Vampiras & Frankensteins

 (Sobre A Bela & o Mestre, Correio da Manhã, 10 de Abril)

Li neste mesmo jornal que uma das concorrentes é licenciada em Gestão Hoteleira e que dá aulas nessa mesma área. Ok, se calhar as belas não são assim tão burras, da mesma foram que os mestres estão longe de serem águias. Mas foi essa mesma concorrente que não reconheceu Camões e que não sabia que a Islândia é na Europa. Ok, as escolas por onde passou podem ter sido muito más (não faço ideia). Mas, apesar de tudo, tirou uma licenciatura. E a sua ignorância até podia ter sido encenada. Porém, já depois de ter saído do programa, reconheceu que, efectivamente, estava a zero. A questão é que a capacidade de reconhecer Camões não mede cultura alguma. O que mede é o grau de alienação a que se pode chegar. Mesmo com uma licenciatura e por mais fraca que ela seja. E essa alienação é, em grande medida, produzida pela televisão que transborda lixo a maior parte do tempo. Mas que, depois, é a primeira a gozar e a lucrar com o resultado. Como uma pescadinha de rabo na boca, num circuito fechado com o seu quê de canibal.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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4 respostas a Vampiras & Frankensteins

  1. aff diz:

    Concordo inteiramente. Só que as pessoas levantam-se ás 6 da manhã para apanhar transportes para o trabalho, esforçam-se para criar os filhos, sofrem muito, e a televisão dá-lhes um momento de sossego em paz com os seus sonhos. O problema não é o telelixo para os idosos e para a classe trabalhadora. O problema é o telelixo para os jovens que mais cedo ou mais tarde o vão reproduzir nas suas vidas.

  2. Sinceramente, assisti a 3 min. de programa no passado fim-de-semana e descobri que, afinal, a coisa podia ser pior so que imaginava.
    Parti do pressuposto (preconceituoso) que as raparigas que nele participam seriam tão tolinhas que, perante a possibilidade de fazer uns trocos, não compreendiam que estavam, de facto, a ser achincalhadas. Enganei-me. No pouco que vi, apercebi-me do profundo desconforto de, pelo menos, algumas delas. Confrontadas com com a sua ignorância, por um lado; e com a sua exposição pública, por outro, pareceu-me, sinceramente, que as criaturas se sentiam MESMO humilhadas.
    Excedendo as piores expectativas, mantenho que o pior que o dito programa oferece é a demonstração da falta de sentido de responsabilidade dos “comentadores”, que tinham idade e estatuto para não pactuar com este tipo de exploração (que, se não rendesse muito dinheiro, mais pareceria uma brincadeira infantil) e dos amigos dos comentadores -muitos com acento blogosférico- que noutras circunstâncias diriam raios e corriscos do desgraçado do programa, mas que, por compadrio, agora o elevam à categoria de relevantíssima experiência social.
    Mete nojo.

  3. Lidador diz:

    [Mas, apesar de tudo, tirou uma licenciatura]

    A Joana também…e tem as “ideias” que tem!

  4. isabel diz:

    ..so ve quem quer..temos que ser realistas e aceitar que há espectadores para tudo..com e sem licenciatura… licenciatura naõ impõe cultura!!!!!

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