Rui Tavares: As palavras que merecemos

Autor: Rui Tavares

 (Público, 7 de Maio)

O “respeito” de Sarkozy vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade. 

1. Dizem os brasileiros que cada país usa como lema não aquilo que mais tem, mas aquilo de que mais precisa. No Brasil é “Ordem e Progresso”. Na França é “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Uma palavra sozinha pode querer dizer tudo, o que faz com que o seu conteúdo seja nulo, o que faz com que toda a gente concorde. É no meio dos gestos e das outras palavras que ela ganha sentido. Quando Sarkozy disse, no seu primeiro discurso após a vitória de ontem, que seria o presidente “do trabalho, da autoridade, da moral e do respeito” pouca gente poderá discordar da presença do “respeito” naquela lista. Mas não é por acaso que se a palavra “respeito” viesse em primeiro lugar ela quereria dizer uma coisa completamente diferente. O “respeito” de Sarkozy, pelo contrário, vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade (que não estava na lista). Entre o respeito que o estado deve aos cidadãos e o respeito que o estado exige que os cidadãos lhe devam, Sarkozy opta pelo segundo. E não o esconde.

Mitterrand dizia, ao contrário da opinião geral, que a França não é um país de esquerda. A França é um país conservador, cuja administração é arrogante e onde o temperamento fundamental é pouco conciliador. São os bloqueios do sistema que, ciclicamente, abalam este edifício autoritário – e estes abalos, vistos do exterior, parecem maiores do que o edifício. E assim Sarkozy é visto de fora como uma ruptura e não como a continuação do culto presidencial que já vem de Chirac, de Gaulle e mais atrás ainda. Na cabeça de Sarkozy, como na de Napoleão ou de Luís XIV, o estado é ele, a França é o estado, e a Europa começa e acaba onde a França disser.

2. Parece que quando Sarkozy conheceu Sócrates ficou impressionado. Se a história é verdadeira, não foi certamente com os seus dotes de comandante eleitoral do PS. Aparte a sua maioria absoluta, Sócrates já conseguiu fazer o PS passar por três humilhações: nas autárquicas, nas presidenciais e agora nas regionais madeirenses, onde o PS local deixou de existir. Sócrates tem jeito para ganhar eleições sozinho e para abandonar os seus soldados à má fortuna; num dia mau estes fantasmas voltarão para atormentar o general.

Alberto João Jardim ganhou uma batalha retumbante. Mas agora resta-lhe uma guerrilha constante com o governo central, feita com todas as manhas que se lhe conhece, mas que esbarrarão na impassividade de Sócrates e Cavaco Silva. Os madeirenses e os restantes portugueses desistiram de tentar entender-se e infelizmente não podemos contar com a oposição no arquipélago para fazer a síntese. Por uma razão simples: não há oposição no arquipélago. Os próximos anos serão de ressentimento, mesquinhez e, na melhor das hipóteses, indiferença. Nada a que não estejamos habituados.

Nós só usamos como lema as palavras “República Portuguesa”, e faz sentido. Mais uma vez, não é o que temos mas aquilo de que mais precisamos.

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QUARTA | Joana Amaral Dias
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2 respostas a Rui Tavares: As palavras que merecemos

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  2. Bravo! Mais claro não é possível.
    Os tempos que nos esperam vão ser muito difíceis.

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