Jorge Palinhos: dr. Teles e Melo pratica desporto

O dr. Teles e Melo está de muito mau humor. Este é um evento mais raro do que conhecidos e amigos do dr. Teles e Melo julgam, e normalmente é causado apenas por três motivos: comida fria, falta de pontualidade e socialistas a ganharem eleições num qualquer ponto do universo.
Neste momento era o primeiro destes motivos o causador do seu mau humor e o dr. Teles e Melo fê-lo saber claramente à d. Felismina, a sua empregada, dizendo-lhe que mais valia passar fome a ter de digerir torradas frias.
Era, por isso, em baixo de forma que o dr. Teles e Melo se preparava para o seu desgastante desporto matinal: a leitura dos jornais.
O dr. Teles e Melo tem provas concretas e irrefutáveis de que as faculdades de jornalismo são campos de reeducação do PCP e de que o cartão de militante do Bloco de Esquerda é requisito obrigatório para se obter a carteira profissional de jornalista. As provas concretas e irrefutáveis estão mesmo diante de si: as próprias notícias e espalhadas pelo papel, recheadas de insinuações anti-americanas, ataques subtis aos partidos liberais e conservadores, propaganda encapotada aos partidos de extrema-esquerda, falácias pseudo-científicas sobre o aquecimento global, ditirambos anti-mercado e anti-liberdade, ataques virulentos ao cristianismo, apologia do fundamentalismo islâmico e mentiras descaradas sobre as deslocalizações e reestruturações de empresas.
Para ultrapassar a dura prova de passar os olhos por elas, o dr. Teles e Melo desenvolvera uma técnica única de ler os jornais.
Faz o seu aquecimento nas páginas de economia, onde exercita os músculos neuronais em pertinentes reflexões sobre como tudo seria muito melhor se não fosse a interferência dos Estado. Em seguida, vislumbra os cabeçalhos do desporto, flexionando as articulações emocionais para as coisas sérias e para trocar umas palavras com os taxistas.
Depois, inspira fundo duas ou três vezes, faz estalar o pescoço e passa a coisas sérias. Começa por ler na diagonal as páginas de ciência, onde fica levemente indignado com as petas do aquecimento global e a desinformação sobre a concepção inteligente do mundo, consulta em seguida as páginas de informação local, onde resmunga bastante caso haja aldrabices e ataques contra os autarcas que promovem o verdadeiro desenvolvimento e o progresso, em vez de se preocuparem com arbustos e pardais ou subsídios a parasitas teatreiros.
Nesta altura, sentindo já os nervos a latejar, o dr. Teles e Melo esfrega os olhos com o lenço, limpa as lentes dos óculos e prepara-se para o pior. Entra na parte da política nacional e rapidamente começa a agitar-se e a resmungar em voz alta, não resistindo a amarrotar páginas onde imperem patranhas das alegadas “medidas” governamentais socialistas, alarmando-se consideravelmente sobre o crescente totalitarismo do poder do estado, e tendo palpitações de fúria perante os logros da educação e saúde debaixo da alçada estatal.
Quando entra na política internacional, o dr. Teles e Melo já não consegue resistir a levantar-se e a atirar com os artigos mais embusteiros, como as intrujices sobre o Iraque, as fraudes sobre a política externa americana, e bate com os pés e dá murros no ar com as mãos pelas trapaças que são escritas sobre os atentados islâmicos e as falsídias sobre a ONU, até começar a sentir falta de ar e dores no peito perante os parapateios lavrados sobre Israel e a Palestina.

Neste ponto, o dr. Teles e Melo já está a suar em bica e com a boca seca. Pede um copo de água à d. Felismina e, antes de ir tomar banho, faz um relaxamento lendo as colunas de opinião. Não todos. Evita os colunistas que também são jornalistas, sabendo bem que não passa da continuação do chorrilho de inverdades das “notícias”. Aos colunistas que são também políticos reserva-os para a noite, antes de dormir. Mas a todos os outros lê-os religiosamente, admirando a exactidão e realidade com que olham o mundo. Gosta particularmente dos editoriais, com que se vê a concordar placidamente com quase todos e lhe fazem sentir os fluidos da paz e da serenidade tomar conta dos neurónios e emoções cansadas.

Depois, segue-se o banho, ficando a d. Felismina a arrumar os bocados de papel atirados para todo o lado. No percurso, uma pergunta invariavelmente lhe ocorre ao espírito. Como é que é possível que directores de jornal com tamanha clarividência, trabalhando para empresários de visão ampla, possam tolerar que tantas mentiras sejam publicadas como facto pelos seus funcionários comunistóides e semi-analfabetos, obrigando os seus leitores mais cultos e informados a conhecer a realidade através das colunas de opinião?

“É deveras enigmático”, costuma pensar o dr. Teles e Melo ao despir o robe, depois de, cuidadosamente, ter baixado a persiana da janela da casa-de-banho e corrido as cortinas. “Só se explica por os directores e empresários serem pessoas generosas, que sabem os perigos sociais que adviriam de lançar uma matilha de jornalistas incultos e drogados na mendicidade.”
Depois de pendurar o robe e começar a despir a camisa do pijama, o dr. Teles e Melo sorri-se e pensa: “É evidente! De contrário, só se poderia concluir que a realidade está errada e a opinião é que está certas.” E, antes de se certificar que a porta estava bem trancada e que não havia frinchas na persiana para começar a baixar as calças do pijama, conclui: “E é claro que essa ideia é um enorme disparate.”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Jorge Palinhos: dr. Teles e Melo pratica desporto

  1. ezequiel diz:

    Bolas, e a Filismina fica sozinha! Mundo injusto!

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