Da liberdade de expressão

Um destes dias, no carro, calhou-me ouvir o “Fórum TSF”, dedicado dessa vez, e ainda a propósito do cartaz do PNR, ao aumento (percebido ou real, era a questão) da presença de grupos de extrema-direita em Portugal. Ao segundo ou terceiro telefonema, apareceu um auto-designado “empresário de Odivelas”, que fazia evidentemente parte do problema em análise e desatou a deitar uma série de impropérios racistas da boca para fora. Eu confesso que não o ouvi até ao fim, mas o que ouvi chegou-me para fazer um juízo, porque mesmo que o moderador do programa tenha feito algum comentário no fim, ou tenha chegado a tirar a palavra ao “empresário” em questão, deixou-o em qualquer caso falar demais. Porque carga de água hão-de os meus concidadãos pretos (ou os pretos que não são meus concidadãos, para o caso tanto faz) ter de suportar as considerações insultuosas e moralmente abjectas que aquele tipo ali fazia sobre eles? Seria concebível dar tempo de antena, por exemplo, a alguém que se dedicasse a considerações semelhantes sobre outros grupos sociais de facto, que em vez de serem definidos pela cor da pele fossem pela religião ou pelo sexo, e dissesse que as mulheres eram todas umas isto ou que os judeus eram aquilo? Em nome de quê, da liberdade de expressão? Desde quando é que ela protege o insulto? Não seria antes e apenas um caso de incúria da estação de rádio e do moderador? Quando eu vivia em Inglaterra, e era viciado em BBC4, lembro-me de uma vez, num programa do género, um tipo qualquer ter começado a fazer o discurso dos rivers of blood e não ter demorado mais de meia dúzia de segundos para o moderador, cortês mas implacavelmente, o reduzir ao silêncio. Já que estamos a tornar-nos tão “modernos” como os ingleses, e que agora também temos a nossa quota de skinheads e tudo, convirá aprender a lidar com eles, e a impedi-los de sujar a via pública (frequências radiofónicas incluídas).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

14 respostas a Da liberdade de expressão

  1. Paulo C diz:

    Um post que gostava de ter escrito.

  2. Caro António Figueira,
    Por muito que nos custe a liberdade de expressão consiste em dizermos o que nos apetece. Quando aquilo que dizemos é insultuoso, cabe ao insultado (que no caso que referiu somos todos, aqueles que amam a liberdade e respeitam a diferença) recorrer à justiça e pedir que quem insulte seja punido. Não podemos é cair na tentação fácil de não deixar falar o próximo, ainda que este nos esteja a insultar.

    Cumprimentos,
    Mortner

  3. Excelente post, mas de qualquer forma continuo a preferir que eles saltem todos da toca para sabermos quem são e ao que vêm. Preocupa-me mais a existência de determinada gente numa espécie de clandestinidade impune, onde aqui e a ali podem fazer o que querem contanto com uma certa distracção da comunicação social.

  4. Ezequiel diz:

    Parece-me preferivel falsificar, condenar etc as imbecilidades destas bestinhas em publico do que os calar pela via da imposição. A imposição do silencio confere-lhes uma autoridade-credibilidade (potencial) ficticia, mas perigosa. É mais fácil atacar aquilo que é explicitado. O acto de os silenciar acabaria por lhes dar uma “legitimidade” perversa. Concordo com o Max Mortner.

    cumprimentos
    ezequiel

  5. Sérgio diz:

    Nenhuma das soluções é perfeita, convenhamos. Por um lado, a interdição da difusão de certos conteúdos manifestamente inaceitáves para quem preza valores democráticos (ou simplesmente para

  6. Sérgio diz:

    (continuação do comentário – peço desculpa por este corte, mas ter ratos presos é o que dá): dizia eu, …simplesmente para quem tem um pingo de decência), pode de facto alimentar a imagem de vítimas de qualquer coisa (por muito cínico que esse argumento pareça na boca dos herdeiros desbaratdos de Hitler).
    Por outro lado, a propaganda livre também levanta problemas de se permitir a infecção com este vírus que se alimenta muito bem de certas circunstâncias políticas e económicas. De resto, como disse o António, não tenho de ver um concidadão da nação dou do mundo a ser vexado por facínoras, só porque estes têm a infelicidade (deles e a nossa) de prestarem culto a crenças idiotas e falsas que ofendem a consciência da Humanidade.
    Atenciosamente,
    Sérgio.

  7. José Corte-Real diz:

    Só uma nota em relação ao comentário do Sr. Sérgio:
    O discurso patético e ignóbil da extrema direita jamais pode ser temido, mesmo que se verifiquem as tais circunstâncias políticas e económicas específicas. Isto porque tal propaganda só seria nefasta se uma maioria (ou larga minoria) estivesse disposta a ouvi-la! Se tal acontecesse em democracia, num estado europeu como o nosso, onde a educação (por muito má que seja) sempre se vai fazendo, então seriam as próprias bases do nosso estado de direito que estariam em causa e os problemas seriam muito mais graves do que a questão da liberdade ou não de expressão destes grupos. Isto é, o verdadeiro problema não é se eles falam ou não, é se as pessoas estão suficientemente formadas e maduras democraticamente para perceber o disparate do seu discurso.

  8. António Figueira diz:

    Obrigado a todos pelos comentários.
    Só uma observação de princípio: esperar que um crime se consume para só depois atacá-lo em tribunal revela uma estranha concepção da justiça e da sua aplicação.
    Vou eu – cidadão – deixar que o insulto racista se produza para depois pedir ao juiz para condenar o seu autor?!
    Mais: vou eu – orgão de comunicação social – colocar voluntária e conscientemente as minhas páginas ou a minha antena ao seu serviço??!!
    E de facto, em matéria de racismo, os insultados somos todos nós: nous sommes tous des juifs allemands – e para efeitos de PNR eu tenho muito orgulho em ser preto.
    Cordialmente, AF

  9. António Figueira diz:

    PS Gostei muito da expressão do Sérgio, “concidadãos da nação ou do mundo” – que, claro, têm todo o direito de não ser vexados por estes energúmenos, por isso mesmo o discurso racista é criminoso.
    AF

  10. Ezequiel diz:

    Caro António

    Prefiro atacá-lo publicamente porque acredito que a nossa cultura democrática já possui um poder de imunização suficientemente forte para o fazer. Tu, como cidadão, também podes contribuir para que o insulto racista não se (re)produza. Delegar tudo para os tribunais também pode, de certa forma, desresponsabilizar a deliberação civica.

    Como orgão de comunicação social independente podes e, a meu ver, deves colocar voluntariamente e conscientemente a tua antena ao serviço da falsificação destes , e outros, dogmas perversos. O maior perigo dos dogmas racistas, religiosos e outros é o da sua real ou potencial propagação. Não há nada melhor para combater a sua propagação do que a falsificação pública. Confiamos nos cidadãos, na comunidade democrática, ou não??? Mas esta é uma questão bicuda, reconheço.

    Todavia, devo reconhecer que esta é uma questão que me divide em parte porque acredito que os tribunais e a normatividade juridica materializam a ética comunitária.

    ps: Sem querer estabelecer correlações “causais” empiricas duvidosas, talvez fosse interessante investigar a propagação dos dogmas racistas (etc) em sociedades onde vigora o intervencionismo punitivo.

    Cumprimentos,

  11. Ezequiel diz:

    Antena parabólica, é claro ah ah aha h ha ha ha ha hah a ha ha hah ah ah h

    LOL 🙂

  12. Sérgio diz:

    Aceito, genericamente, o princípio que postula que a melhor forma de combater uma ideia é o debate e o esclarecimento público onde se faz prova da justiça inerente às suas premissas (lembrei-me agora do Alexandre Herculano). Confesso, porém, que não estou persuadido que a melhor estratégia para lidar com esta estirpe de «ideias» e de «pensadores» é ignorar tudo o que eles dizem. É que há algo de manifestamente ofensivo e perigoso no seu discurso e na sua praxis que vai além do debate de ideias, por muito fácil que possa ser desconstruír um discurso lunático.
    Quanto à solidez da democracia, convém não esquecer que é um projecto em construção. Pode ser melhor ou pior. Quero dizer, por conseguinte, que não a dou por adquirida eternamente. Não que preveja uma hecatombe (até porque existe a Europa) próxima ou, ainda, que pense que a história se repita, mas a verdade é que os totalitarismos já triunfarem em países desenvolvidos e escolarizados (tudo bem, circunstâncias específicas…), a verdade é que em França (e não só) algumas destas ideias têm larga expressão eleitoral. Pelo que sei, o carácter risível (em termos de expressão numérica) da extrema direita que se verifica entre nós não é a regra europeia.
    O Ezequiel levanta a questão pertinente de se verificar a influência de práticas proibicionistas (sempre problemáticas) com a força numérica expansiva destes movimentos. Podemos, de facto, pensar na Alemanha. Mas será explicação única para enquadrar o fenómeno?
    Quanto ao comentário de José Corte-Real (não me trate por Sr, por favor), posso concordar com o que escreve (e muito bem), mas com as reservas em epígrafe.
    Qanto à expressão que utilizei, António, é a minha costela federalista que não consigo disfarçar. Não sou daqueles que utiliza a História como «uma deformação nacionalista», como disse o Jacques le Goff ao JL.

  13. Meus caros,

    Acho que estes assuntos de “nacionalistas” e de “racismos à portuguesa” acabam por ter uma certa piada. Não, não sou maluco. Acho-lhes piada pela facilidade com que podem ser desmontados os argumentos da extrema direita portuguesa (especialmente no que diz respeito à ligação que os extremistas fazem entre História, superioridade da raça e imigração). Noutro dia, num dos blogs de extrema direita que, de vez em quando, leio (para saber do que falo) deixei um link em que se demonstrava que muita da nobreza portuguesa, fundadora da nacionalidade, é descendente de árabes! Obviamente que não obtive resposta (o link é este: http://genealogia.netopia.pt/forum/msg.php?id=45867#lista).
    Não devemos calar à força estes extremistas ou tecer considerações sobre a capacidade (ou incapacidade) do povo compreender se eles estão, ou não estão, a dizer disparates. O papel de um jornalista que esteja a lidar com esta gente é confronta-los com as suas contradições e incoerências, tal como o fazem quando entrevistam qualquer outro político. A piada de tudo isto reside no facto de este confronto ser um exercício fácil e da ideologia da extrema direita portuguesa roçar o ridículo!

  14. Ezequiel diz:

    a não perder…Um filme fantástico!!

    This is England

Os comentários estão fechados.