O paraíso na outra esquina (1)
1 de Maio de 2007 por Nuno Ramos de Almeida
A maior parte das vezes que acontece qualquer coisa estou a dormir. É uma questão estatística. Só estamos acordados pouco tempo, na imensidão dos tempos, e às vezes, mesmo vivos, estamos a dormir. Foi assim que se passou em Chiapas. Estava em Oventic com um frio de rachar, o planalto está a mais de 1000 metros de altitude. Tentava aquecer-me embrulhado numa manta de lã que deixava passar o ar gélido, quando me abanaram e disseram que os guerrilheiros tinham chegado. Contaram-me que respondi que “amanhã também vai haver guerrilheiros” e virei-me para o lado e continuei a ressonar. Lá perdi a entrada da coluna do comandante Tacho, no meio da parafrenália de tochas, na zona dos planaltos de Chiapas.
Quando estou acordado, gosto de fazer reportagem sobre guerrilhas. No fundo, desconfio que nada vai a lado nenhum, mas continuo a procurar qualquer coisa. Fiz reportagens na Amazónia colombiana, na selva e planalto de Chiapas e no deserto do Sahara. O ar pareceu-me sempre mais limpo e as estrelas mais visíveis. Devo ter a reacção dos adolescentes imberbes anarquistas que desfilaram no 25 de Abril e que estavam convencidos que iam mudar o mundo a atirar bolas de tinta às lojas do Chiado. A propósito Rick, se pintassem todas as lojas da rua, aparecia, do fundo do boião, a sociedade mais justa?

Comentário de João
Data: 2 de Maio de 2007, 9:28
Olha que giro: o cinco dias tem finalmente um post acerca dos eventos da rua do Carmo. E mais giro ainda: condena os anarquistas por fazerem pintadas, mas não condena a polícia por ter varrido, sem aviso, uma rua movimentada, cheia de turistas e manifestantes à porrada indiscriminada. A quanto obriga a necessidade de demarcação dos míudos punks!
Nuno, estava muita gente na manifestação, que não era anarquista. Estava muita gente na rua que não era sequer interessada na política. Se estivesses, por acaso, a sair da H&M a essa hora, terias levado também. E não estarias agora a escrever um post sobre guerrilhas e míudos que pintam paredes à procura da utopia.