O papel de parede lisboeta

A «Wallpaper», talvez a mais reputada revista de design, arquitectura e moda do mundo, lançou-se planeta fora e desenhou pequenos booklets que guiam o viajante por cidades estrangeiras.
Há cerca de um mês chegou o «Wallpaper City Guide» de Lisboa. Não deixa de ser curioso que a chegada desta proposta cosmopolita de (re)visita da cidade seja simultânea ao seu literal abandono ao vento. Destino cruel de um município onde encontramos a Estação do Oriente, que deu a Santiago Calatrava o Brunel em 1999, ou a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, de 1934, obra modernista onde pontua o cimento e os vitrais de Almada Negreiros.
Lancei-me no desafio de imaginar que a par do «Pestana Palace», do «Noobai», do «Eleven» ou da «Bica do Sapato», é muito possível entrar no mesmo eléctrico n.º 28 que o «Wallpaper City Guide» recomenda, e dar de caras com o cosmopolitismo lisboeta adiado.
Começamos pela saída dos Prazeres e o estacionamento e circulação intensa de automóveis que vai de Campo de Ourique até ao Chiado. Mesmo parando para um café n’«A Brasileira» – que perde, no «Wallpaper», para o «Careca» do Restelo, e lá fica Pessoa sem estatuto de contemporaneidade – ou um repasto no «Pap’Açorda» – este sim, um eleito – não podemos deixar de nos interrogar porque é que o parque habitacional do Bairro Alto, de Santa Catarina, do Chiado, pese embora rendido a um novo comércio de alto preço, continua por recuperar, ocupar e encher das mesmas pessoas que por ali apenas passeiam mas não vivem. E se formos ao «Noobai», aproveitar um fantástico pôr-do-sol, é inevitável deparar com lixo, muito lixo, no miradouro do Adamastor. Ou o trânsito da fuga dos não lisboetas ao final do dia, de regresso a casa, a congestionar a 24 de Julho, lá me baixo.
Mas continuemos no 28. Segue-se o sugerido «Café Nicola», instalado na Praça do Rossio que, apesar do rosto recentemente limpo, alberga zero habitantes e centenas de casas vazias em prédios decrépitos – e não se percebe onde para, ou parou, o Projecto de Revitalização da Baixa-Chiado. Na mesma baixa, Rua do Ouro eléctrico acima, há sempre de banda sonora as queixas dos comerciantes, mas nada a fazer… o português gosta do seu centro comercial. Alguns habitando mesmo edifícios com dignidade para serem considerados pela «Wallpaper» como marcos arquitectónicos: as Amoreiras e a Praça de Touros do Campo Pequeno.
Passada a Graça, onde os reparos se repetem e porque é que só pontualmente são recuperadas as casas das colinas céu acima desta cidade?, chegamos ao Martim Moniz, com direito a um cheirinho de Almirante Reis. E do Intendente. Julgo que o editor do booklet não passou por ali. Não pode ter passado. Porque ou o projecto de dar a Lisboa um «Wallpaper City Guide» abortava, ou nele constavam avisos florescentes para que os olhos sensíveis dos amantes do design e da modernidade bonita por ali não passassem. Apesar dos esforços de ajardinamento, aqueles gigantescos edifícios onde se comercia não sem bem o quê e que tapam a colina do Castelo e o que por lá se vai passando, não vêem abaixo. Não há como.
Acabado o passeio de eléctrico, restam-nos ainda várias opções. Problema: temos de atravessar o Marquês. Ou de túnel, ou de obras, mas sempre com trânsito. É escolher. E para o chá na «Versailles», ainda temos muito pó, cimento e arame farpado a ultrapassar, até que o metro passe, ordeiro e certeiro, por ali. O mesmo problema para ir ao «Galeto».
Jantar implica o movimento inverso, e o Marquês novamente. É impossível que o leitor típico da «Wallpaper» não se renda à «Bica do Sapato» e ao «Lux». Ou mesmo ao «Maxime», até altas horas. E espero que sim, porque acordar Domingo numa Lisboa fantasma, ausente viv’alma, tudo encerrado a sete chaves excepto os tais centros comerciais, exaspera qualquer visitante de bom gosto. A estes, é sugerido o rio, o CCB ou o teleférico da antiga Expo….
Outros factos desconhecidos pelo editor do «Wallpaper City Guide»: não temos tido um cêntimo para revitalizar a baixa; os bairros históricos estão em degradação predial profunda, não fosse uma recente mas pontual vaga de inquilinos «trendy»; o trânsito que entra e sai mas vai estando dentro da cidade leva os nativos à loucura; vivem menos de 500 mil pessoas na cidade, «and counting down»; Lisboa está parada, no marasmo da indecisão política e das crises existenciais ou policiais do executivo que, finalmente, se demitiu. E não há pastel de Belém ou «palmier» do «Careca» que adocique a realidade do buraco orçamental de mil milhões de euros.
Depois desta passeata, o melhor a fazer é rumar aos «Meninos do Rio»: mar à vista, carros poucos, não é recomendado pelo «Wallpaper City Guide» mas é «trendy» q.b., e pensar que Lisboa pode ser, realmente, das mais cosmopolitas cidades desta velha Europa. Mas não é.

Sobre Marta Rebelo

QUINTA | Marta Rebelo
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24 respostas a O papel de parede lisboeta

  1. Luís Lavoura diz:

    A Marta pergunta porque é que os prédios do Bairro Alto (e de outros sítios) não estão recuperados. Há muitas razões. A mais óbvia é: porque as pessoas não querem ir morar para lá. (A Marta quer? Quer mesmo?) As pessoas não querem ir morar para o Bairro Alto porque é barulhento, porque a circulação automóvel (não só dentro do bairro mas também para a ele aceder) é difícil, porque não há onde estacionar o carro, e porque os prédios têm caraterísticas péssimas: são muito profundos mas muito estreitos, o que faz com que no interior tenham muito pouca luz, e isso são caraterísticas que dificilmente uma remodelação interior consegue eliminar.

    Além disso, para que é que as pessoas hão-de querer ir morar para o Bairro Alto, quando há casas modernas, com divisões espaçosas e cheias de luz, com garagem e boas vias de circulação, etc, na periferia da cidade? Provavelmente é até numa dessas casas que a Marta mora… e quer morar. A Marta gostaria que muitas pessoas morassem no Bairro Alto… desde que ela não fosse uma dessas pessoas, claro!

  2. tiago neves diz:

    Há escolhas que se têm de fazer na vida, e uma delas pode ser não ter carro nem aquecimento central, nem aquecedor de toalhas, nem mais uns metros em casa para por inutilidades e gastar mais dinheiro ainda nos centros comercias. Por outro lado pode ser também ir a pé para o trabalho ou apanhar poucos transportes demorando apenas meia hora no percurso trabalho-casa e fazendo algum do exercício diário recomendado. Viver o bairro (qualquer que ele seja) e a cidade na rua é outra das hipóteses, impossível em qualquer subúrbio. Se as pessoas fizessem as contas do que poupam em carro e deslocações para qualquer necessidade morando no centro da cidade, se calhar fariam outras escolhas.

  3. f. diz:

    exactamente, tiago.

    ao luís lavoura quero dizer que, ao comtrátrio do que ele diz e, de certa forma, ao contrário do que a marta afirma, não só há muita gente a querer viver no centro da cidade, bairro alto incluído, como a recuperação da cidade central tem sido feita sobretudo à custa dessa vontade e das pessoas que a têm.

    vivo na sé e nos dez anos em que ali moro a minha rua foi sendo recuperada, prédio a prédio, e os prédios, andar a andar, foram sendo ocupados por pessoas entre os 25 e os 45 anos. aliás, já escrevi sobre essa ideia, que considero falsa, da lisboa deserta e abandonada (vide a adenda ao meu texto de segunda).

  4. O comentário do Luís Lavoura não representa mais do que a sua opinião sobre o que deva ser viver no Bairro Alto. Eu acho que ele tem uma ideia distorcida da coisa; mas tem-na, e é a sua. Paciência. Para além do problema das rendas (que a marta ignorou…) há um outro que me parece mais profundo e que poderá não ter solução: os portugueses enamoraram-se (perdidamente) pelos carros e centros comerciais. Enquanto essa relação destruidora da vida das cidades subsistir, não há “plano” nem proclamações de amor por Lisboa que nos valham.

    A ideia da Fernanda dos mercados de bairro é boa, mas não sei se depende de um exercicio de vontade política. Talvez. Não sei.

    O que sei -e aí a vontade política pode fazer a diferença- é que algo semelhante ao que foi feito em Londres podia ser tentado em Lisboa: taxar as entradas e canalizar as receitas para os transportes públicos (reabilitando parte das linhas dos eléctricos).

    Marta: espero que este post não atinja os “míticos” cento e imensos comments da tua ultima prestação no 5 dias…

  5. Luís Lavoura diz:

    Uma vez que me parece que algumas pessoas ficaram com uma opinião distorcida sobre mim, quero dizer que não vivo em nenhum bairro histórico, mas mesmo assim vivo bem perto do centro de Lisboa, na região do Campo de Santana, a 5 minutos a pé do Marquês de Pombal. E acrescentar que só uso o carro ao fim-de-semana.

    O comentário da Fernanda sublinha aquilo que eu disse: se se quer revitalizar os bairros históricos, o essencial é que haja pessoas que queiram ir viver para eles e que se disponham a investir o seu dinheiro para recuperar os prédios, ou construir prédios novos. A revitalização dos bairros históricos não é uma taefa que compita ao poder político: compete aos cidadãos. Aqueles que estejam interessados em que os bairros históricos se revitalizem (não é o meu caso!), devem pôr o seu dinheiro onde põem a sua conversa, e mudar-se para eles.

  6. Luís Lavoura diz:

    João Galamba, recuperar as linhas de elétricos é uma ideia muito romântica, mas péssima. Porque os elétricos não andam porque qualquer automobilista pode bloqueá-los estacionando o seu carro em cima da linha. Isto é a realidade, não vale a pena fingir que ela é diferente.

    Os elétricos só podem funcionar com eficiência, na atulidade, ou em ruas nas quais o trânsito automóvel seja proibido (caso da via Santos – Cais do Sodré, em Lisboa), ou em avenidas largas nas quais os elétricos percorram o centro da avenida (caso da avenida da Boavista, no Porto). Em qualquer dos casos, os elétricos têm que estar hermeticamente separados dos automóveis!

  7. MPR diz:

    A descrição feita da cidade é desoladora, mais desoladora que a própria cidade, que tem problemas, certo, mas que não é o deserto imerecedor da tal “Wallpaper” que está descrito. Quem olhe para o Chiado de há dez anos ou o Chiado de agora vê claras difererenças, bem como na Baixa ou no Bairro Alto. Isso é notório, eu vivo na Baixa, não tenho um apartamento no meu prédio que esteja desocupado, e todos os inquilinos estão na casa dos 30 anos.
    Agora, Luis, dizer que a revitalização dos bairros históricos não compete ao poder politico é uma enormidade. Claro que compete ao poder politico, compete aos municipios manter a cidade intacta e viva, recuperando para tal os imóveis em seu nome e os espaços públicos, bem como criando incentivos e obrigações para os particulares. Em toda a cidade, principalmente nos bairros históricos que são o coração de Lisboa, o seu centro turístico, histórico, cultural e patrimonial. “Construir prédios novos” nos bairros históricos é delapidar esse património e esperar pelos privados é simples suicídio. É óbvio que rende mais dinheiro construir um prédio novo de 15 andares com 2,5 metros por andar, do que reconstruir um prédio em que se tem que manter traça e materiais, com 4 andares e 3,2 metros por andar. Se fosse pelos privados, pelo simples lucro, Lisboa antiga caía e construia-se Amadora por cima. Ainda bem que o poder político, por pouco que faça, ainda tem esse noção e não entrega à vontade do freguês aquilo que é de todos. Porque, na verdade, é património de todos, mesmo que o Luis não goste. Há certas coisas que valem mais do que a simples soma das partes e que o Estado tem que proteger.

  8. Marta Rebelo diz:

    Caros,

    Naturalmente, o meu texto não pretende ser exaustivo e cobrir todos os mil problemas que afectam a cidade de Lisboa. Se serve de mote à discussão, já me parece bem.
    Eu não afirmo ou sequer penso que não há quem queira viver nos bairros históricos. Bem sei que há. Eu bem gostaria! (pese embora considere que o local de minha residência pouco interessa ao debate, e menos ainda ao Luís Lavoura e aos termos em que se avança à questão). Afirmo, isso sim, que os ditos bairros têm de ser recuperados de forma integrada, e considero que esta tarefa global não deve caber apenas ao esforço dos habitantes, mas também aos poderes públicos locais. Recuperar bairros implica muito mais do que reabilitar imóveis. Significa alterar a configuração de redes de abastecimento, arruamentos, reordenação do trânsito, espaços verdes, um conjunto cruzado de políticas públicas. Sem potenciais interessados, naturalmente, o esforço público é inútil. Sem o esforço público, o interesse privado não basta.
    Para as pessoas escolherem, ou revelarem, ou porem em marcha as suas preferências, é necessário escolha e esforço público.

  9. Luís Lavoura diz:

    MPR, não, não compete ao poder político. Ao poder político compete servir por igual todos os habitantes da cidade e as necessidades deles todos. Não lhe compete andar a inventar projetos políticos que não beneficiam ninguém, ou que beneficiam muito poucos, à custa dos impostos de todos. Nem lhe compete andar a inventar obrigações peculiares para os proprietários de prédios em certos bairros, que não sejam também obrigações para os proprietários de prédios de outros bairros.

    Ademais, no meu modesto entender, a cidade serve para os seus residentes. Não é feita para servir nem aos turistas – que não votam para a Câmara Municipal nem pagam impostos – nem aos comerciantes – que em boa medida estão na mesma situação que os turistas.

    Eu não admito que o bairro onde eu vivo seja prejudicado para beneficiar os comerciantes da Baixa e os camones que vêem visitar a Baixa. E verifico que, infelizmente, é precisamente isso que os espertaçhões que pariram uma coisa chamada “Plano de Revitalização da Baixa-Chiado” pretendem: para beneficiar os turistas e os comerciantes, decidiram gastar o dinheiro dos nossos impostos para ir desviar o trânsito da Baixa, onde ele não incomoda virtualmente ninguém uma vez que ninguém reside na Baixa, para ir pôr esse trânsito a circular atavés do bairro onde eu vivo, no qual mora muita gente. E este tipo de intervenções do poder político, eu não tolero.

  10. Luís,

    A ideia de revitalizar os eléctricos só é romântica porque existem selvagens que param mal os carros. Se se punisse A SÉRIO quem o faz, a coisa mudava. Vivi quatro anos em Londres (que também tem zonas antigas e labirinticas) e nunca vi comportamentos como os que todos os dias, infelizmente, se vêm por cá.

  11. Maria Marques diz:

    Há que reconhecer que os bairros históricos ganharam protagonismo com Pedro Santana Lopes, apesar de ele – e Carmona – não ter implementado tudo o que propôs, em especial no que toca ao estacionamento. Mas a verdade é que algo foi feito. Eu moro na Graça e desde 2002 que o ritmo de obras em prédios acelerou. E tiveram a verdadeiramente brilhante ideia de colocar sentidos únicos nas ruas estreitas à volta de minha casa, o que já me deu a ganhar horas de vida que dantes eram perdidas a fazer marcha atrás ou a ouvir discussões entre condutores que não queriam fazer marcha atrás.

    Quanto ao estacionamento, o bom senso manda que não se cumpram as leis em Lisboa, e menos ainda nos bairros históricos. Eu tenho garagem (um luxo!), mas tenho noção da dificuldade dos outros. Para exigirem estacionamento regrado, têm que ofercer alternativas adequadas (e andar nas ruas antigas de Lisboa do Martim Moniz onde há um parque até meio da encosta, se calhar com filhos e tralhas avulsas, não é adequado). Porque não transferem os habitantes dos prédios camarários (que agradeceriam, que os prédios camarários são os mais degradados) para habitações dignas e neles constroiem silos? Depois disso, podem exigir carros fora dos passeios e das passadeiras e a deixar espaço para o carro do lixo e os reboques.

  12. tiago neves diz:

    bem tudo isto é complicado e parece-me que há culpa de parte a parte. os políticos têm se calhar dado pouca atenção aos moradores e muita aos promotores imobiliários e construtores de parques de estacionamento. os moradores não querem perscindir do automóvel particular (essa grandiosa aposta do cavaquismo – a par com as marquises) e acham que a cidade não é feita por todos, moradores, comerciantes, turistas, e moradores na períferia que vem aqui trabalhar. os autocarros e electricos não funcionam como deveriam porque há carros a mais, e quem só anda de carro na cidade é incapaz de compreender que o uso egoísta e comodista que faz do carro é o primeiro entrave para que os transportes públicos funcionem melhor (e não há comparação com a rede de há por exemplo 15 anos). pois, a grande obra que lisboa precisava nestes últimos seis anos não era o túnel do marquês, eram parques dissuasores na periferia de lisboa e concelhos limítrofes a par com campanhas de sensibilização para o uso de transportes públicos (não, as campanhas não é dizer avulso que andar de transportes públicos é chique…)

  13. Sebastião Sá da Bandeira diz:

    ADORO esta mulher… Ouvi-la falar, escrever, ou simplesmente refletir sobre os bolos do “Careca” já é suficiente para pensar que vale a pena aos 29 anos, ainda encontrar alguém com um pensamento tão refinado… de 29 anos!
    O que escreve, parce-me tirado das teclas…

    PARABÉNS!

    P.S. Pena é ser Socialista… mas não será essa a graça? 😉

  14. Luís Lavoura diz:

    Maria Marques, se o bom senso manda que não se cumpram as leis em Lisboa, os automobilistas não se devem espantar de encontrar o seu carro riscado por um canivete num dia em que o tiverem deixado estacionado em cima de um passeio.

    Ao fim e ao cabo, não são só os automobilistas que devem, com bom senso, não cumprir as leis; os peões também terão o seu bom senso.

  15. MPR diz:

    Ah Luis, finalmente percebi esse ódio todo aos bairros históricos. Tem mais trânsito à sua porta e isso irrita-o. Percebo, simpatizo, quando ao fim de semana fico com dificuldades em estacionar o carro por causa dos turistas, também fico irritado. A questão aqui é que não basta olhar para o número de habitantes para se saber as prioridades a dar e o dinheiro a gastar. As necessidades de cada zona da cidade são diferentes, bem como o seu valor intrínseco. Se, por exemplo, alguém demolisse um prédio em Telheiras (ou dois ou três), pouco mal daí viria ao mundo. O mesmo se não poderá dizer de um quarteirão na Rua Augusta. É que existe algo chamado valor histórico, valor patrimonial, cultural. A Baixa, segundo creio, vai ser candidata a património mundial, o que prova que, mesmo que o Luis não goste, realmente existem diferenças e especificidades nas diferentes zonas. Mais a mais, o facto de um certo local estar vazio, só indica que o Estado tem ainda mais obrigação de lá investir, de criar regras, recuperar, reestruturar e incentivar a sua reanimação. Não é só assim em Lisboa, é assim em todo o lado. Daí por exemplo, o trânsito ser proibido em certas partes de Londres e não noutras. Mesmo que alguns habitantes, olhando apenas para o seu umbigo, sem pensar na cidade como um todo (não é sua obrigação, mas podiam fazer um esforço) se sintam incomodados.

  16. polegar diz:

    eu queria morar no centro histórico. é caro, caríssimo. é inflaccionado. parece que é chique morar nos bairros históricos, há muita gente bem endinheirada a deitar a unha às localizações mais bonitas e a fazer obras nos interiores (não vamos questionar o assassinato à estética dos prédios, sim?). há outros tantos que empenham tudo o que têm para conseguir a casinha dos sonhos na Bica, no Bairro Alto, em Alfama, na Graça, no Rossio e por aí fora. apesar das más condições a que têm de se sujeitar só para comprar a casa.
    mas é muito caro. se juntarmos a isso a inflação de todos os serviços (água, gás, electricidade) SÓ por ser em Lisboa, temos a noção de que nem todos podem viver no centro.

    a responsabilidade também tem de ser do estado: reabilitar os prédios e favorecer a ocupação dos andares pelos jovens. que assim são estimulados a estimar e investir nos seus condomínios.

    é património histórico, tão simples como isso.

    ou quererá, Luís Lavoura, uma Nova Telheiras no Rossio?

    parece-me um homem arrojado o suficiente para, quem sabe, demolir o bairro que circunda o Sacré Coeur (Place du Tertre, etc) porque já está datado e ali um daqueles condomínios privados com piscina, solário e campo de ténis ficava mesmo a calhar… hum?…

  17. Luís Lavoura diz:

    polegar

    Não gosto de Telheiras.

    Quando falei em reconstruir os prédios dos bairros históricos, não me referi a destruição das suas fachadas. As fachadas podem ser preservadas quando se reconstrói.

    Infelizmente, em muitos casos, o problema é que os prédios dificilmente dão para reconstruir, porque são muito estreitos. As pessoas hoje em dia querem quartos amplos e com luz. Não querem, em geral, quartos interiores ou iluminados apenas por sagões. Ora, muitos prédios lisboetas têm uma fachada para a rua (e para as traseiras) demasiado estreita, que não dá para neles fazer mais do que um quarto, uma sala e uma cozinha com luz. O que pode ser bom para uma pessoa sozinha, mas dificilmente uma família tolera.

    Por isso, a reconstrução terá que passar, em muitos casos, pelo emparcelamento de propriedades – juntar dois prédios num só.

    Seja como fôr, não é função do município andar a gastar dinheiro com a reconstrução (ou reparação) de prédios. A reconstrução (ou remodelação) deve ser feita por privados, quando houver procura para o prédio reconstruído e, portanto, essa reconstrução fôr rentável. Não deve o município andar a reconstruir prédios quando ninguém quer ir habitar para o prédio reconstruído, e pagar o investimento que nele foi feito.

    E isto para mim parece-me óbvio.

  18. MPR diz:

    Já agora. Qual é o prédio reconstruido na zona histórica que está vazio porque ninguém lá quer ir habitar? Mesmo que houvesse, por essa lógica Óbidos ainda estava no chão, ou Monsaraz, ou até mesmo o Mosteiro dos Jerónimos. Que eu saiba não vive lá ninguem!

  19. polegar diz:

    pronto, Luís, está visto que discordaremos eternamente.
    porque eu considero que a zona histórica de Lisboa é um património cultural que se compõe não só de monumentos mas também de toda a traça habitacional característica de uma época, que deve ser preservada. e que não deve viver ao sabor e gostos duvidosos de investidores privados.
    o ponto em que diferimos é que eu considero que este é um património de todos! e se o estado recupera monumentos, deve recuperar as fachadas e estruturas destes prédios. deve haver uma permuta, uma colaboração estreita e uma intervenção eficiente e cuidada. para mantê-los não só como cenário, mas vivos. para netos e bisnetos e cacarocanetos um dia usufruírem ainda dessa paisagem urbana. já não falo dos turistas que lhe entopem o passeio à porta de casa.
    a recuperação dos prédios apenas os valoriza e os torna mais apetecíveis para morar. para serem habitados por gente que posteriormente pagará os impostos municipais, dará vida a uma Lisboa deserta à noite e rentabilizará um espaço histórico que neste momento está… digamos… a acordar da dormência. atrair juventude, gente que a Baixa Lisboeta já merecia ter a viver nas suas artérias. são casas pequeninas? são boas para jovens (casais ou não) em início de carreira, que apreciam o valor real de poder ir para o trabalho, zonas culturais e de entretenimento sem ter de comprar o maldito carro.

    é uma boa ideia, essa de juntar internamente dois edifícios. mas tem de ser feito dentro da traça original da arquitectura da época. não pode ser feita segundo os desvarios de um qualquer construtor/pseudo-arquitecto só porque ele tem dinheiro. têm de haver regras.
    e tem de se estimular as pessoas a viverem nas zonas antigas porque apreciam realmente as zonas antigas, a sua poesia, a sua história, o seu traçado e – obviamente – as vantagens do centro – e não porque têm garagem, clarabóias, marquises ou o raio.
    e não esqueçamos que há casas antigas que têm áreas enormes, de cortar a respiração. nem tudo é ínfimo.

    a minha dúvida é: deve-se deixar tudo a cair de podre até aparecer um riquíssimo benemérito do património – que É DE TODOS – e que transforme os prédios? (e posteriormente vende/aluga os fogos por balúrdios idiotas e/ou rentabiliza a coisa albergando empresas que enchem os interiores de corticites e luzes de cozinha?)

    pense em Óbidos, em Marvão. para não listar aqui tantos centros históricos recuperados com o auxílio das entidades estatais e que hoje brilham.

    deixe o Estado fazer ao menos qualquer coisita digna de um elogio unânime…
    porque sinceramente, também ainda não percebi onde é que acha que eles devem estourar os subsídios comunitários para recuperação do património. e os nossos impostos municipais…

  20. MPR diz:

    clapclapclapclap… polegar minha cara, em grande!

  21. MP-S diz:

    “ecuperar as linhas de elétricos é uma ideia muito romântica, mas péssima. Porque os elétricos não andam porque qualquer automobilista pode bloqueá-los estacionando o seu carro em cima da linha.”

    Nao e’ essa a minha experiencia. Vivo na Alemanha, Heidelberg, e as linhas de electricos funcionam na perfeicao e estao a ser expandidas de forma rapida. Vou regularmente a Strasbourg: optimas linhas de electricos. Visito Nice com regularidade e o centro da cidade esta’ cheia de obras para instalar o electrico. Na verdade, parece-me ser o transporte urbano ideal por variados motivos: nao emite gases, nao e’ barulhento, e’ bonito, e’ rapido e confortavel. Do ponto de vista economico, tem a vantagem de ser fixo e assim estimula e viabiliza o pequeno e medio comercio ao longo do seu trajecto.

  22. Julia W diz:

    Lisboa, Napoles e Palermo são as minhas cidades preferidas da Europa. Todos elas são parecidas com San Francisco, a minha cidade preferida na America do Norte, espcialmente Lisboa. Marta, desculpe lá, mas eu não me guio pela Wallpaper. Pouco me interessa a Wallpaper… o que um grupo de meninas ou meninos bourgeois (e nouveaux riche: aquele aspecto clinico, a montagem metódica da percepção, a cadeira de x denuncia-os, …detesto tudo isto!! ) acabadinhos de saír da Central St Martins…ou da MIlano school …ahhhrahhhhh… Lisboa (a as outras cidades) são caòticas, VIVAS, contradictórias, desorganizadas, violentas, dramáticas…em suma, são LINDAS!! Adoro-as!! Sempre que visito Lisboa, geralmente a regressar de Paris ou de Frankfurt (borring), sinto, mal aterro, um agitar generalizado..uma vontade de respirar, de sentir aquele azul profundo do inverno lisboeta….Na minha opinião, a zona mais interessante para se viver em Lisboa é o intendente…recordo-me de uma casa, que faz canto, com azulejos azuis e brancos…as prostituitas, os pimps, toda a agitação de mercado…comprarei lá uma casa!!…muito parecido com partes de brooklyn(nyc), de brixton (london)…Não sou escritora, mas é o sitio perfeito para um escritor…não faltam estimulos…Eu ADORO LISBOA!

    ps: e o 1 de Maio é o meu fav restaurante. Conheço o dono. Muito simpático. Oferece-me sempre um vinho do porto.

  23. Julia W diz:

    Violentas sem serem agressivas. Em Londres ou NY pode ser assaltada à mão armada. Eu já andei dezenas de vezes sozinha à noite em Lisboa e nunca me aconteceu nada (isto não é argumento, posso ter tido sorte) Em Londres, nos piores mas mais interessantes bairros, é um inferno. Dezenas de putos (gangs) que atacam indiscriminadamente. É a nova moda.

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