Medo

Chamemos as coisas pelos nomes: quem não quer fazer um referendo à Constituição europeia é porque tem medo, medo da abstenção e medo do voto de protesto, em suma medo de perder. Ora quem tem medo compra um cão, e quem está em democracia e acredita na sua causa deve ir à luta, por mais difícil que ela seja. Eu não gosto de referendos, por princípio; mas parece-me ridículo fazer votar a regionalização ou a despenalização do aborto, que os deputados podiam e deviam ter resolvido sozinhos, e negar depois ao eleitorado a possibilidade de se pronunciar directamente sobre a Constituição europeia (cumprindo de caminho uma promessa eleitoral). Não se pode querer uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo: a Europa dos cidadãos e a Europa com medo dos seus cidadãos. De resto nem vale a pena: desde 92, pelo menos (com o referendo dinamarquês) que a Europa, bem ou mal, deixou de pertencer aos especialistas e caíu no domínio público. Pensar que agora se pode fazer marcha atrás revela, para além de medo, cegueira.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 respostas a Medo

  1. Sérgio diz:

    Caro Atónio,
    O referendo parece ser a forma menos divorciada dos cidadãos (de quem se diz também serem Europa) de legitimar uma reforma geral dos tratados. Não obstante comporta perigos, mas é o jogo da democracia. Seria mais seguro e menos propenso a populismos os deputados resolverem a coisa… mas a democracia participativa já é tão limitada que é melhor aproveitar estas oportunidades raras.
    Isto não deve fazer esquecer a necessidade urgente de encontrar sucessor de qualidade para o Tratado de Nice que reflecte mais uma justaposição de interesses digno de uma feira de poder do que um empenho europeu. O resultado é deriva provocada pelas perspectivas de sucessivos alargamentos sem a necessária capacitação para o efeito. O resultado temido, já o António falou nele: a diluição de um projecto político numa área de «free trade».

    Atenciosamente,
    Sérgio.

  2. FuckItAll diz:

    Pura e simplesmente assim.

  3. Paula diz:

    Neste caso, embora não entenda de estratégias políticas, pois sou apenas uma cidadã interessada na vida, que nasce e se move à minha volta e por esse motivo defensora dos direitos das pessoas, parece-me que tem razão.

  4. Manuel Joaquim Meireles diz:

    Quem daqui acredita no ateísmo? É que cada vez mais parece que é moda não acreditar em nada e muitos até têm vergonha de dizer que vão à missa. Os ateus acreditam simplesmente no Homem. Pouca sorte. É que pelas notícias de barbaridade que todos os dias ele comete no mundo mais vale acreditar mesmo é em Deus. Quem não acreditar que se converta…

    Um Abraço Fraterno a Todos de um homem de esquerda…

  5. ezequiel diz:

    Caro António,

    Tens toda a razão. É uma pena que a Europa dos cidadãos continua a ser a Europa dos cidadãos nacionais. Se é assim (?), é possivel que a constituição venha a ser entendida como uma mera abstração ou idealização que promove, ainda mais, a discrepância (?) que parece existir entre as identidades nacionais e a cidadania Europeia. Nos países poderosos da Europa as perspectivas nacionais persistem (grosso modo), ou seja, a Europa é vista pelo filtro dos interesses nacionais, como algo que lhes complementa. Nos países menos fortes o ideal Europeista detem a primazia, como seria de esperar.

  6. ezequiel diz:

    Acho que isto poderá te interessar António. às tantas já o compraste, mas como não posso saber, deixo isto aqui para ti de qq forma. (podes fazer o download de um capitulo de graça)

    Bom 25 para ti, António! (e eu que nem sequer sou de esquerda…nem de direita…liberalzinho genuininho: True blue, the real McCoy! eh ehe eheh eh h e 🙂

    É o valor do pluralismo!

  7. ezequiel diz:

    mas 47 libras estrelinas…por um trab de comparative politics…nunca!! Comprava um Freud, um Cavell, meio Kant e dois Hegels com isto!

    tastes!

Os comentários estão fechados.