Filipe Moura:O novo aeroporto e o poder local

Estou convencido da necessidade da construção de um novo Aeroporto de Lisboa. Sobre a sua localização, inclino-me mais para a Margem Sul do Tejo (Poceirão ou Faias, os tais “desertos” de que o ministro falava, que aparentemente não têm grandes problemas ambientais ou de segurança), embora não tenha uma opinião definitiva. Mas admiro-me com quem a já tem, e defende a opção Ota sem prestar atenção devida a outros argumentos.
Houve vários aspectos risíveis nas declarações desastradas da semana passada, quer do ministro Mário Lino, quer de Almeida Santos. Independentemente de só este último, creio eu, ter medo de construir pontes por causa dos “atentados terroristas”, a verdade é que a necessidade da construção de uma nova ponte sobre o Tejo para um aeroporto na Margem Sul é usada como argumento pelos defensores da Ota, que são maioritariamente provenientes dos distritos de Santarém, Leiria e Coimbra (não conheço praticamente nenhum defensor da Ota que não provenha de um destes distritos). O extraordinário é que estes cidadãos (que, recorde-se, já têm – ou vão ter – uma ligação ferroviária de alta velocidade que os liga aos aeroportos de Lisboa – seja ele onde for – e Porto) crêem mesmo que a margem sul é um deserto, e que serão provavelmente eles os únicos utentes do futuro aeroporto. Ninguém pensa na acessibilidade de um aeroporto na Ota aos habitantes da margem sul (especialmente do Barreiro). As Faias ou o Poceirão ficam à mesma distância de Lisboa que a Ota, é verdade. Mas ficam mais próximas da população da Margem Sul de Lisboa e Setúbal, que de outra forma ficaria muito longe de um aeroporto internacional. Ninguém parece discernir que, seja para ligar os passageiros da margem norte ao Poceirão ou para ligar partes da margem sul à Ota, uma terceira travessia do Tejo vai mesmo ter de ser construída. Chegar à Ota não é a mesma coisa que à Portela. Por muito que isso assuste Almeida Santos. Ou então se calhar há quem repare, mas nos últimos tempos para defender a Ota tem valido tudo.
Ainda por outras duas razões, e embora não tenha ainda uma opinião definitiva e nem recuse liminarmente nenhuma das hipóteses, eu tendo a preferir um aeroporto na margem sul. A primeira é por esta localização ser mais distante do Porto, e é do interesse nacional que o aeroporto do Porto não seja subalternizado em relação à Ota. O norte e centro-norte do país devem ser servidos preferencialmente pelo aeroporto do Porto. A segunda, e quanto a mim a razão principal, é que tanto quanto sei um aeroporto nas Faias ou no Poceirão será mais seguro, mais barato e terá maior expansibilidade que um aeroporto na Ota.
Mas como sempre em Portugal tudo se reduz aos interesses locais. Toda a gente quer ter um aeroporto próximo da sua cidade ou freguesia. Receio que a questão do aeroporto seja decisiva nas próximas eleições autárquicas de Lisboa (quando não é um assunto só de Lisboa). Autarcas da região centro, das mais variadas cores políticas (CDS à CDU), defendem a construção do aeroporto da Ota. Entre os muitos autarcas do PSD que apoiam esta localização está Francisco Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém, que, com uma grande honestidade intelectual, recorda que a Ota sempre foi defendida pelo PSD até a o governo Sócrates decidir avançar. Ou seja, os interesses locais estão acima de tudo o resto, interesses partidários ou nacionais. Que seja assim com os interesses nacionais, acho pena. E o novo aeroporto de Lisboa é um grande projecto nacional (sem subalternizar os outros, como escrevi), que não diz só respeito a passageiros nacionais (se calhar diz mesmo mais respeito a passageiros estrangeiros). Deve permitir a transferência e o tráfego de passageiros entre a América do Sul, a África e outros países da Europa. Deve permitir a exportação de bens de consumo, de cargas que a Portela não está em condições de permitir. Deve ser grande o suficiente para tudo isto, que não é irrealista nem megalómano: dois pequenos/médios aeroportos, a alternativa que muita gente gosta de propor, não permitiriam nenhuma destas possibilidades.
Mas se o país se encontrasse dividido em regiões, como muita gente continua a insistir em propor, o mais provável é que se acabasse mesmo com dois aeroportos pequenos, em localizações distintas. O interesse nacional raramente coincide com a sobreposição de meros interesses locais. É bom que pensemos nisto.

Adenda: podem consultar-se as distâncias das diferentes opções a diferentes cidades no Blasfémias  A estes dados acrescento, a partir do Barreiro: Portela – 47 km, Poceirão – 54 km, Ota – 85 km.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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20 respostas a Filipe Moura:O novo aeroporto e o poder local

  1. Caro Filipe,

    o aeroporto do Porto não tem capacidade, nem voos para servir metade da população do país. Cada vez que reservo um voo tento SEMPRE o aeroporto do Porto, porque é melhor servido por transportes públicos (Pendolino+Metro de Supefície). Até hoje, NUNCA reservei um voo do Porto porque ou não existem voos para o meu destino ou porque existindo voos, os preços não compensam o que pago a mais para chegar à Portela e as chatices só para ir do Oriente até ao aeroporto (que não são poucas).

    A população do Norte+Centro são mais de 5 milhões.
    Faro serve o Algarve e quase todo o Alentejo.
    Um aeroporto a sul da margem sul (na margem sul não pode haver voos comerciais por causa dos fluxos migratórios de aves) serviria no máximo 4 milhões de habitantes. Além disso esse esquema tira todo o sentido ao TGV. O que é necessário é um aeroporto internacional e não um novo aeroporto regional para Lisboa na margem sul. Para isso mais valia fazer o novo aeroporto internacional junto ao Porto. O “centro de gravidade” da distribuição da população nacional fica a norte de Lisboa. Em tese a opção mais racional é construir o aeroporto perto desse “centro de gravidade”, sendo o Norte e o Sul complementados pelo aeroporto do Porto e do Algarve.

    Não sei se a OTA é a melhor opção nessa zona do centro de gravidade. Choca-me o monte que se vai arrasar para construir o aeroporto da OTA, mas a opção ideal, mais 30 menos 30 km, anda por ali.

    Filipe, a populaçao do Barreiro está a 85 km da OTA. Coimbra está a 140 km da OTA e a 180 km da Portela. E não te esqueças que uma boa parte dos passageiros do Grande Porto (eu diria 30%) voam da Portela. A semana passada quando entrei no Alfa às 6:30 da manhã, o comboio ia cheio. No Oriente era tudo de malinha a apanhar taxis para o aeroporto (não existe um transporte público dedicado entre o Oriente e a Portela, a linha 44 é a melhor opção, mas é uma linha urbana com horários caóticos). O paleio de vitimização do Porto do João Miranda e do Rui Rio é treta, eles não viajam de transportes públicos, não têm a mínima noção de que o aeroporto do Porto já está no seu limite e nem o próprio Porto serve.

  2. O autor não percebe patavina do que está a (tentar) dizer.

  3. antonior diz:

    Não é na margem Sul, mais precisamente na zona de Rio frio , Poceirão, etc…que está o maior aquifero subterrâneo da peninsula?
    Sabem o que isto é?
    Moro na Margem Sul e não me senti minimamente “ofendido” com as palavras de M.Lino, dentro do contexto ele tem razão, o problema é que em Portugal quando se trata de Obras Públicas toda a gente passa a discutir tudo sem perceber nada do que se discute. Foi assim com o CCB, Expo, Ponte V.Gama, Casa da Música,etc…aliás seria curioso ver o que se escreveu por essas alturas acerca desses projectos por certos escribas (comentadores) que agora criticam a Ota.Os argumentos são os mesmos .
    A localização no Poceirão seria a pior de todas, até por razões óbvias de financiamento.A UE não financia projectos com impactes ambientais
    como este, e gostava de ver onde se ia arranjar o dinheiro necessário para o construir…

  4. Rui, falando por mim posso apontar alguns problemas ao seu raciocínio:

    relativamente ao aeroporto do Porto, se não há voos ou são caros, isso é certamente um problema de organização/coordenação. Há que ver as razões para isso suceder. Não vale a pena dizer que é mau e que, portanto, precisa de uma alternativa por perto.

    Relativamente à distribuição da população está a levantar uma falsa questão. Dessa forma teríamos uma população de 6 milhões (digamos) servida por DOIS aeroportos e uma de 4 milhões marginalmente servida por um. Com um aeroporto na margem sul haveria a possibilidade de dividir a população do centro entre os aeroportos do Porto e de Lisboa (chamemos-lhe assim) enquanto que a do sul teria Lisboa à disposição. Faro, esse sim, é um aeroporto deplorável. Serve bem para o turismo (e até tem as melhores ofertas de voos vindas do centro da Europa) e pode ajudar a complementar, mas não vejo problema em que Portugal tenha estes 3 aeroportos desta forma. Já os voos das aves podem ser um problema, mas basta localizar o aeroporto um pouco melhor já que, tanto quanto sei (posso estar errado) os corredores migratórios são relativamente estreitos.

    O TGV fica sem razão de existir? Para mim não existe razão de existir o TGV, ponto final. Pelo menos parágrafo, já que ainda falta o parágrafo de uma rede ferroviária convencional em condições. Enquanto não se conseguir ir de Lisboa a Leiria sem mudar 3 vezes de comboio e em menos de 3 horas não valerá a pena construir um TGV que servirá uma meia dúzia de pessoas.

    PS – eu sou de Leiria. O aeroporto da Ota seria até o ideal para mim. Ainda assim estou disposto a pensar no quadro global.

    PPS – a Holanda, com 65% da área portuguesa, tem aeroportos em Amesterdão (Schipol, na realidade, mas perto o suficiente), Roterdão, Maastricht, Enschede e Eindhoven. Para mais fazem fronteira com 4 países. Será “overkill”?

  5. Luís Lavoura diz:

    João André, boa observação, essa sobre a Holanda.

    E a Espanha, aqui ao lado, tem aeroportos a operar em todas, penso, as capitais de província. Quando quis ir de Barcelona a Granada – e Granada é uma cidadezeca de merda – fui num avião, bem grande, a jato.

    O que Portugal precisa é de liberalização dos aeroportos, ou seja, que cada privado, cada associação de municípios, etc, seja livre de construir o seu aeroporto e de o pôr a operar, independentemente do monopólio estatal ANA, para vôos nacionais ou internacionais. Então, com 5 ou 6 aeroportos alternativos, em concorrência entre si, é que a população ficaria devidamente servida.

  6. João André:

    1- Eu escrevi: “Em tese a opção mais racional é construir o aeroporto perto desse “centro de gravidade”, sendo o Norte e o Sul complementados pelo aeroporto do Porto e do Algarve.” O aeroporto no “centro de gravidade” (OTA ou por lá perto) serviria Centro+Grande Lisboa+ norte do Alto Alentejo, isto é entre 6 a 7 milhões de habitantes. O aeroporto do Porto serviria o Norte do país e o de Faro o Algarve e quase todo o Alentejo. Não sei onde é que foste buscar a ideia dos “6 milhões (digamos) servida por DOIS aeroportos”…

    2- “Para mim não existe razão de existir o TGV, ponto final.”
    Portugal tem um grave problema a nível europeu, é um país geograficamente periférico. A rede transeuropeia de comboio de alta velocidade continua a expandir-se, esta semana foi inaugurado o troço Reims-Frankfurt-Zurique que passou a integrar na rede transeuropeia cidades da dimensão de Lisboa e do Porto, como Nancy, Metz, Basileia Munique e Luxemburgo.
    Não construir o TGV é tornar Portugal um país ainda mais periférico e isolado. Mas o mais grave é que o transporte ferrpviário é o transporte de massa menos poluente. Não construir o TGV é entregar o transporte de bens e pessoas ao transporte rodoviário, camiões, autocarros e ao transporte aéreo, ambos altamente poluentes.
    Lembram-se que temos quotas de emissões de gases de efeito de estufa a respeitar? A partir de 2012 essas quotas serão ainda mais restritivas…

    3- O problema do aeroporto do Porto não é um “de organização/coordenação”. O aeroporto do Porto é muito pequeno, a sua capacidade está quase no limite. É impraticável aplicar uma carga de 5 ou 6 milhões de habitantes (Norte+Centro) ao aeroporto do Porto. Nem o próprio Norte o aeroporto do Porto serve em pleno, uma parte substancial dos habitantes do Norte viajam pela Portela.

  7. Rui, para esclarecer, o tal comentário dos 6 milhões para dois aeroportos é o das populações (cálculos muito a olho e provavelmente errados) do Norte e Centro com Pedras Rubras e Ota. Do resto sobraria o norte do Alentejo na Ota e o resto do Alentejo e Algarve para Faro (que está pior que Pedras Rubras, note-se).

    A grande questão está em saber o que se quer para o aeroporto. Se for um aeroporto internacional importante, para fazer frente a Schipol, Frankfurt e Londres, nesse caso a localização da Ota é geograficamente a melhor: no centro do país. Para isso, contudo, é necessário criar uma rede ferroviária convencional que distribua os passageiros, coisa que ainda não há (mas já cá volto). Se se quer simplesmente substituir a Portela e agilizar o tráfego aéreo que vem para Portugal, o importante seria expandir (se possível) o aeroporto de Pedras Rubras (ou, se fosse impossível, criar mais uma alternativa para as reagiões a Norte de Aveiro/Viseu/Guarda) e manter aeroportos mais pequenos (nessa lógica até se poderia manter a Portela). Quando critico a Ota é no sentido de não gostar de uma insistência (que já vem de trás) num local que está provado tornar-se futuramente outro “bottleneck” por não ter possibilidades de expansão e por ser (segundo tenho lido) mais caro que outras alternativas. O que ma chateia é o facto de os argumentos a defender a Ota estarem a começar a cair no ridículo (independentemente de a margem sul ser “um deserto” ou não, o comentário é patético) e isso não ser bom sinal.

    Relativamente ao TGV, custa-me perceber como é que um TGV de Madrid a Lisboa nos tira da periferia. Ninguém vai pensar “Olha, vivo em Paris e, para ir até Lisboa, vou apanhar o TGV até Madrid e daí para Lisboa. Que se lixe o avião!”. As redes da Europa Central funcionam porque os países estão encaixados uns nos outros, ou seja, precisamente por não serem periféricos. O troço referido passa por várias cidades importantes numa extensão de 800 km. Madrid – Lisboa teria 600 km com apenas duas cidades importantes: precisamente o início e o fim. Além disso, note-se que não há tanto TGV na Europa quanto isso. Na Alemanha poucos troços funcionam realmente como TGV’s, por exemplo. A maior parte do país tem, em alternativa, redes de velocidade alta (250 km/h) no lugar das de alta velocidade (350 km/h). Amesterdão-Bruxelas-Paris apenas começa como TGV a partir de Bruxelas.

    Portugal precisa de pensar nas emissões de CO2? Sou o primeiro a referi-lo, mas também sou o primeiro a dizer de caras que não é com o TGV que se consegue isso. Um TGV entre Lisboa e Madrid tem mais quilómetros em Espanha que em Portugal. Um TGV entre Lisboa e o Porto retiraria alguma gente aos aviões e alguma gente à estrada, mas mesmo que duplicasse o transporte de passageiros ferroviários actualmente existente entre Lisboa e Porto, não faria grande impacto. Já uma rede ferroviária comvencional, com intercidades a irem de norte a sul e do litoral para o interior do país, isso sim, poderia retirar muita, mas mesmo muita gente das estradas. A minha visão seria um linha a vir de Faro a Santarém (passando por Beja e Évora) e depois duas linhas a subirem em escada pelo litoral e pelo interior do país, com ligações entre si no eixo este-oeste. Claro que isto seria um investimento apenas pouco superior ao do TGV com a desvantagem de ter pouca visibilidade mediática e dar poucos projectos megalómanos, mas enfim, que se há-de fazer…

    PS – é o maior aquífero subterrâneo da península, são as rotas migratórias das aves, até me pergunto como é que os seres humanos ali se conseguiram instalar. Fora de cinismos (o ambiente é para mim fundamental), parece que foi essa a grande razão do chumbo de Rio Frio e isso bastar-me-ia. Contudo, o Poceirão, pelo que tenho lido, não apresentará os mesmos problemas. Caso apresente, um impacto ambiental continua a bastar-me para pessoalmente chumbar a localização.

  8. Luís Lavoura diz:

    As pessoas às vezes não têm a noção das distâncias. De Lisboa até à fronteira francesa são 1.000 km (País Vasco), ou 1.200 km (Catalunha). E mesmo chegados a França, estamos ainda numa periferia: dessa parte da fronteira francesa até às grandes cidades da Europa, ainda temos mais uns 300 a 500 km pela frente.

    Por contraste, de Varsóvia até à fronteira francesa, atravessando toda a Alemanha, sáo apenas 800 km. Paris e Berlim ficam mais perto uma da outra do que Lisboa de Madrid (e note-se que Berlim fica na ponta oriental da Alemanha).

    Isto para confirmar que, como o João André bem diz, o TGV Lisboa-Madrid em nada nos tirará da periferia da Europa.

  9. F Gomes diz:

    Vou lançar uma atoarda!
    Fui ao Google Earth para ver onde ficava o Poceirão e qual não é o meu espanto quando reparo que em linha recta, até Tróia são cerca de 15 Kms (22Km por estrada até Setúbal).
    Quem diz Tróia, diz Belmiro de Azevedo. Quem é que, no seu juízo perfeito, não quer um aeroportozinho à porta?
    Para mais, o caso começa a soar muito mais alto na comunicação social, depois do falhanço da OPA da SONAE à PT.
    Portanto, por outros motivos, também estou de acordo não passa de lobbying local e no caso do Belmiro, revanche.
    O que é imperativo, é fazer-se outro aeroporto o mais rapidamente possível, sob pena de se perderem milhões em receitas turísticas. Na Ota ou na margem Sul.

  10. Nuno Cruz diz:

    “O problema do aeroporto do Porto não é um “de organização/coordenação”. O aeroporto do Porto é muito pequeno, a sua capacidade está quase no limite. É impraticável aplicar uma carga de 5 ou 6 milhões de habitantes (Norte+Centro) ao aeroporto do Porto. Nem o próprio Norte o aeroporto do Porto serve em pleno, uma parte substancial dos habitantes do Norte viajam pela Portela.”

    Então é simples, basta investir um pouco mais no Aeroporto Sá Carneiro. E por uma vez que o Norte teria um investimento estatal importante…

  11. antonior diz:

    É obvio que ficamos muito mais na periferia sem o TGV, e a periferia a que me refiro não se mede em Kms, e ademais não se pode comparar a situação na Alemanha ou Holanda com Portugal, é simplesmente ridiculo.
    Com quem nós temos que competir é precisamente com Madrid nas rotas transatlânticas , O TGV vem precisamente complementar a estratégia que permite combater o afunilamento desse tráfego via Madrid e Espanha.Com a Portela com a capacidade máxima e a ter que fechar as portas (acho mesmo impensável alguem defender um aeroporto dentro da cidade), qualquer dia vemos as grandes rotas comerciais a passarem-nos por cima da cabeça, a caminho de Madrid, Sevilha, etc…
    E segundo se sabe os Espanhóis aumentaram recentemente o aeroporto de Madrid sem necessidade de perguntar aos seus “encartados” comentadores, empresários, bloguistas e outros “senõritos” de opinión se o deviam fazer ou não, a clareza do assunto se discutido no devido plano é evidente.

    PS – Gostava imenso de ter em Portugal “cidadezecas de merda” como Granada, oh se gostava!!

  12. A discussão mais interessante que vai aqui é entre o Rui e o João, e é sobre… o TGV. Eu percebo os argumentos do Luís, e não é indefensável que o principal meio de transporte da península seja o avião. Mas também não é o oposto.
    Não penso no TGV como uma ligação à Europa, mas como um meio de viajar para Espanha (que o vai construir, quer Portugal alinhe ou não).

    João, tu conheces a Holanda muito melhor do que eu, mas pelo que sei o único aeroporto relevante é Schiphol. Os outros, francamente, nunca tinha ouvido! (Só Roterdão.) Creio que a Holanda aposta claramente num grande aeroporto “nacional”, mas não esqueçamos que os comboios holandeses parecem uma rede de metro – vai-se a todo o lado de comboio! (Como defendes para Portugal.)

    Em Portugal também precisamos de um aeroporto grande, mas sem descurar os outros. Rui, se o aeroporto do Porto é regional (e não deveria ser), o de Faro é ainda mais. E é… sazonal.

    Como disse, acho que se faria um melhor aeroporto na margem sul que na Ota. Mas se por razões demográficas tiver que ser na Ota, então que não se desactive a Portela (faça-se um shuttle TGV entre os dois aeroportos, como há de Fiumicino ao centro de Roma). No fundo estou convencido de que é isto que vai acontecer.

    (Este Humberto Bernardo não era um que fazia programas para criancinhas?)

  13. (Este Filipe Moura não é uma criancinha a tentar escrever sobre assuntos sérios demais para a sua compreensão?)

  14. «não se pode comparar a situação na Alemanha ou Holanda com Portugal, é simplesmente ridiculo». Pois é, não contesto isso absolutamente nada. Mas o argumento de usar o TGV para nos tirar da periferia é precisamente baseado nos estudos de França, Alemanha, Suíça, etc… Por isso refiro esses países.

    Os espanhóis aumentaram a capacidade de Barajas? Ora que maravilha. Fizeram eles muito bem. Claro que é mais fácil que construir um novo de raíz, não é verdade? Talvez por isso não tenham tido de ter grandes discussões. O da Portela, a propósito, também está em remodelação para esticar ao máximo a sua capacidade e aumentar a sua vida útil.

    O TGV ajuda-nos a combater os espanhóis nas rotas trasatlânticas? Como?!? Se alguém sair, por hipótese, da Itália, a caminho do México, digamos, vai apanhar o seu comboio em Roma (mais uma vez uma hipótese), vai seguir para Portugal, onde apanha o seu voo para o México. A única coisa que o TGV ajudaria na ligação Madrid-Lisboa seria se os espanhóis quisessem vir a Lisboa (digamos Ota, por exemplo) para seguirem para a América Latina. Ou se os sul-americanos tivessem uma vontade enorme de, após uma viagem de 7 ou 8 horas, ainda saírem para um comboio, que iria a Lisboa e só depois para Madrid e que demoraria mais tempo e custaria mais que uma segunda ligação aérea para Espanha. Não sejamos líricos, meus caros. O TGV deve ser completamente dissociado do novo aeroporto. O TGV apenas encontra a sua utilidade real nas mercadorias: transportando-as de Espanha por comboio rápido para um porto português que as distribua. Aí sim. Pelos passageiros é brincadeira, só pode.

    Filipe, duas notas. Schiphol é obviamente O aeroporto na Holanda. Os outros são essencialmente dedicados às low-cost, embora também sirvam para algumas companhias-bandeira. Ainda assim, com o tamanho e com os serviços ferroviários no país, as viagens “a sério” são por Schiphol. Mas sendo um país da Europa Central eles podem dispensar mais facilmente o avião.

    A segunda nota tem a ver com o “shuttle TGV”. Considerando que o TGV não pode acelerar nem viajar ao máximo em zonas urbanas, que demora uns quilómetros a fazer a aceleração à velocidade máxima, que a Portela nem sequer está bem localizada para um metro (pode ser construído mas é complicado) e que o TGV é caro “cumóscornos”, não me parece uma boa ideia. Um outro comboio talvez (se for possível construí-lo) mas um TGV parece-me um desperdício.

    E até ao momento ainda não vi ninguém a convencer-me (ou a tentar sequer) que um TGV é mais urgente que uma linha ferroviária convencional decente.

  15. Caríssimos,

    todos se lembram certamente do que aconteceu na última greve de camionistas franceses. Ficámos sem gasolina, entre outros BENS menos importantes. Parece que passa através dos Pirinéus muitos BENS que nos são essenciais. Eu fui bem claro quando falei no TGV: “transporte de BENS e pessoas”. Se a discussão do futuro dos nossos transportes em vez de se centrar em que quintal vai ficar o aeroporto e se centrasse no que é importante, estaríamos a debater, o mais importante, isto é, que a linha do TGV permitisse o transporte de mercadorias (a alta ou a mais baixa velocidade, durante os períodos mortos nocturnos as linhas estão completamente disponíveis). Uma tonelada de mercadorias transportada por camião consome mais 3 a 4 vezes mais energia do que por vias férreas. A emissão equivalente de CO2 de um comboio é 10 vezes menor do que a dum camião. Por exemplo, uma das nossas principais exportações, o vinho do Porto, não pode ser transportado por via aérea. Seria desejável que o seu principal consumidor europeu, a Alemanha, o recebesse por via férrea e não via camião. A alta (ou média alta) velocidade é muito importante para a manutenção da qualidade do Vinho do Porto.
    Para além disso, muitos dos principais eixos que nos ligam à Europa para lá dos Pirinéus estão completamente saturados e as novas regras europeias de circulação de camiões vão limitar ainda mais os horários de circulação. O comboio tem um fluxo potencial de transporte muito superior ao dos camiões.
    Conheço bem o estrangulamento de camiões nos Pirinéus, das minhas viagens a Estrasburgo de carro, 2000 km, e Coimbra-Toulouse, aquilo é uma aberração. Há três anos até escrevi uma crónica dessas viagens no meu blogue:
    http://klepsydra.blogspot.com/2003_09_01_archive.html#106249552125419556
    (recomendo a crónica ao Luís Lavoura, por causa das noções de distância, e já agora que o mesmo Luís confira Varsóvia-França: 1200 km e Berlim-Paris: 1000km vs Madrid-Lisboa: 630 km)

    É errado reduzir o nosso problema periférico ao turista que vem directamente do centro da Europa para Portugal. Esse vem por outros meios obviamente. Espanha é o segundo maior destino turístico do mundo. E muitos dos turistas que nos visitam passam por Espanha. Além disso, quem mais visita Portugal são os espanhóis. Conheço bem o Thalys (http://www.thalys.com/be/fr/), o TGV que faz Bruxelas-Paris, Bruxelas-Amesterdão, Bruxelas-Colónia e o que se verificou é que o turismo nestas cidades aumentou bastante (existem imensas fórmulas de fim de semana, feriados, etc.) dada a facilidade e rapidez do TGV. Obviamente, que não exite nenhum motivo para não se passar o mesmo entre Lisboa e Madrid, ou Madrid-Porto, ou Lisboa-Sevilha.
    Uma linha de TGV permitiria catalizar e reforçar laços com milhares de instituições e empresas sediadas (lembro que existem centenas de empresas e instituições internacionais/globais que tem a sua sede ibérica em Madrid) em Madrid, o que nos daria mais uma importante para combater a nossa situação periférica.
    Depois existem as fórmulas mistas avião-TGV muito comuns na Europa. Por exemplo a AirFrance tem uma fórmula avião-TGV entre Bruxelas e Lisboa (Bruxelas-Paris em TGV e Paris-Lisboa de avião). Sem TGV é inviável qualquer fórmula com Madrid ou outra cidade aeroportoária espanhola.

    PS- João André estás desactualizado consulta a página do TGV(http://www.tgv.com/). A rede expandiu-se muito nos últimos tempos, agora podes ir de Londres a Munique de TGV.

  16. antonior diz:

    O que eu acho é que não se deve partir da folha em branco para se discutir este (e muitos) outros assuntos, existem estudos e mais estudos que justificam ou não as opções a tomar, e não devemos nos deixar levar pela nossa perspicácia perceptiva ou empirismo.
    O que os Espanhóis têm é uma capacidade de perceber estratégicamente o que lhes convem e agirem rapidamente, e comparar o aumento do aeroporto de Madrid (para aumentar o negocio) ao da Portela (para não perder negocio por falta de solucões) é não perceber isso mesmo.
    O TGV embora perceptivamente não o pareça é fundamental para fazer parte da rede europeia de transportes, que vai além do passageiro que vem da América latina e que não está paras ir de comboio para Madrid, etc…isso é uma caricatura do que está em causa.Aliás tambem existem estudos sobre isso, a questão é que ninguem os quer ver, ou debater.
    Não defendo nem gosto de decisões burocráticas, mas também não deprecio nem desvalorizo a opinião técnica de pessoas que levaram metade da vida a estudar isto. A principal questão é que estas escolhas não são feitas para o presente, mas para o futuro, e se pensarmos na Europa daqui a 10/15 anos não será dificil ver que elas fazem sentido, não é preciso ver o “Blade Runner”.

  17. antonio, existem estudos? Pois bem, isso é do que mais deve haver. Infelizmente parecem ser estudos apenas para a Ota. Fez-se um para Rio Frio e fizeram-se uns dez para a Ota. Isso não é dar oportunidade de escolha. Será a Ota a única opção, mesmo na margem norte? O que me parece é que se quer convencer a opinião à custa de estudos, todos a apontar para o mesmo lado (no caso da co-incineração, por exemplo, lembro-me de um professor universitário ter aresentado dois estudos sumários, um a defender e outro a atacar a co-incineração, apenas para demonstrar que os estudos mostram o que se lhes pedir). Repito, para se decidir é preciso ter algo sobre que decidir. A decisão da Ota parece ser entre fazer o aeroporto na Ota em moldes já completamente definidos e não fazer o aeroporto.

    Do TGV continuo na minha: não vi ainda qualquer razão para lá do snobismo em que seja fundamental para fazer parte da rede europeia de transportes. A Alemanha tem apenas algumas linhas em alta velocidade, a Holanda não as tem, outros países terão uma ou outra linha. Portugal, pelo menos para passageiros, não tem neste momento (nem no futuro próximo) grande necessidade de um TGV. Tem, isso sim, necessidade de possuir uma rede ferroviária convencional de qualidade. Apresente-me alguma explicação convincente para ser fundamental umaz linha de TGV Porto-Lisboa-Madrid e provavelmente calar-me-ei, de outra forma parece-me que se quer dizer que “é bom porque é bom”. Faz-me lembrar o popular “o que arde cura” dito às criancinhas para não se queixarem do desinfectante. Terá alguma verdade, mas não deixa de ser essencialmente curto, muito curto.

  18. Ainda estou para saber o que se passa com o sistema de comentários já que ainda não tinha visto o último comentário do Rui, mesmo tendo já deixado um posteriormente. Ou se calhar é problema do meu computador. Adiante.

    Claro que o transporte de mercadorias deve ser feito preferencialmente por comboios, mas a questão (por exemplo) do Vinho do Porto é redutora. Nada do que é transportado actualmente por camião necessita de ser transportado por TGV por questões de velocidade. O vinho poderia ser perfeitamente transportado por outros comboios, mais convencionais. Ainda assim, o transporte de mercadorias é precisamente o lado por onde se pode (e se tem que) viabilizar o TGV. Nota que eu não sou contra o TGV, apenas acho que é querer colocar o carro à frente dos bois. Quando não é possível fazer viagens normais no país por comboio, não vejo razões para querer gastar o dinheiro com o TGV.

    O Thalys é um exemplo interessante, mas não incluas Amesterdão. É certo que é servida por Thalys, mas não anda às velocidades TGV na Holanda. Além disso, nota a quantidade de cidades já importantes e, especialmente, ricas (ou de grandes negócios) que essas linhas normalmente atravessam. Não seguem tanto de X a Y, antes vão de A a H, passando por B, C, D, F e G. Mas tens razão que daria jeito, apenas repito que é um investimento não fundamental. Fundamental é o de uma rede convencional. E considerando que não há dinheiro para tudo e que teríamos que tomar opções, a minha é certinha: a da rede convencional no lugar do TGV. O TGV continua a soar à lógica das famílias que vivem remediadas, mas que se endividam para comprar um Mercedes. É bonito e até pode dar jeito, mas há muitas outras necessidades pela frente.

  19. antonior diz:

    João André, para se fazer um aeroporto internacional com as caracteristicas do novo aeroporto existem certas premissas (continuidade geografica, populacional, acessos, etc…) que inviabilizam a localização do aeroporto em por exemplo Castelo Branco, Guarda, Coimbra, de acordo?
    As localizações da Ota e Rio Frio foram consideradas tendo em conta estas premissas.Rio frio é chumbado por razões ambientais de peso e que impedem o financiamento do projecto pela UE, além de que a maior parte da população se situa no entre Lisboa e Porto (infelizmente) e no Litoral. Agora imagine que apos o método(?) que defende se partia do principio (novamente ) e se faziam estudos e mais estudos, e os estudos apontam para um terreno “maneirinho” a norte do Tejo ali ao pé Castelo Branco, ou então na planicie de Beja.Acha que alguem no seu perfeito juizo ia construir um aeroporto como este aí?
    A localização deste aeroporto tem varias condicionantes, e avaliadas todas as condicionantes chegaram à conclusão que aquele é o melhor sítio.Quanto a mim boa parte dos argumentos que se esgrimem são demagógicos.Agora parece que está na moda defender outra vez a portela + 1, que é uma não solução só justificável pelas eleições em Lisboa.
    Quanto ao Tgv é uma opção que visa o futuro e que é política e com o tipo de desenvolvimento que queremos ter, mas o Rui Curado Silva explicou acima parte das razões e que eu concordo em absoluto.
    O que convem lembrar é que o uso de um serviço/ bem por vezes vai além do que o que foi originariamente previsto, o caso do TGV em Espanha mostrou que trouxe maior desenvolvimento ás cidades médias
    e que o seu uso ultrapassou o previsto, desenvolvendo novas dinâmicas

  20. «Quanto a mim boa parte dos argumentos que se esgrimem [contra a Ota] são demagógicos».

    Quer isso dizer que custos superiores, impossibilidade de expansão futura do aeroporto (e que já se sabe vir a ser necessária de acordo com as expectativas de crescimento do tráfego aéreo), facilidade da construção (que se traduz também em maior velocidade) para não falar noutros eventuais que agora não me lembro (mas já os li) são demagogia? Lamento se me custa pensar que terei de pagar (bem, eu não que estou no estrangeiro, mas os portugueses em geral sim) um aeroporto que será umas duas ou três vezes mais caro, demorará mais tempo a construir e que apenas adiará o problema que se propõe resolver.

    Eu não tenho um “método”. Apenas digo que foram feitos estudos para duas localizações. Um foi chumbado por aspectos ambientais o outro parece ser apresentado pelos seus defensores como a única alternativa lógica. O curioso é que o argumento que serve para chumbar outras localizações (geografia) não parece ser usado para Rio Frio que, se não fosse o impacto ambiental daria perfeitamente.

    A questão é muito mais simples. É precisamente aquela que refere: eleições. As de Lisboa, as do Porto e as nacionais. Na Ota o aeroporto está a meio caminho entre Lisboa e Porto. Na margem sul (seja lá onde for), está a servir apenas e só Lisboa e o Porto que se amanhe com Pedras Rubras que, com um novo aeroporto, já se sabe não vir a ser melhorado ou modernizado ou outro “ado” qualquer.

    Isto para não falar de potenciais interesses financeiros, mas esses já são apenas especulação e cheiro. A esturro.

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