Confabulações

Eu nasci em 61 (o ano de Goa e do “terrorismo” em Angola, como muitas vezes ouvi dizer) e a minha mais distante memória política é a morte do Che Guevara, no final das férias de 67, que talvez por estar convalescente (tinha sido atropelado dias antes pela mítica bicicleta do carteiro de Aldeia de Irmãos) eu comuniquei ao meu pai com um inesquecível “-Apanharam o bandido!” (e inesquecível porque o meu pai nunca mais me deixou esquecer o episódio, sobretudo desde que se deu conta de que o filho mais novo tinha tendência a preferir os bandidos aos polícias).

Televisivamente falando, lembro-me de um modo vago das imagens da Guerra dos Seis Dias, uns meses antes, e de um modo menos vago do Maio de 68, que associo sempre a cenas nocturnas de correrias e carros voltados sur le pavé, contadas pelo inevitável José Augusto, correspondente perpétuo da RTP em Paris (o que terá sido feito dele?); mas eu era um puto quase normal, e tanto como à política eu ligava ao futebol: lembro-me perfeitamente do Mundial de 66, de chorar como uma madalena quando perdemos com a Inglaterra (ouvi um dos meus irmãos no intervalo dizer a alguém ao telefone que o jogo estava “giro” e desatei a dar-lhe pontapés até que ele pediu reforços e a minha mãe teve de ir lá sorrindo, cheia de paciência, levar-me ao colo para ele poder acabar a conversa) e da final em que torci pela Alemanha para me vingar do Bobby Charlton e companhia – porém destas e doutras memórias antigas sorri de novo a minha mãe, cheia de condescendência, como que a dizer que não há maneira de eu crescer e me deixar de confabulações…

Vasco Pulido Valente nasceu em Novembro de 1941 e lembra-se “distintamente” (“Público”, 21.04.07) de ter ouvido a voz de Hitler (“ou de Goebbels?”) na telefonia: tal era o mundo em que nasceu, assevera. Ora quando aquele sinistro par ficou sepultado no bunker de Berlim, VPV não tinha mais de três anos e meio; desta vez, é o filho da minha mãe que sorri com condescendência das confabulações alheias…

Entendamo-nos: eu não nego que VPV possa ter ouvido de facto a voz de Hitler na telefonia, mas inclino-me a pensar que terá sido num programa de discos pedidos; afinal, eu próprio conheci a voz de Lenine num disco antiquíssimo da Chant du Monde que um outro dos meus irmãos arranjou, que se ouvia naquela hora épica da história pátria em que se consumiam discursos incompreensíveis como se música fossem e “A revolução proletária e o renegado Kautsky” se tornou mesmo (por fugazes instantes) um paradigma da literatura de praia, e que levou o meu próprio pai a dizer que, se calhar, também ele tinha subestimado os talentos do tal de Ulianov, pois que o ouvia a falar russo com grande desenvoltura (e o russo, como se sabe, é uma língua difícil).

Mas se calhar o defeito é meu, e aos grandes homens são possíveis memórias de que o vulgo não é capaz: num dos mais geniais livros de crónicas jornalísticas que alguma vez li, e dá pelo nome algo bizarro de “Hoo-hahs and Passing Frenzies”, Francis Wheen conta que Tony Blair, num dia em que decidiu abrir a alma à imprensa, descreveu com pormenor as suas idas a St. James’ Park, onde se sentava atrás da baliza para ver em acção Jackie Milburn – um avançado do Newcastle United que era suposto ser o ídolo da sua adolescência – isto quando Milburn arrumou as botas tinha Blair quatro anos e não havia onde sentar atrás das balizas em St. James’ Park nesse tempo, e que outra vez se perdeu no aeroporto de Newcastle, entrou por um avião dentro e estava quase a partir para as Bahamas, quando também é certo e seguro que, de tal aeroporto, nunca nenhum avião houve com tal destino…

Mutatis mutandis, outros primeiros-ministros europeus em exercício parecem afectados por distúrbios da memória afins – só que, onde uns se lembram a mais, outros lembram-se a menos. De resto, há uma “engenharia” semelhante (passe a expressão) e uma mesma vontade de compor retroactivamente uma dramatis persona que implica, senão mentir (que palavra feia!), ser pelo menos economic with the truth – ou então simplesmente confabular, como VPV. Como a minha velha e céptica mãe, só me apetece perguntar-lhes a todos: quando é que crescem?

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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13 respostas a Confabulações

  1. Teresa FM diz:

    Não é de todo estranho que o VPV se lembre de coisas quando tinha 3 anos e meio. Eu compreendo-o perfeitamente, pois há coisas de que me lembro, perfeitamente, com a mesma idade (ou com menos). Confronto muitas vezes a minha família com situações, querendo saber se “isso” aconteceu mesmo, ou se é produto da minha imaginação. Por ex. lembro-me perfeitamente de um dia (tinha eu pouco mais de 3 anos) estar na Póvoa (a passar férias) e de lá ter ido o Marcello Caetano. Lembro-me de o ver; de ver as pessoas que se alinharam para o verem passar; de lhe baterem palmas; e de eu e a minha família ficarmos mais afastadas a ver. A minha memória não é muito nítida, mas lembro-me. E lembro-me que tive uma má sensação, porque sabia qual a posição que “nós” (família) tinhamos perante isto. Lembro-me, perfeitamente, do meu avô paterno (que morreu tinha eu perto de dois anos), e lembro-me perfeitamente do dia em que ele morreu, de como recebi a notícia, onde estava, com quem estava, e como foi. Há quem não acredite em algumas memórias que eu tenho, até porque (acho) está provado que não se tem memória até não sei que idade, mas a verdade é que eu me lembro de coisas com até com menos idade. Os meus familiares dizem-me, em relação a muita coisa, quando pergunto se realmente aconteceu:”É possível, mas não sei.”

  2. António Figueira diz:

    Cara Teresa,
    Não resisto a comentar o seu interessante comentário. Não creio que possa estar provado que, abaixo de uma certa idade, não há memória: se assim fosse, todas as teorias explicativas da personalidade a partir da sexualidade infantil, por exemplo, perderiam a razão de ser… O que me parece, tanto no caso das histórias pessoais como, generalizando, no caso da história da humanidade, é que história e historiografia são uma e a mesma coisa: nós construimos em boa medida a nossa história, a partir do presente, e damos-lhe o sentido que mais nos convém, mesmo que não tenhamos uma consciência clara desse facto. O caso VPV pouco me interessa, e uso-o largamente como um pretexto; mas não posso deixar de achar algo cómico que um historiador profissional faça fé em recordações de há mais de sessenta anos, quando tinha apenas três de idade.
    Cumps., AF

  3. l.rodrigues diz:

    Não sei se os casos relatados se devem inteiramente a isso, mas é da psicologia moderna que a memória é uma composição que muitas vezes tem mais do presento do que do passado…

  4. António Figueira diz:

    Isso mesmo.

  5. António Luís diz:

    Mas olha que dos 6-3 lembro-me perfeitamente.

  6. António Figueira diz:

    E dos 7-1, já eras nascido?

  7. No Républica & Laicidade, a sequência de acontecimentos da carga policial de 25 de Abril:

    http://www.laicidade.org/2007/04/27/«25-de-abril»-reprimido-a-25-de-abril-2/

    Passa o link e a palavra!

  8. maradona diz:

    Comentário igualzinho ao da Teresa FM

    Nasci em Setembro de 1973. Lembro-me de perguntar à minha mãe, coisa que ela confirma com escândalo (só superado quando a informei, 4 anos depois, que se pudesse votava AD – argumento alegado: “tem um nome mais bonito”), se “há tanques do outro lado do rio?”. Era o 25 de Novembro de 1975. É, portanto, fazer as contas. De resto, Francis Wheen é bom, mas não é preciso exagerar.

    cumprimentos
    maradona

  9. António Figueira diz:

    Caro Maradona:
    Eu nada posso contra seres superiores.
    Eu bem disse que me referia a memórias políticas (de coisas da mãe e da avó, mais ou menos esfumadas, também julgo lembrar-me mais antigas), a ver se o meu interesse pelo Che aos seis anos passava por uma precocidade e uma esperteza, mas pronto, há que saber perder, afinal houve quem seguisse os sobressaltos do PREC quando só tinha dois (já agora, que tanques eram?).
    Quanto ao Wheen, ele há dois: o biógrafo do Marx (e de uma ou outra personagem menor) não tem grande interesse histórico, e politicamente é um fabiano fora de prazo; o Wheen cronista – repito e assino em baixo – escreve como eu gostaria de escrever se alguma vez fosse grande.
    Cumprimentos, AF

  10. f. diz:

    ai, antónio. também me Alembro de coisas mui antigas, lá por volta dos dois, três anos. nada extremamente (olá, maradona) político, porém. um cão, o meu avô materno, que morreu quando eu tinha três anos (e o dia da morte dele) e, tã-na-na-na, a despedida do cais do navio que levava o meu tio e a minha tia para áfrica, os lenços a acenar e uma música muito triste (uma banda da tropa?). e a voz do salazar na tv e o meu pai a gozá-lo, mas isso durou até mais tarde. mas claro que tens razão: quase tudo o que lembramos é recomposto.

    e que tanques eram esses, sim, que tanques eram esses?

  11. António Figueira diz:

    F., tu esbanjas literatura: porque fabricas tu vis jornais em vez de escreveres alta poesia?

    Quanto a isto da memória, há que ser radical: “faire oeuvre d’historien ne signifie pas savoir ‘comment les choses se sont réellement passées'” (a memória era só um pretexto, percebeste-o bem, o que me interessa mesmo é a história).

    Cumps., AF

  12. f. diz:

    ó, antónio. só precisava que alguém me dissesse isso. vou já despedir-me do vil pasquim e entregar-me inteira às estrofes, aos sonetos, às rimas quebradas, sei lá

  13. António Figueira diz:

    F., enquanto ainda escreves vis pasquins, se te quiseres divertir um bocado à pala da concorrência, vai ver a crónica do Provedor dos Leitores publicada no P. de hoje e a história maravilhosa que lá se conta do “ombro do gato”; imperdível, como agora se diz.

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