar no acesso generalizado à BBC e CBC (canadiana), o New York Times, o Washington Post, o San Fran, os jornais de Boston e Philadelphia…come on, take it easy. Hoje diria que a vasta maioria dos Americanos sabe mt bem que Bin Laden foi apoiado pelos EUA e pela ASaudita. Não exageres.

    Época pré-invasão??

  23. J/, all the best to you too. Obrigado pelo simpático convite. Se for a NY (algo pouco provável em breve) aviso. Enjoy!

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