O paraíso na outra esquina (2)

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Há erros enormes que, vistos do lado de cá do tempo, nos parecem risíveis. Foi assim quando, outrora, um dos administradores da IBM declarou que não valia a pena investir em computadores pessoais (PC) porque ´não mais de duas ou três pessoas no mundo estariam interessadas em comprar tal coisa´. Foi assim, a fazer  fé na lenda, quando uma célebre editora argentina recusou o manuscrito dos “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez.
Quando nos rimos desses falhanços, esquecemo-nos que todos os prognósticos no fim do jogo são fáceis. Há mesmo “ciências” que são legitimadas pela negação dos seus erros. Diz-se da Economia, a tal que tem problemas em acertar a taxa de juros e de desemprego ao mesmo tempo, que o bom economista é aquele que nos vai explicar amanhã a razão porque aquilo que previu ontem não aconteceu hoje.
Sejamos justos, qualquer ciência é uma afirmação de regularidades, uma tentativa para descortinar sentido no meio do infinito. Aparentemente, essa ideia lida mal com uma realidade que não é feita de regularidades mas que, pelo contrário, é o singular acontecido que lhe dá sentido.
No seu prefácio à edição em inglês, de “L´Etre et L´Evénement”, Alain Badiou escreve: “A truth is solely constituted by rupturing with the order witch supports it, never as an effect of that order”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a O paraíso na outra esquina (2)

  1. maradona diz:

    Nunca concordei com essa frase, por mais ridiculo que isso possa parecer. Parece-me desproporcionadamente encharcada de ideologia para ser levada a sério. E se não está, parte do principio que é facil percepcionar a verdade subjacente ao nosso estado e aos nossos inquéritos, o que não é de todo, como dizer, verdade. Muitas vezes (para ser modesto), é muito mais dificil descobrir as verdades que nos constituem que inventar umas novas ao lado. Por outro lado, a ciencia não é “uma tentativa para descortinar sentido no meio do infinito”. A ciência é, apenas, um método. É preciso meter esta merda na cabeça. A ciência pode ser utilizada para descortinar um “sentido no meio do infinito”, é certo, mas também pode ser utilizada para “não descortinar um sentido no meio do infinito”. A ciencia pode ser utilizada para tudo, mas não deve ser utilizada para muita coisa, como por exemplo para marcar pontos politicos, como tenta nuno ramos de almeida. Este é um post demasiado ambicioso para ser bom.

  2. maradona diz:

    adenda

    quando disse…

    “A ciência pode ser utilizada para descortinar um “sentido no meio do infinito”, é certo, mas também pode ser utilizada para “não descortinar um sentido no meio do infinito”.

    …queria e quero também dizer que o método cientifico pode chegar a um “sentido no meio do infinito” como pode chegar à ausência de “sentido no meio do infinito”.

    Como dizia, tudo isto é demasiado ambicioso para um ponto politico tão pequeno (sem fazer, sinceramente, nenhum juizo sobre o valor do mesmo).

    Em todo o caso, ninguém gosta de economistas.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Olá Maradona,
    O positivismo já tem alguns anos.

    Abraço,
    Nuno

  4. maradona diz:

    Mas não os suficientes.

  5. maradona diz:

    Adenda:

    Nem eu próprio estou agora a ver bem o que é que queria dizer com este “Mas não os suficientes.” Mas há um minuto atrás pareceu-me excelente. Enfim, acho que não era necessário chamar um senhor morto para esta questão. Acho que no discurso politico a ciência fica sistematicamente investida ou desinvestida de qualidades e defeitos consoante as circunstancias, e que toda a gente concorda que isso é cansa.

    É a segunda vez que encontro a frase “A truth is solely constituted by rupturing with the order witch supports it, never as an effect of that order” nos ultimos dois meses e desde já deixo aqui a ameaça de ler Badiou. Este tipo de gajos conseguem-me convencer de tudo. Mas parecem-me sempre os menos comprometidos com qualquer especie de verdade. Andam sempre à procura de se confirmarem ou justificarem a si mesmos (o que no caso é compreensivel). Mas, lá está, não é por terem essa intenção que o que dizem deixa de poder ser verdade.

    Finalizando, acho mal que as pessoas procurem a verdade sobre isto e sobre aquilo e sobre tudo. E sentidos…. acho péssimo que se procurem sentidos. Um gajo se os encontra, optimo. Agora procurar? Não pode ser. É como procurar a mulher da nossa vida. Pelas minhas contas, há 13 pessoas a sul do tejo que encontraram a mulher da vida deles, e nenhum estava à espera disso.

  6. Estou a trabalhar e não tenho muito tempo. Telegráfico:De facto as mulheres da margem sul são um mistério. Quando falo de sentido, não pretendo impor uma moralidade à Física e à Geologia, apenas digo que buscam uma explicação que dê sentido à aquilo que acontece. Quando falo de Economia ou de Sociologia discordo que estejamos apenas a falar de um método. A economia pode analisar uma situação, mas também implica uma escolha de política económica. Por exemplo, se escolhemos dar prioridade à inflação ou ao investimento.
    Em relação a questão filosófica subjacente, acho que na ausência de melhor inspiração, a busca da verdade serve perfeitamente.

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