Rui Tavares: Sinal aberto

Autor: Rui Tavares

(Público, 1 Maio de 2007)

O PSD dá por adquirido que se deveria privatizar a RTP; pois resta-lhe agora defender a nacionalização da TVI. 

Teoricamente, todos gostaríamos que o mundo fosse justo. Na prática, ninguém protesta se ele for injusto a nosso favor. Eis o meu resumo do caso Pina Moura em duas frases.

Sobra bastante espaço para comentar os dados adquiridos deste debate.

Os partidos de direita mostram-se escandalizados por Pina Moura, um ex-ministro socialista, ter sido contratado pelos donos do canal televisivo mais visto em Portugal. Este escândalo é tanto maior quanto revela os limites ideológicos desses mesmos partidos. Defendem eles a intervenção do estado nas empresas? Não. Têm apoiado legislação contra a concentração na área dos media? Ninguém se lembra. Favorecem uma entidade reguladora forte? Valha-nos Zeus! Em alternativa, admitem devolver aos conselhos de redacção os poderes de confirmar nomeações? Se sim, então porque foram eles que lhos retiraram? O PSD dá por adquirido que se deveria privatizar a RTP; pois resta-lhe agora defender a nacionalização da TVI.

Pina Moura, por seu turno, desenvolve uma impecável retórica segundo a qual tudo é político e tudo é ideológico, e em consequência tudo o que é político e ideológico na sua nomeação é “normal”. Isto para não dizer que é “nobre” ou “um exemplo a seguir”. Logo, será até normal que após a sua nomeação se siga o nobre exemplo da imprensa estrangeira, e ninguém deve espantar-se se um dia a TVI vier a apelar ao voto num candidato da sua preferência. Pina Moura dá por adquirido que a redacção da TVI terá automaticamente a opinião que ele próprio tiver; de facto, para quê dominar a clonagem quando já se domina a chefia?

Do lado oposto, dá-se por adquirido que ele vai controlar a TVI em nome do governo. O mesmo disse o seu partido aqui há uns anos, quando Fernando Lima saiu directamente do gabinete de Durão Barroso para o Diário de Notícias, motivando respostas indignadas do PSD. Dito assim, até parece que as empresas são simples vítimas e não desejam tais contratações, como tão claramente desejaram então e desejam agora. Fica então por explorar a hipótese de que a intenção seja antes controlar o governo a partir dos media e não o contrário. Em Portugal, ninguém é mais dependente do estado do que as empresas; os pobres estão habituados a desenrascar-se sozinhos.

Aqui nesta coluna, Helena Matos dá por adquirido que “a neutralidade não existe” e que nos resta apenas salvar a “diversidade”. Mas qual diversidade? Só existem dois canais privados de sinal aberto em Portugal, e esta escassez não se deve a nenhum limite físico. Estando a diversidade limitada artificialmente para benefício dos dois canais de televisão, o mínimo que os seus donos nos devem em troca é neutralidade. A neutralidade não existe? Talvez não, mas existe a obrigação de tentar. E a comparação com a imprensa aqui não vale, uma vez que não há nenhum limite legal para a criação de novos jornais. Enquanto a TV de sinal aberto existir neste modelo (e não vai ser muito tempo) as regras de conduta política não podem ser as mesmas.

Em tempos, um governo PSD entregou uma licença de TV ao seu militante número um e outra à igreja católica, e garantiu que o estado ficaria a segurar o portão do curral publicitário para que as respectivas empresas fossem lucrativas. Não há nada que uma grande empresa deteste mais do que o risco. A diferença é que, ao contrário de nós, é-lhes fácil contar com o estado para o evitar – e essa é uma injustiça de que não as ouviremos queixarem-se.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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Uma resposta a Rui Tavares: Sinal aberto

  1. João diz:

    A diversidade tem sido atirada para os nossos olhos qual areia.
    Na diversidade que por exemplos os meios de comunicação social escrita poderiam permitir chegou-se a um ponto que todos os jornais fazem parte do centrão.
    porque o centrão é que atrai publicidade.
    depois por mecanismos diversos tem-se conseguido ir eliminando todos os projectos alternativos. (ficam pequenos projectos de divulgação mais reduzida)
    Na televisão e, de certa forma, nas rádios limitou-se a concorrência, prejudica-se o operador estado e entgregam-se os dois projectos ao centrão. no cabo impede-se qualquer projecto alternativo pela censura dos distribuidores de sinal. (veja-se por exemplo o caso da mudança de canais distribuidos pelo principal operador contra a opinião da maioria dos clientes)

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