Filipe Calvão: war as usual

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Este post é descaradamente roubado ao Filipe Calvão, é um bom texto as usual.

Quando decidiu pela primeira vez receber um representante dos ocupantes, em 2003, o Grande Ayatollah iraquiano Ali al-Sistani exigiu que o seu interlocutor fosse Iraquiano. Para emissário a escolha recaiu então num médico ‘iraco-americano’ exilado na Flórida, seleccionado pessoalmente por Paul Wolfowitz, e conhecido nos meios cientifico-empresariais por ter patenteado um sofisticado implante no pénis para casos de impotência sexual (uma escolha tão apropriada como um zézé camarinha de canudo para ir falar com o papa). Naturalmente, seguiu-se uma Fatwa contra a possibilidade da constituição ser escrita pela Autoridade Provisória da Coligação (CPA no acrónimo inglês).
Este episódio é contado por Rajiv Chandrasekaran, jornalista do Washington Post destacado no Iraque em 2003, e dá bem conta do peso em que se tinha tornado o fardo da ocupação. São anedotas rotineiras se tomadas isoladamente, mas uma tragédia na big picture de 4 anos de ocupação americana. E é precisamente como retrato do quotidiano palaciano do exercício de poder ocupante que “Imperial Life in the Emerald City” (2006) me convenceu. É que mais do que as anedotas da ocupação (e pérolas não faltam para quem quiser animar diatribes fuckamerica, como na inveja americana das caravanas fornecidas pelo IKEA aos soldados britânicos), este livro conta a história de um poder-fortaleza sitiado no seu próprio terreno — por força do amadorismo da missão civilizacional, dos tiques ditatoriais do vice-rei Bremer, do desastre total da estrutura de ocupação — e eventualmente aí combatido (como nos primeiros dois atentados suicidas no interior da ‘cidade-esmerda’, em 2004, bem anteriores ao recente ataque durante a visita do SG das NU). E lembra-nos que os éditos da Haliburton a regular a vida na zona verde, ao ponto rídiculo de proibir a posse de animais domésticos no perímetro da cidade-esmeralda, são parte integrante da história da primeira guerra de ocupação comandada no terreno por uma empresa privada.
O epílogo do livro termina com uma situação de guerra civil. De todos os neo-cons arregimentados em manada para o Iraque, Bremer foi o primeiro a desertar, de helicóptero, dois dias antes da data prevista. O seu sonho de uma democracia regulada pelo mercado livre, como conta um dos implicados, foi ‘esmagado pela realidade.’ Neste processo de fuga em frente, resta saber até que ponto a adminstração americana não estará a ser minada, no Iraque ou em casa (como na história dos promotores públicos despedidos recentemente) ao ponto da implosão. Ou do não retorno.
Podem ler um curto excerto do primeiro capítulo aqui.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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