Filipe Moura: O Estado como garante de maior democraticidade

Sobre as eleições francesas, o resultado foi o esperado e eu não tenho muito mais a acrescentar ao que escreveu o Hugo Mendes. O que mais me impressionou foi a elevadíssima participação eleitoral, bem maior do que a que estamos habituados em Portugal. E muitíssimo maior do que em países como os EUA ou o Reino Unido. Na primeira volta (85% de participação) ainda julguei que tal se devesse a querer excluir de certeza Jean Marie Le Pen, mas os mais de 80% da segunda volta confirmam-no: a participação eleitoral na França é muito superior à de outros países de tradição anglo-saxónica e economia liberal. Quando o fenómeno da abstenção elevada começou a sentir-se em Portugal, articulistas conservadores e culturalmente britânicos como Miguel Esteves Cardoso chegaram a afirmar que a baixa participação eleitoral era um “sintoma de desenvolvimento”. É claro que tal ideia só poderia vir de uma cabeça como a deste senhor (ou como ao de João Carlos Espada). Se nestes países a participação eleitoral é mais baixa, é porque o povo sente que não pode alterar grande coisa com o seu voto. O poder está todo nas grandes corporações e nas grandes empresas. O poder político é mais fraco que o poder económico. Como dizia uma amiga minha relativamente aos EUA, naquele país o conceito de “liberdade” era “poder-se comprar tudo o que se quisesse”. Quem pudesse, como é evidente. Em França, não vou afirmar peremptoriamente que o “poder político” é mais forte que o “poder económico” (uma condição essencial para uma verdadeira democracia), mas pelo menos existe, sem dúvida, um poder político. Algo que para os ultraliberais, cuja única democracia que conhecem é o “mercado”, faz muita confusão. É claro que mesmo na democracia francesa os cidadãos podem votar mal (e têm votado mal, a meu ver, nas últimas vezes). Mas há lá uma tradição de combate político e uma sensação (legítima, e com motivos históricos) de que o voto popular conta alguma coisa para os destinos do país. É esta sensação que pode vir a ser ameaçada pela recente escolha (legítima) do eleitorado francês. Um eleitorado confuso e à procura de um país que já não é o mesmo apostou num candidato que aparece como “salvador”. Embora respeitando sempre a legitimidade do voto popular, desejo que a França seja capaz de preservar uma sociedade onde a igualdade é indispensável à democracia e à república.

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SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Filipe Moura: O Estado como garante de maior democraticidade

  1. nuno diz:

    É como a história das nozes e dos dentes. Os franceses de cultura tão diferente da britânica votam aos magotes para colocar no poder um presidente de estilo anglo-saxónico. Por um lado, os franceses são excelentes porque votam como gente grande. Por outro, são uns néscios porque votam mal, ora bolas! Temos que ensinar aos franceses que a democracia foi feita para eles votarem como deve de ser senão não vale a pena.

    Se calhar os franceses estão fartos de lhes estarem sempre a dizer que são tão diferentes dos ingleses e dos americanos, se calhar até gostavam de ser mais parecidos com eles. Se calhar os franceses foram todos votar, porque da última vez que ficaram em casa a ver manga viram o Le Pen na segunda volta. Se calhar os americanos estão-se nas tintas para o voto porque a vida deles não é decidida em Washington, mas sim no bairro, cidade, condado e estado onde vivem. Se calhar os franceses foram votar porque em França tudo é ditado a partir de Paris.

  2. Olá Nuno.

    “Se calhar os americanos estão-se nas tintas para o voto porque a vida deles não é decidida em Washington, mas sim no bairro, cidade, condado e estado onde vivem. Se calhar os franceses foram votar porque em França tudo é ditado a partir de Paris.”

    Será que as eleições estaduais e autárquicas nos EUA têm uma menos taxa de abstenção que as presidenciais? Não creio que isso seja verdade.

    De qualquer maneira a tua última frase é um belo argumento contra a regionalização… 🙂 O centralismo como combate à abstenção. Mas isto é outra discussão.
    Manda sempre.

  3. Luis Oliveira diz:

    Filipe:

    O que estas eleições revelam é que os próprios franceses se estão a preparar para abandonar a ideia de que aquilo que funciona na Inglaterra ou nos EUA não funciona necessariamente na França. De resto a prosperidade Inglesa e Americana revela que o discurso contra o “poder económico” é em certa medida falacioso, e os franceses já perceberam isso.

    Se a esquerda francesa não entender isso terá que atravessar um longo deserto, tal como o que os trabalhistas tiveram que atravessar na era Tatcher.

    Um abraço

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