O paraíso na outra esquina (1)

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A maior parte das vezes que acontece qualquer coisa estou a dormir. É uma questão estatística. Só estamos acordados pouco tempo, na imensidão dos tempos, e às vezes, mesmo vivos, estamos a dormir. Foi assim que se passou em Chiapas. Estava em Oventic com um frio de rachar, o planalto está a mais de 1000 metros de altitude. Tentava aquecer-me embrulhado numa manta de lã que deixava passar o ar gélido, quando me abanaram e disseram que os guerrilheiros tinham chegado. Contaram-me que respondi que “amanhã também vai haver guerrilheiros” e virei-me para o lado e continuei a ressonar. Lá perdi a entrada da coluna do comandante Tacho, no meio da parafrenália de tochas, na zona dos planaltos de Chiapas.
Quando estou acordado, gosto de fazer reportagem sobre guerrilhas. No fundo, desconfio que nada vai a lado nenhum, mas continuo a procurar qualquer coisa. Fiz reportagens na Amazónia colombiana, na selva e planalto de Chiapas e no deserto do Sahara. O ar pareceu-me sempre mais limpo e as estrelas mais visíveis. Devo ter a reacção dos adolescentes imberbes anarquistas que desfilaram no 25 de Abril e que estavam convencidos que iam mudar o mundo a atirar bolas de tinta às lojas do Chiado. A propósito Rick, se pintassem todas as lojas da rua, aparecia, do fundo do boião, a sociedade mais justa?

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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