Peregrinação (em dias de azar)

 Texto de Joana Amaral Dias

Filme de Edgar Pêra

Repórter: João Trindade

Câmara: Francisco Castor

O consumo, enquanto actividade sistemática, global, base do nosso sistema cultural, acompanhada pela celebração permanente dos objectos, atinge todo o seu esplendor nos centros comerciais (CC). Estes espaços não são apenas locais para comprar. São a aliança da mercadoria com os serviços, lazer e cultura. Locais onde o cliente tanto pode comprar como divertir-se. Consumir, “socializar”, “culturalizar-se”, passear. Tudo no mesmo sítio. Tudo a valer o mesmo.
Nos centros comerciais, os locais onde, por excelência, se consome não por necessidade mas por status, e de modo a maximizar a alienação e o fetichismo, nada é deixado ao acaso. A localização é sempre cuidadosamente escolhida, a disposição das lojas meticulosamente pensada. Os folgados e polidos corredores, para além de facilitarem a circulação (mas sem grandes velocidades), são todos semelhantes, confundindo como um labirinto. Uma perdição. Para encontrar a escada rolante há que atravessar meio centro, para chegar ao consumo mais essencial -a comida – é necessário passar por toda a outra abundância e panóplia. A luz e a temperatura artificiais permitem uma primavera constante e tornam a passagem do tempo imperceptível. Ao contrário das principais artérias das cidades, cujos marcos são as horas electrónicas, relógios é coisa que não existe num CC.  Não há tempo. Não há orientação espacial e temporal. Os cheiros são controlados e o barulho também. Geralmente “músicas” “adaptadas às circunstâncias”. Nem mesmo dinheiro circula. Só cartão. De preferência de crédito, de forma a que a sublimação do real seja mais conseguida. As vitrinas tendem a desaparecer. A “tentação” é mais directa. A montra, que exibe e esconde simultaneamente, e que representa a glorificação dos bens antes da transacção, vai entrando em desuso. Já nem é necessário mimar os objectos. As áreas de alimentação imitam as praças urbanas, do mesmo modo que esses centros vão conjugando o comércio “tradicional” com o novo comércio e o ritmo dos nossos dias com “a antiga passeata”. Não raras vezes, os CC têm fontes de água, plantas e rochas. Tudo bem misturado com o vidro, o betão e o aço. Uma natureza esterilizada. Em épocas de festa, a decoração adapta-se à emoção barata, pois é sempre de “felicidade” que se trata.


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Os shoppings apresentam-se como lugares de conforto, portanto. Mas também de segurança. Garantem sempre que não há azar. Os sistemas de videovigilância são sofisticados e a diferença entre as fontes, as praças e as ruas de um CC e as das cidades é que nas primeiras não existem mendigos, sujidade e “poluição”. Não há tumultos e confusões. Está-se longe do caos urbano e os consumidores têm “as condições materiais que as nossas cidades anárquicas lhes recusavam” (Baudrillard).
Mas a segurança tem um preço. Aumenta a construção de gigantescos CC nas periferias. À medida que crescem os bairros de lata (nas suas múltiplas variantes “favelares” ou “sociais”) e diminuem os espaços verdes, surge a necessidade de criar zonas de segurança  nesses “arredores”. Quais? Centros comerciais e condomínios fechados. Aliás, existem, cada vez mais, os shoppings para ricos e os shoppings para pobres. Os capangas à porta e os preços dos produtos determinam, com facilidade, a clientela. Existem mesmo CC com dress code. Aqueles do tipo “sem a indicação do valor nas vitrinas”. Não tem cartão, não entra. O preço desta segurança é mais do que o aumento das desigualdades sociais. É a invisibilidade social.
A arena do objecto-espectáculo responde à diminuição dos espaços públicos nas grandes cidades de uma forma particular. Os CC são um espaço privado com características de uso público. No shopping, as pessoas podem fazer o “isolamento em conjunto” de que falava Debord. Podem resgatar – numa experiência artificial- a sensação de colectividade em vias de extinção. E podem viver na assepsia e dormência: “este lazer é uma droga popular tão repugnante quanto o turismo ou compras a crédito (…) todos estes detalhes participam de uma ideia burguesa de felicidade, ideia mantida por um sistema de publicidade que engloba tanto a estética do Malraux, como os imperativos da Coca-Cola”.
Rudy Rucker dizia que os CC eram balões de ensaio para o futuro. Uma experiência de como viver no espaço, em planetas inóspitos e sem outras formas de vida que não a nossa. Uma perspectiva cujo optimismo faz do ser humano o salvador do cosmos. Afinal, seria através da destruição da Terra e do consequente imperativo de colonizar outros planetas, que o universo – aparentemente infértil– passaria a ser habitado. Ficções à parte, aproveito para informar o leitor que a bibliografia referida neste texto foi adquirida num enorme loja (com um café lá dentro- cheio de sumos, bolos e bicas) de livros, discos, revistas, computadores, telemóveis, pilhas, baterias e gadgets, no piso intermédio de um ciclópico centro comercial que inclui montanhas russas, centros de massagem e relaxamento, estabelecimentos para deixar de fumar, tabacarias, casas de hambúrgueres, livrarias especializadas, cinemas, ginásios e lojas de porcelanas. Só não há elefantes.

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