Filipe Moura:Lisboa bem amada que mal me quis, que me quer bem

Devo começar por esclarecer que eu sou um alfacinha de gema: nasci e vivi em Lisboa até acabar o curso. Saí depois por nove anos e regressei recentemente. Conhecia muito bem a cidade quando parti, e continuo a conhecer, no que diz respeito a pontos de referência. Mas estive fora muito tempo: o tempo suficiente para não conhecer muitos dos locais da cidade que pessoas da minha idade, que cá ficaram, conhecem.
Um exemplo paradigmático é o “Lux”, onde de resto nunca estive. A primeira vez que ouvi falar no “Lux”, sem o saber, foi quando li, num artigo do Miguel Sousa Tavares no Público, a expressão “esquerda Lux”. Percebi a quem é que o Miguel se referia, mas associei o “Lux” à conhecida marca de sabonetes. Julguei que, por alguma razão (talvez um anúncio…) o sabonete “Lux” estivesse associado à “esquerda Lux”. Ou então talvez, por algum motivo para mim obscuro, o Miguel Sousa Tavares conhecesse os hábitos de higiene pessoal de Ana Drago ou Miguel Portas.
Tudo isto para dizer que por vezes sinto-me um estranho em Lisboa, a cidade onde cresci. Em particular, não conheço praticamente nenhum dos locais que a Marta Rebelo referiu no seu texto  da semana passada. O único lugar que eu conheço, simplesmente de nome, é o “Eleven”, do relato da minha irmã, cujo trabalho é ligado à Medicina, e que por pura coincidência ainda na semana passada teve um jantar de uma conferência nesse restaurante. (Os médicos adoram fazer as suas conferências nos locais mais luxuosos;dizem-me que é dos patrocínios da indústria farmacêutica. Só por comparação – e desculpem se estou a falar muito de mim – eu sou físico, e o meu orientador costuma dizer que, num banquete de físicos, as pessoas mais bem vestidas são os empregados de mesa.)
Quis o destino que eu, enquanto estive fora, vivesse nas duas “capitais do mundo”, Nova Iorque e Paris. E que eu tenha o enorme privilégio de, graças a isso, me sentir em casa nessas duas cidades. “Sentir-me em casa”, numa cidade, é saber fugir aos locais destinados aos turistas endinheirados. Paris não é só os Grands Boulevards ou o Bd. Saint Germain: também é Montparnasse (para um canard) ou a Butte Aux Cailles (para um boudin noir). Nova Iorque não é só o Rockefeller Center. Na Grande Maçã encontrar locais que não se destinem a turistas endinheirados não é fácil à partida, mas é possível. E nos arredores, como referi a semana passada, é possível comer “lagosta com todos” por menos de dez dólares. Ambas as cidades têm muitos locais principalmente destinados a fazer dinheiro com os turistas, mas recebem um volume de turistas que Lisboa não recebe e nem receberá. Apesar disso, mantêm uma vida própria: não dependem dos turistas. O comércio, a restauração, a cultura são para todos os habitantes (salve as desigualdades sociais, que principalmente em Nova Iorque são muitas), e não só para os turistas.
Posso estar a ser algo injusto, não conhecendo muitos desses locais (por não me atraírem), mas o que me deixa mais apreensivo em Lisboa é que, nestes últimos anos, parece ser uma cidade mais preocupada com os turistas do que com os seus habitantes. E, por isso, uma cidade muito pouco acolhedora. Principalmente para quem, como eu, aqui cresceu e sabe o que deveria esperar. E isto é um erro crasso: não são os turistas que vão dar vida ao centro da cidade e às zonas históricas todos os dias, todo o ano. Em Nova Iorque ou Paris há zonas que sobrevivem assim (só graças aos turistas), mas Lisboa não tem esse potencial. Por isso Lisboa tem de pensar mais sobretudo em quem cá trabalha e mora em casa alugada ou nos arredores. Nos jovens trabalhadores precários, a maior parte licenciados e doutorados. Nesse aspecto Lisboa teria muito a aprender com o Porto e com cidades portuguesas mais pequenas, com menos atractivos culturais mas uma qualidade de vida melhor.
Uma vez mais, não conheço a «Wallpaper», a revista que a Marta Rebelo refere. Mas creio que faríamos melhor se em alternativa prestássemos mais atenção a guias como o “Time Out”, ou o “Let’s Go!”, ou o “Lonely Planet”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

15 respostas a Filipe Moura:Lisboa bem amada que mal me quis, que me quer bem

  1. Não sei se este comentário “Os médicos adoram fazer as suas conferências nos locais mais luxuosos;dizem-me que é dos patrocínios da indústria farmacêutica” foi tão inocente quanto soa, mas é, pelo menos pelo que parece, delicioso.

    Quando ao facto de Lisboa não ter potencial para “ganhar vida” à custa dos turistas, não posso concordar consigo. Eu não moro em Lisboa, mas trabalho cá. E, não é tanto quando consigo, porque estas coisas são tanto mais prazerosas quanto inusitadas, mas não é raro viver (algumas zonas) de Lisboa como um campo de férias. Agora, não deixo de lhe dar razão quando diz que Lisboa tem de ser povoada de gente dinâmica que lhe dê uma identidade contemporânea. Quando viajo, o que mais gosto de conhecer são as gentes de cada sítio. Nesse sentido, Lisboa está empobrecida. Dá um retrato faccioso do país e das suas gentes.

  2. “Agora, não deixo de lhe dar razão quando diz que Lisboa tem de ser povoada de gente dinâmica que lhe dê uma identidade contemporânea. Quando viajo, o que mais gosto de conhecer são as gentes de cada sítio. Nesse sentido, Lisboa está empobrecida.”

    Nem mais: é isso mesmo que eu quero dizer. E isso só vem confirmar aquilo que eu disse antes: a cidade de Lisboa não tem potencial para ganhar a vida à custa dos turistas (nenhuma tem, mas Lisboa menos do que outras). Eu não estou a falar de alguns empresários: estou a falar de Lisboa.

  3. João diz:

    Mas filipe enquanto (nalgumas cabecinhas bem pensantes) os ganhos de alguns empresários for sinónimo de ganho de lisboa torna-se difícil lisboa evoluir…

  4. Luís Lavoura diz:

    Concordo com o último parágrafo. É muita pena que muitos autarcas só pensem no centro de Lisboa em termos de comércio e turistas. Só querem beneficiar o comércio instalado e os turistas, nunca os moradores, atuais ou potenciais.

  5. jt diz:

    O principal problema de Lisboa, penso eu, é que o seu centro é pouquíssimo povoado e a maioria dos seus habitantes são idosos. Logo, a partir de uma determinada hora, Lisboa é um deserto, sem vida, sem sítios onde beber um café, tudo com um aspecto desolador.

  6. f. diz:

    essa relação entre não haver sítio para beber um café a partir de certa hora e o povoamento é um pouco peregrina, jt. a lapa é dos bairros mais populosos de lx, cheio de gente de todas as idades, e veja a animação daquelas ruas a partir das 8 da noite. o mesmo se aplica em relação a bairros periféricos onde só há habitação. os horários de abertura do comércio (e toda a sua lógica) têm muito pouco, pelo menos em portugal, a ver com esse tipo de relação.

    a baixa de lx está sempre cheia de gente a passear aos sábados e domingos. basta estar um tempo aprazível. mas a maioria das lojas e estabelecimentos fecha ao domingo. porquê? porque sim. muitos ainda fecham à hora do almoço, também. que tem isso a ver com lógica comercial? rigorosamente nada.

    quanto ao número de pessoas que efectivamente vive na baixa-chiado, está por fazer esse levantamento. eu, que moro na zona, posso garantir que hopuve nos últimos 10 anos um repovoamento gradual com pessoas entre os 25 e os 45 anos.

  7. Luís Lavoura diz:

    f.

    A lógica comercial é em Lisboa virtualmente inexistente. Nas lojas é-se sempre mal atendido – os empregados exibem, com pouco disfarce, o enfado que é estarem a servir o cliente. O cliente é considerado um indivíduo estúpido, perturbador e largamente desnecessário à loja. O esforço para se ser agradável e prestável ao cliente é portanto nulo.

    A coisa é totalmente oposta no Porto, onde existe uma real lógica comercial. Os lojistas são atenciosos e compreendem que há que atrair os clientes, satisfazê-los e servi-los o melhor possível.

    Nas lojas do Porto é-se recebido com simpatia, nas de Lisboa com agressividade.

    Ou seja, lógica comercial é coisa que não existe em Lisboa. Isso verifica-se nos horários do comércio, mas não só neles.

  8. Luís Lavoura diz:

    Em Lisboa uma pessoa que queira comer num restaurante ao domingo vê-se e deseja-se. Há pouquíssimos restaurantes abertos. Aqueles que estão abertos estão à cunha, é difícil arranjar mesa.

    Se houvesse lógica comercial, muitos restaurantes abririam ao domingo, para satisfazer o mercado existente. Mas isso é anátema para a maior parte dos donos e empregados de restaurante. O cliente é, para eles, um utente: serve-se quando o restaurante está, e se estiver, aberto.

  9. Luís Lavoura diz:

    A abertura de cafés em Lisboa nada tem a ver com o mercado local. Em Lisboa as pessoas que querem ir a um café são supostas deslocar-se a bairros ou localizações específicas onde esses estabelecimentos existem. Por exemplo, no Bairro Alto há muitísimos cafés e restaurantes mas pouquíssimos habitantes. Noutros bairros há muitíssimos habitantes mas pouquíssimos cafés e restaurantes. É assim Lisboa.

    É uma cidade muito estranha.

  10. f. diz:

    luís, estamos de acordo. uma vez mais. incrível, hã?

  11. Eu também estou de acordo com o Luis Lavoura e a Fernanda. Olha que giro.
    Se formos agora a ver em qual dos candidatos à Câmara votar é que se calhar não estamos de acordo. Olhem, o Sá Fernandes, esse guru de uma certa esquerda (não sei bem porquê – nunca o ouvi dizer nada de esquerda) ufana-se por nunca usar transportes públicos. Viaja em Lisboa de táxi ou boleia, segundo li numa entrevista.

  12. f. diz:

    hum, filipe. eu voto no que vender os brócolos (com ó) mais baratos.

  13. Right, Mrs. Maude Findlay! How is Florida doing? 🙂

  14. Luís Lavoura diz:

    f.

    não fico nada chocado nem espantado nem magoado por estar de acordo consigo.

    Se nem sequer a conheço, nem tenho nada contra si.

  15. Fernando baena diz:

    nesta minha navegação na blogosfera, à descoberta, não de infíeis para converter nem oiros, consigo encontrar (e em Português) opiniões inteligentes e analises de prespectiva sã (no meu modesto crítério). Eu também sou utlilizador das zonas de Lisboa mais cosmopolitas, nomeadamente a Baixa/Chiado. Já assinei petições, angariações, e estou mais ou menos a par das visões que os políticos tem para a zona. É tudo muito confuso e começo a concluir que em comparação com outras cidades da Europa, Lisboa demora a emancipar-se a todos os níveis, começando pelo factor humano. Nós já não vivemos no Estado Novo, boa, mas vivemos no Estado Velho, e os hábitos, (por ex. fechar aos domingos, ou até só o simples facto de fechar para descanso) não descolam da formatação contempôranea, neo-moderna, anti-funcional e para um País pobre como realmente somos hoje, anti-económica e anti-social. Alguns destes hábitos renovados podiam colmatar numa proporção interessante algum desemprego, mais actividade social e económica e de uma vez por todas permítir a quem aqui vive, um mainstream cultural, próprio de gentes inovadoras e críativas que nós somos e que estão conscientes das potencíalidades desperdiçadas ora pelo poder do Estado/Autarquia ora por um tecido empresarial a necessitar de upgrades e muitas vezes de ser removido, dando oportunidades a outros. Dizem que vivemos num mercado livre, mas é muito mais livre para uns que para outros, o que não ajuda à ignição de novos riscos, projectos, e hábitos de uma forma célere o sufíciente para nos sentirmos confortáveis em Lisboa sem que para isso tenhamos que ser parentes dos xeiques àrabes. Obrigado

Os comentários estão fechados.