O paraíso na outra esquina (1)

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A maior parte das vezes que acontece qualquer coisa estou a dormir. É uma questão estatística. Só estamos acordados pouco tempo, na imensidão dos tempos, e às vezes, mesmo vivos, estamos a dormir. Foi assim que se passou em Chiapas. Estava em Oventic com um frio de rachar, o planalto está a mais de 1000 metros de altitude. Tentava aquecer-me embrulhado numa manta de lã que deixava passar o ar gélido, quando me abanaram e disseram que os guerrilheiros tinham chegado. Contaram-me que respondi que “amanhã também vai haver guerrilheiros” e virei-me para o lado e continuei a ressonar. Lá perdi a entrada da coluna do comandante Tacho, no meio da parafrenália de tochas, na zona dos planaltos de Chiapas.
Quando estou acordado, gosto de fazer reportagem sobre guerrilhas. No fundo, desconfio que nada vai a lado nenhum, mas continuo a procurar qualquer coisa. Fiz reportagens na Amazónia colombiana, na selva e planalto de Chiapas e no deserto do Sahara. O ar pareceu-me sempre mais limpo e as estrelas mais visíveis. Devo ter a reacção dos adolescentes imberbes anarquistas que desfilaram no 25 de Abril e que estavam convencidos que iam mudar o mundo a atirar bolas de tinta às lojas do Chiado. A propósito Rick, se pintassem todas as lojas da rua, aparecia, do fundo do boião, a sociedade mais justa?

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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17 respostas a O paraíso na outra esquina (1)

  1. João diz:

    Olha que giro: o cinco dias tem finalmente um post acerca dos eventos da rua do Carmo. E mais giro ainda: condena os anarquistas por fazerem pintadas, mas não condena a polícia por ter varrido, sem aviso, uma rua movimentada, cheia de turistas e manifestantes à porrada indiscriminada. A quanto obriga a necessidade de demarcação dos míudos punks!

    Nuno, estava muita gente na manifestação, que não era anarquista. Estava muita gente na rua que não era sequer interessada na política. Se estivesses, por acaso, a sair da H&M a essa hora, terias levado também. E não estarias agora a escrever um post sobre guerrilhas e míudos que pintam paredes à procura da utopia.

  2. João diz:

    Não me parece que o Nuno tenha condena ninguém. Parece-me é que alerta para o facto de estes esquerdismos não mudam o mundo (bem pelo contrário).
    Parece-me óbvio também que não se defendeu neste post a carga policial.
    Quanto à guerrilha em Chiapas julgo que no post não são colocados ao mesmo nível os anarquistas pintores de paredes, com que eu irracionalmente simpatizo, e a guerrilha de Chiapas (uma simpatia mais racional)

  3. Primeiro João, não condenei ninguém, só assinalei um post do Ricardo, em que ele explicava que com eleições, partidos, sindicatos e movimentos sociais não se ia a lado nenhum. E dava como alternativa? os balões de tinta… Parece-me limitado. O que é a H&M?
    Finalmente, não acredito na versão da polícia pejada de coktails molotovs. Não simpatizo com polícias de choque que estavam visivelmente lá para bater. Mas o que me surpreende, brutalidade policial à parte, é uma certa hipocrisia da vossa parte: vocês estavam a atirar bolas de tinta para dentro das lojas, propunham-se “assaltar” uma sede de um partido de extrema-direita, esperavam que a polícia desse-vos sumo de laranja e brioches?

  4. tiago diz:

    É tão bonito ver esta gente demarcar-se dos anarquistas, sou militante do bloco e também lá estive, e perante este post(mais um dos meninos que controlam cada vez mais o bloco) só me questiono porque ainda pertenço ao bloco?
    Devia ter lido correctamente o post do ricardo no spectrum, ele só diz que está farto das manifestações controladas e que não levam a lado nenhum, e tomar de assalto a sede do pnr???? Mas o nuno acredita mesmo nisso??

  5. João diz:

    Até porque a manifestação já tinha passado na rua do carmo, 1 hora e meia antes. Se fosse para atacar a sede do PNR (que não é propriamente na rua do Carmo), já teriam tido oportunidade de o fazer, porque o caminho já tinha sido percorrido no sentido inverso.

    Nisto tudo, estou a ver que esperta foi a senhora da PSP, ao frisar várias vezes e repetidamente que os manifestantes eram “extremistas” , “extrema esquerda”, que apreenderam material de “extrema esquerda”. Pois … faixas terroristas perigosíssimas como esta: http://portugal.sarava.org/cidades/c1/imgpublico/117763353184711d70ef.JPG “racismo é ignorância, nossa pátria é o mundo inteiro”.
    A polícia não referiu uma manifestação ambientalista (mas estava mais gente de grupos ambientalistas do que anarquistas), a polícia não referiu uma manifestação pacifista (mas 99% das pessoas lá era pacifista). Fala-se sempre dos anarquistas, porque ninguém quer ser apanhado a defendê-los. Foi uma jogada mediática inteligentíssima. Mesmo que por descargo de consciência um comentador de esquerda escreva algo sobre o assunto será sempre precedido e seguido de uma exaustiva explicação da maldade e contraproducência intrínseca dos anarquistas.

    Lembras-te daquela velha lengalenga: “primeiro prenderam os comunistas. Eu não era comunista por isso não fiz nada. depois os judeus, eu não era judeu … etc. etc. ”

    Um senhor brasileiro que assistiu a isto comentava, no cimo da rua do Carmo: “mas qual é o problema de serem anarquistas? A democracia aqui não lhes dá direito a manifestarem-se?”

    Eu sou novo. No espaço de dois anos já soube de uma carga policial em que os carregados foram acusados de “arrastão”, outra em que foram acusados de “desordeiros” e assisti a esta em que são acusados de “anarquismo” e “violência”.

    Ah, não fizeram nada mas tinha a intenção de quiçá se dirigirem à sede do pnr para gritarem umas palavras de ordem.

    É como os míudos negros da praia de carcavelos, que também foram perseguidos e depois vilependiados porque “não assaltaram mas se calhar até poderiam querer exprimir tenção de assaltar e não fosse a rápida e eficiente resposta dos valentes da psp teria sido bem pior”

    Por fim uma informação: o paisano do boné que começou isto tudo é o meu herói. Então ele cabeceia destacado uma carga policial (a policia de choque a fazer barreira atrás dele) contra uma horda sanguinária de manifestantes que lhe lançavam cocktails molotov, verylights e propaganda anarquista enquanto se iam divertindo agredindo transeuntes e masturbando-se com bíblias? Granda valentão, só de bonézito e calça de ganga, com um mero cacetete descartável na mão fazer frente destacado a tal perigo.

  6. router diz:

    O NRA é sem dúvida a personagem mais infame que já conheci nos ambientes de esquerda. há outros terriveis no bloco, mas pelo menos esses nunca fizeram o jogo duplo de este.

    Um dia está a pedir aos “anarquistas” que lhe dêm consulting para organizar manifs como as que viu no g8 no outro está a brincar ao militante responsável do bloco, ironizando demagogicamente e desonestamente acerca de tinta nas lojas. E cada vez que abre a boca, pelo menos naquelas em que falou comigo, insiste em afirmar a sua ida a chiapas. Nuno: já sabemos todos que foste a chiapas. não foste nem o primeiro nem o último, mas terás sido dos que menos aprendeu, olha nuno, é que ao invés de te dar credibilidade só te faz parecer um cretino ainda maior…

    No passado escreveria aqui um chorro de insultos intermináveis aos que provavelmente responderias do modo jocoso e bem disposto que disfarça a raposa velha que és. Mas nada disso. contraponho à tua pergunta ao rick com uma série de outras. Acaso sairia a sociedade mais justa da manif de palhaços (sic) que querias organizar? acaso sairá a sociedade mais justa do franchise que o bloco comprou do mayday (e suscitou incredulidade e risos quando contado aos organizadores do italiano)? acaso sairá dos links a inúmeros movimentos sociais extraparlamentares que punhas no outro blog?

    o que é que se poderá dizer mais? olha nuno continua gordo e panhonha cioso de toda essa mediocridade que é o mundo de activismo que criaram…

    tmao.

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Tmao,
    Gostei do teu comentário. Muito inteligente e elegante. Não tenho nada que ver com o Mayday, o responsável pelo site parece que era um tal Rick (pelo menos foi o que disse numa reportagem). Nunca pedi nenhuma opinião a “anarquistas” sobre o G8, pq lhes pediria, por acaso o protesto é deles?
    Não tenho, aliás, nada contra anarquistas. Infelizmente, nunca encontrei nenhum, mas não perco a esperança.
    Sobre o teu arrazoado, há uma coisa que é verdadeira: estou gordo, mas o que tens tu a ver com isso ? Cai em cima de ti, sem reparar?
    Os testamentos do Rick (muito gostam vocês de pseudónimos, é tão romantico, não é, Tmao?), valem a pena ler. E melhoraram bastante, já não chamam estalinista aqueles que não concordam com ele.
    Confesso que acho graça a manifestações com gente vestida de palhaço, mas acho menos graças aos verdadeiros palhaços.
    Mas manda sempre o teu comentário, desde o último debate que tive contigo que não me divertia tanto.

  8. Ezequiel diz:

    A não perder

    Sexta, 4 Maio, HARDtalk extra, BBC world 19:30hrs

  9. Josina diz:

    o que incomoda mais nesta percepção é a arrogância (imberbes…a pensar que iam mudar o mundo…) sinal, desde sempre, que o momento histórico dos que se arrogam terminou.

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Josina,
    Tem toda a razão, já não tenho idade para atirar balões de tinta. Agora a arrogância na polémica não é minha: não fui eu que andei a insultar todos os que não concordam comigo e a chamar nomes a manifestantes e grevistas que não comungam dessas novas e eficientes técnicas de agitação que tantos resultados dão. Desde a manif, nota-se que o autoritarismo, o capitalismo e a polícia andam pelas ruas da amargura.

  11. ce diz:

    Não há idade para atirar nem balões de tinta nem ironias mordazes. Sendo que os argumentos do seu lado são escassos e as ironias incessantes, pelo menos por enquanto vou ter de assumir que a tal barrigona de que falam acima não lhe permite fugir à polícia e portanto prefere apelar à marcha pelo emprego…O emprego, claro!!Essa autêntica panaceia…

    Já agora, como é que ficou o autoritarismo e a repressão em espanha depois de sevilha 2002?

  12. Rick diz:

    Nuno, esta polémica, no que me diz respeito, fica por aqui. Não sei quem insultou todos os que não concordavam e insultou manifestantes e grevistas.
    Também não disse em nenhuma entrevista que coordenava um site. Como deverias saber, o teu jornalista não gravou a conversa e citou de cabeça, enganando-se ou confundindo.
    Fica claro para mim que não tens capacidade para entrar num debate deste género sem ser através de insinuações nebulosas. Faltam-te as ideias e falas de Chiapas. Faltam-te os argumentos e fazes acusações desonestas. Falamos, evidentemente, línguas diferentes e incomunicáveis.
    Ao contrário de ti, eu acredito na inteligência de quem lê e mede os argumentos de um e de outro.

  13. Ce (mais um pseudónimo provavelmente do mesmo tipo),
    Agradeço a preocupação com a minha barriga, parece o único contributo sólido da crítica do movimento anarquista. Esclarecendo algumas questões menos importantes para vocês: acho as vossas acções estupidas, inúteis e prejudiciais para quem combate o capitalismo. Mas defendo a vossa liberdade de serem cretinos. As vossas palhaçadas no 25 de Abril apenas serviram para as pessoas serem convencidas que há os skins radicais e violentos de direita e há uns extremistas de esquerda de sinal contrário, igualmente violentos e anti-democráticos…Foi o que se chama um sucesso político e mediático no combate da extrema-direita. Se eu fosse adepto da teoria da conspiração perguntava: o PNR paga-vos? Ou são só completamente estupidos?

  14. Rick (para respeitar um dos teus pseudónimos),
    Eu não mandei nenhum jornalista inventar nada sobre ti, como pareces querer dizer. Não fui eu que chamei estalinista ao Pedro Penil. Não fui eu que fiz considerações menos abonatórias sobre greves, manifs e outras coisas. Muito menos fui eu que usei e abusei de insultos na dita conversa, sempre resguardado de pseudónimos.
    Por mim, dispenso bem continuar a discutir contigo, ou com os teus amigos, se estou gordo, não fujo à polícia ou não percebi nada sobre Chiapas… As discussões ideológicas sobre a minha silhueta e a tua anquinha estreita (espécie de Kate Moss libertária) são fixes para aliviar o stress do trabalho, mas sabem a pouco.

  15. carreira diz:

    Excelentíssimo senhor,
    Criei um blogue de opinião que agora estou a divulgar.
    Se tiver interesse, não deixe de fazer uma visita:

    http://www.cegueiralusa.blogspot.com/

    Caso goste, por favor divulgue, pois pretende ser mais um espaço de discussão em busca de uma cidadania mais activa.
    O meu muito obrigado.
    Com os melhores cumprimentos,
    José Carreira

  16. RJA diz:

    Além do teu artigo não acrescentar rigorosamente nada, os teus comentários denotam falta de inteligência e de capacidade (ou interesse) em analizar a realidade que te rodeia (aparentemente não rodeia).

    Se a ignorância pagasse imposto, caro Nuno, o senhor nem tinha como aceder à net e escrever estas nulidades.

    Passar bem e ver melhor

  17. G.R. - pseudónimo, provavelmente do mesmo tipo diz:

    Não conheço a tua barriga. Não te conheço pessoalmente. Mas do que conheço de ti, vejo que não és ignorante. Não muito, pelo menos. Ignorante não. És idiota, isso sim. Ideias muitas, mas pequeninas, pequeninas, pequeninas. “ah e tal, bolinhas de tinta nao serve para combater o capitalismo”… Eh rapaz, já te deste conta que nenhuma das pessoas que aqui vieram comentar nem se deram ao trabalho de argumentar que até essa das bolinhas de tinta foi mais uma fabricação mediática? Sim, que tenha havido uma, duas… Eu digo-o porque estava lá, e a única bolinha de tinta que vi foi nos dias seguintes em fotos pós-manif. Mas bem, o que dizia é que nenhum dos que aqui comentou se deu sequer ao trabalho de argumentar por aí. É que o que tu dizes fica tão atrás, tão atrás, tão atrás… que ao argumentar por aí até parece que se está a entrar na tua idiotice. Eu decidi entrar na tua idiotice e dizer-te isso, não para me mostrar idiota como tu, mas para te poder dizer que passado esse idiota argumento das bolinhas de tinta, todos os outros que usas realmente não passam (como se disse já muito por aqui) de foleirices desbocadas a maltratar pessoas que não conheces. Porquê a maltratar? Porque as injustiças com as etiquetas que lhes colas, sendo que não fazes a menor ideia de quem estava na manif, de como ela se processou, do tempo que demorou, de que actos ilícitos nela foram cometidos, etc. etc. etc. Como tens demonstrado, aliás.

    Pergunto-me, agora que digo para mim mesmo “mas que raio tas tu a fazer a escrever uma resposta a este idiota…”: Farei bem em estar a perder tempo e energia mental contigo e com o teu chorrilho de idiotices com cheirinho a inutilidade? Não sei.

    Mas uma coisa é certa: Pelos comments que vi, se te tens dado ao trabalho de responder tão certinho a todos, este também terá resposta. E se não tiver, por acaso, só será assim porque eu disse que iria ter resposta, e tu parece que gostas mais de contrariar do que pensar sobre o que falas.

    Ah!! E pela tua arrogância, também ela idiota, merecias mesmo que eu te chamasse gordo em tons de gozo (tinha que ser em tons de gozo, pq n acho que tenha mal ser gordo – comer comida é cool, comer na tromba é que não é cool). Mas não chamo. Chamo-te só idiota.

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