O império das Barbies

07-bjork.jpgNa passada semana o jornalista Mário Lopes pediu-me uma entrevista para o Ípsilon (Público) sobre a Bjork, que saiu com o respectivo dossier (4 de Maio). Fica aqui a versão integral.

– Qual a sua relação com a música de Bjork? Aprecia-a? Porquê?

Tenho alguns álbuns. Mas estou longe de ser uma fã ou uma ouvinte fiel, sequer. O que aprecio no seu trabalho é ter sempre procurado desafiar convenções, caracterizando-se por uma espécie de experimentalismo retro-avant-garde. Consegue mudar e surpreender, juntar elementos improváveis e uni-los através da sua voz contorcionista. O que acho mais graça em Bjork é encarnar paradoxos actuais. Não pertence a nenhum mainstream mas, ao mesmo tempo, é uma diva do pop. E é uma “celebridade” que aparenta um compromisso com o lado mais humano e comum. É global mas excêntrica e até algo apátrida. Bjork consegue, de algum modo, sincronizar-se e simbolizar o sujeito contemporâneo plural e sem identidade. E pronto a consumir.

– O que pode ter trazido de novo à música popular urbana e à sua estética, quando surgiu em inícios da década de 90?

Acho que trouxe algumas coisas novas, mas não uma outra direcção. Bjork é uma variante, não uma revolução. Bjork também soube sempre aliar a sua excentricidade, talento e pesquisa à imagem, ao marketing e às suas parcerias. Tem escolhido muito bem os seus convidados, associados e encontros, mantendo continuamente um certo rasgo. Esse lado multifacetado de Bjork é também interessante. Mas, ao mesmo tempo, previsível.

– O que julga ser responsável por esta quase unanimidade que existe em seu redor, esta aceitação e devoção perante obras mais difíceis e vanguardistas como “Medulla”?

Não sei se há unanimidade. Acho é que é difícil ser indiferente. O álbum Medulla não apenas foi o seu trabalho mais político, coincidindo com uma certa atmosfera pós 11 de Setembro, como é um trabalho tocante e rigoroso, baseado na voz humana e nas suas infindáveis variantes, combinando doçura e violência. Mas acho que a Bjork faz mais rapsódias sofisticadas a partir do que há de mais comum entre os povos, do que trabalhos difíceis e vanguardistas, onde se procura a criação de linguagens verdadeiramente novas.

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– Como definiria a feminilidade de Bjork, mulher que deu “dignidade” a um fato de ganso carnavalesco, na passadeira dos Oscars, mulher que encarnou a martirizada Selma de “Dancer In The Dark”?

Parte do sucesso da Bjork é a sua dualidade, que aparece tanto na voz como na sua imagem. Tanto é criança, como é deusa. Consegue parecer, simultaneamente, cândida e sofisticada. Natural e artificial, bruta e terna, bucólica e hiper-urbana, intuitiva e maquinal. A sua voz ora aparece ameninada, ora erótica, ora límpida ora rouca. O seu rosto parece meio oriental, meio ocidental. Faz lembrar o Homem Duplo do P. K. Dick – que inspirou um filme que passou neste Indie.
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Não gosto das canções do Dancer In the Dark. Quanto ao fato de ganso que usou nos Óscares, faz parte da elaborada e conseguida construção da imagem que Bjork tece, pretendendo que o seu uso radical da moda seja mais uma forma de expressão do que uma exibição de poder. Ela própria afirmou que se tratava de uma “piada conceptual”. É uma piada, mas uma piada de haute-couture. Uma piada cara, portanto.

– Parece-lhe que a projecção de uma identidade feminina é algo que interesse a Bjork explorar musical e esteticamente, ou trata-se antes de uma construcção feita por público e imprensa?

Parece-me que a projecção de uma imagem onde a feminilidade aparece de uma forma menos estereotipada interessa a Bjork, sim. Ela própria diz que jamais usaria jeans e t-shirt por serem “símbolos do imperialismo branco norte-americano”. Mas não deixa de ser uma consumidora de moda radical, recorrendo a estilistas de topo. De resto, nada no seu trabalho parece acidental.

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– A provocação “Madonna Indie” faz sentido para si? É uma analogia que se explique por si mesma, apesar das diferenças óbvias entre aquilo que é a música de uma e de outra?

Faz sentido na medida em que ambas conseguem renovar-se constantemente sem serem (ou pelo menos parecerem) desesperadas. Conseguem manter as suas multiplicidades como inesgotáveis. Camaleoas tipo David Bowie.

– O lugar de Bjork na pop é feminino? Por outras palavras: analisando o seu percurso, será relevante ser Bjork, mulher, a criadora daquela música ou o a questão do género é aqui indiferente?
– Será possível afirmar que Bjork, pela sua quase alienígena exuberância, pela sua ambiguiade, alterou a projecção da feminilidade no contexto da pop?

Bjork parece estar distante de paradigmas clássicos que, em traço grosso, se dividiam entre o exacerbar da sensualidade (que tanto víamos numa Debbie Harry quanto, extremo oposto, nas Spice Girls) e a "corrupção" feminina do habitualmente muito masculino rock'n'roll (da poetisa "punk" Patti Smith à rocker de saltos altos PJ Harvey).

A questão do género nunca é indiferente. Num lugar de fama e poder, ainda menos. Quando Bjork começou a ter projecção foi muito maltratada pela imprensa que, não a conseguindo aprisionar em nenhum dos vulgares estereótipos, a classificava como uma espécie de deficiência. O que antes era defeito, agora é efeito.

– Será possível afirmar que Bjork, pela sua quase alienígena exuberância, pela sua ambiguidade, alterou a projecção da feminilidade no contexto da pop? Bjork parece estar distante de paradigmas clássicos que, em traço grosso, se dividiam entre o exacerbar da sensualidade (que tanto víamos numa Debbie Harry quanto, extremo oposto, nas Spice Girls) e a “corrupção” feminina do habitualmente muito masculino rock’n’roll (da poetisa “punk” Patti Smith à rocker de saltos altos PJ Harvey).

Embora Bjork nunca se tenha detido, propriamente, no tema do feminismo, vai marcando as suas posições sobre esse assunto pela imagem. Mas não só. Li uma entrevista que a cantora deu ao Observer há uns anos, onde mostrava a sua perplexidade sobre o facto de os brinquedos para as meninas – Barbies e Cª – continuarem centrados na mensagem: “o objectivo máximo é encontrar o príncipe encantado”. Nessa entrevista, Bjork confessava que durante anos tinha evitado abordar este tema mas que, perante uma certa estagnação na evolução da paridade, sentia necessidade de intervir e de fazer aquilo que chamava de “trabalho sujo”.

De resto, acho que Bjork fez o que tinha, de certa forma, de ser feito, intrigando os media. E intriga porque, justamente, é a maior artista pop europeia, sem ter uma voz brilhante, nem tão pouco uma voz da moda, sem a banal erotização, sem estar contra o mercado, sem ser facilmente categorizável, sem deixar de correr riscos. Com Bjork não há fórmulas e essa é uma parte do seu sucesso. O que já em si é uma fórmula. 

Os suportes que a pop utiliza impedem-na de alterar a tal projecção do feminino de que fala. Podem produzir algo que vende, mas não mudam. Ou, pelo menos, não mudam o que é preciso mudar. O império das Barbies continua…

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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