Porque é que Ségolène Royal perdeu as eleições

O sinal mais seguro de que estou a ficar senil e perigosamente parecido com alguns antepassados é, quer-me parecer, o meu recente entusiasmo pela obra de Camilo. De há uns tempos para cá, papo pelo menos um livrinho vermelho da saudosa Parceria A. M. Pereira por mês, “Coisas Espantosas”, “Lágrimas Abençoadas”, “Estrelas Propícias”… tudo o que vem à rede é peixe. Um destes dias acabam-se, mas o que me consola é que o Portugal de Camilo não desaparece com eles e continua a dar novos mundos ao mundo. Políticos lorpas, possidentes néscios, espíritos torpes, gajos com amásias (e gajas com amásios, por supuesto), gente ingénua e mesmo na aparência inofensiva que diz dislates tremendos da boca para fora sem que um sorriso sequer lhe aflore na dita… Há dias, um destes espécimes disse-me, com incontida indignação, que tinha sabido que Ségolène Royal, embora mãe dos quatro filhos de François Hollande e estando com ele de cama e pucarinho desde há tempos imemoriais, não era afinal casada; como poderia então ser eleita Presidente? Isso seria o fim da família em França!, disse a criatura muito a sério. Eu nesta matéria estou particularmente à vontade: casei-me by the book vai para mais de vinte anos, graças aos bons ofícios de um conservador de modos extravagantes que findo o acto teve de ser escorraçado porque insistia em fazer-se convidado para o almoço, e depois nunca me descasei; mas também nunca tive a vã pretensão de que os outros deviam todos fazer aquilo que eu fiz e começo a ter a clara consciência que sou mais excepção do que regra nos dias que correm. A família já não é o que era (nem nunca foi, de resto, porque mudou o tempo todo) e, no essencial, ainda bem. Só o Prof. Cavaco Silva, homem de larga visão e infalível instinto liberal, é que parece que continua a ver no modelo do pai, mãe e criancinhas a família “normal” (disse-o assim mesmo, sem corar, no Verão passado): hoje, esse é um de muitos modelos possíveis, uns impostos pela força das circunstâncias (emprego precário, falta de casa, etc., que são circunstâncias que coarctam a liberdade individual) e outros resultantes das escolhas autónomas de cada um e cada uma. É neste sentido fundamental, e ao contrário do que pensam os reaccionários locais, que o liberalismo é de facto a religião laica do ocidente moderno – dos países mais ricos do Norte, primeiro, de França igualmente, conforme se pode ver pelo exemplo junto, mas também, e cada vez mais, de Portugal, conforme qualquer sociólogo amador pode ter percebido, por exemplo, a partir dos resultados do referendo de Fevereiro deste ano. Mas Ségolène Royal já é passado; agora é a Mme Sarkozy qui fait déferler la chronique – e é a propósito dela que o “Público” da passada terça-feira (escassas 48 horas depois das eleições, note-se bem) faz, bem no topo da sua primeira página, a pergunta sacramental que a todos nos assaltava: “Que lugar vai ocupar Cécilia Sarkozy no Eliseu?” Ao saber que alguém se ocupava deste problema candente, pude voltar a dormir descansado – e Camilo, lá onde está, há-de ter percebido que este país ainda é o seu.

PS Também no “Público”, durante a campanha, uma colunista habitual escreveu que o melhor voto dos franceses era em Sarkozy porque era filho de um imigrante. Deixo de lado o problema da legitimidade de Sarkozy enquanto putativo representante dos imigrantes em França (e nomeadamente da racaille des banlieues, que como é sabido tem por ele uma elevada estima, aliás recíproca…), mas mantenho de pé a questão de saber se deveremos alguma vez votar em alguém, não pelo seu programa ou pelas forças políticas ou sociais que representa, mas simplesmente pela sua pessoa, e pelo facto de a sua eleição poder ser um sinal de progresso social – se devíamos votar em Ségolène porque era mulher e mãe solteira, em Obama porque é afro-americano, etc. (imaginem quem quiserem em Portugal). Para mim, a resposta é simples: não.

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SEXTA | António Figueira
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