Rui Tavares: O ideal universitário

Autor: Rui Tavares

(Público, 11 de Abril)

Quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por  importante que seja, corre mal. Há qualquer coisa no ideal universitário que o torna difícil de  explicar, apesar de ser tão simples. O ideal universitário é as  ideias. Ideias sobre como são as coisas, sobre como funcionam, sobre  como deveriam funcionar, ideias sobre ideias. Algumas  dessas ideias  são conhecimento, outra são comentário, outras criatividade, a maior  parte delas um pouco disso tudo. Mas é difícil explicar aos alunos,  ou até ao resto da sociedade, que dentro daquelas paredes  (metafóricas: pode ser cá fora, na esplanada, no trabalho de campo,  na visita de estudo) essas ideias devem ter precedência sobre tudo o  resto. Se os alunos querem um diploma e os pais pagam por um bom  emprego, não é fácil dizer-lhes que por agora a única coisa  importante é o que escreveram alguns mortos de há mais de cem anos,  ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de  y. Só depois de ganhar verdadeiro interesse ou paixão por tais coisas  chega a altura de se poder começar a tratar de notas, de diplomas e  de empregos.

Isto parece idealista, e é. Não poderia deixar de sê-lo, porque a  razão de ser da Universidade é precisamente o idealismo, e não falo  da doutrina filosófica do mesmo nome mas do projecto e da experiência  histórica de haver um lugar inventado pelas ideias e só para as  ideias. O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa  do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Esta é uma das razões pelas quais o episódio da Universidade  Independente nos enche de vergonha alheia. Sabemos que foram  defraudadas pessoas que queriam o seu diploma e pessoas que queriam  uma carreira académica, que alunos ficaram sem aulas e professores  sem salários. Mas se ouvirmos os autores da fraude, como não esperar  este resultado? Desde há semanas nos media só os ouvimos falar de  andares e piscinas, lutas pelo poder e diamantes, acções e hipotecas.  Nunca por uma vez sequer nos disseram para que queriam uma  universidade. Que gostariam de fazer com ela. Que diferentes  concepções defendia cada facção em confronto, se é que pensavam em  tal coisa.

Infelizmente, estão longe de ser caso único. Os sinais de degradação  do Ensino Superior Privado no nosso país são claros: as instituições  esquecem-se que antes de serem privadas têm de ser universidades. O  relaxamento geral em que viveu a UnI não é, ao contrário do que  pretendeu o Ministro, coisa recente nem isolada. O que é preciso  explicar é como se deixou atingir este ponto, o que não coloca apenas  em causa o seu ministério. Por exemplo: como podem ter leccionado  tantos jornalistas importantes na UnI sem a imprensa ter investigado  aquele ninho de mafiosos? O ideal universitário pode vingar em  qualquer ambiente – público, privado, cooperativo, livre, há  excelentes universidades para todos os gostos. Mas é um ideal frágil.  Tem de ser protegido sem ser asfixiado: pelo estado, pela sociedade,  pelas próprias instituições.

Por mero acaso, Portugal tem algumas condições para se sair bem no  mercado universitário, à escala global e a longo prazo. Um país  pequeno, agradável e seguro com uma língua falada por duzentos  milhões, uma universidade das mais antigas do mundo, uma capital com  potencial cosmopolita e meia-dúzia de cidades históricas ou com  razoável vida cultural, integração à escala europeia e laços em todo  o mundo. Neste contexto, as universidades podem ser boas para o  desenvolvimento e para a economia. Mas em primeiro lugar, se não  quisermos as universidades para aquilo que elas servem, elas não  servirão para mais nada.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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6 respostas a Rui Tavares: O ideal universitário

  1. Sérgio diz:

    Universidade sem condição.

    Parabéns.

  2. aff diz:

    “O ideal universitário é as ideias.” Há qualquer coisa de errado aqui. Li hoje algures”Existem apenas três regras na vida. Mas ninguém sabe quais são.” parecendo que não faz mais sentido.

  3. aff diz:

    Poder-se-á dizer que o ideal de um criativo publicitário é a ideia de lucro?

  4. Arrebenta diz:

    A Dona da Rua

    Há uma figura muito do nosso imaginário que é a da “Dona da Rua”.
    A Dona da Rua é uma gaja acima dos 60, mas a querer sempre aparentar trinta-e-muitos, com um penteado que já só se consegue nas M’dinas do Magreb e em certos cabeleireiros de bairro: oxigenado, platinado, e gloriosamente sustentado por uma lata inteira de laca.
    A Dona da Rua tem gosto por tudo o que brilhe: pulseiras vistosas, pedras coloridas, à mistura com uns quantos quilates de ouro. Geralmente, costuma ter mais anéis do que dedos. Veste de leopardo, com o típico bom gosto da Clara Pinto-Correia, e passa mais tempo nas esplanadas com vista para o seu pequeno mundo do que a ler etiquetas de preços de saldo de sapatos de salto extra-alto, embora as frequente muito, elas, etiquetas, e os próprios saltos.
    A Dona da Rua é um Gato de Schröndiger: todas as pessoas do bairro sabem que ela subiu na vida a abrir as pernas para um cavalheiro com posses, mas ignoram sempre a data exacta em que as começou a abrir. Em contrapartida, toda a gente conhece o dia certo em que lhe pôs a tampa do caixão por cima, e fez a transferência da pensão para a conta própria.
    Eu gosto muito de Donas da Rua. As Donas da Rua têm uma estrutura psíquica muito própria, que é a de, depois de se terem tornado em Donas da Rua, tentarem convencer os restantes vizinhos de que aquilo sempre foi assim. Para as Donas da Rua, como para os povos primitivos, o conceito de História não existe. Não têm Passado, e desconhecem a Escrita, excepto a da assinatura do cheque da conta conjunta com o “seu” defunto. Toda a narrativa da sua vida se inscreve no Discurso Mítico.
    Há um axioma da Sociologia que diz que a estrutura psíquica de uma Dona da Rua é diferente da estrutura psíquica de um Licenciado. A Dona da Rua acredita mais em deitar cartas do que em Relatórios da O.C.D.E.; é mais opiniosa do Coração do que certificadora de raciocínios através da Álgebra de Boole; prefere a Raiva, o Rancor, a Inveja, a Vingança a qualquer das linhas da Declaração Universal dos Direitos do Homem; a Dona da Rua sabe, e pratica — e é a única prática intuitiva, embora empírica, que nela se assemelha à Ciência — que, na Teoria da Comunicação, o peso do Discurso se divide em três parcelas, desiguais, 55% para a Expressão Facial, 38% para o Tom de Voz, e só 7% para o conteúdo das Palavras: por isso, ela faz tantas boquinhas na esplanada, ao colocar a camada de batôn, dos dez em dez minutos, os esgares; por isso, ela fala sempre num tom de desdém ou de venha-mais-uma-torrada, e só comenta as notícias das intrigas dos varais de pendurar lençóis dos prédios ao lado.
    Esta noite, a Televisão do Estado, paga por mim, e por si, contribuinte leitor, perdeu uma hora e meia a entrevistar uma Dona da Rua.
    Por estranho que pareça, e para muita boa gente aqui, que me toma por especialista no Sr. Sócrates, a verdade é que eu não sou: nunca consegui estar mais do que 2 minutos a ouvi-lo, e, mesmo assim, entre “zappings”, obstinados e abruptos. Hoje, pelo contrário, dei-me ao luxo de lhe dedicar 10 minutos, aliás, 10 minutos, 12 segundos e algumas décimas de segundo, como diria, o Chanato Constâncio, e penso que não foram minutos desperdiçados, porque eu sou um verdadeiro apreciador de Donas da Rua. Mais: acho que elas fazem parte do nosso património genuíno, tal como o Chulo, tirar macacos do nariz, eructar em público, o Uivo do Adepto Futebolístico, ou a Voz timbrada da Peixeira.
    Uma coisa falhou em Sócrates, todavia: não esteve à altura da Incompletude, de Gödel, e, portanto, não pode ascender àquela situação em que poderia ser, como no Paradoxo de Richard, simultaneamente Dona da Rua e Licenciado. O terreiro em que se move é muito baixo, e a tômbola acabou por fazê-lo definitivamente cair para o lado de… Dona da Rua.
    Para o Sr. Sócrates, de Vilar de Maçada, Alijó, alguém, um dia, terá de vir explicar que uma Licenciatura, como um Mestrado, como um Doutoramento, não são meros papéis com carimbos de autentificação, mas são subtis transformações cognitivas, e da espacialidade do Pensamento, ou seja, meta-estruturas, que obrigam a que a emissão de certos raciocínios, como o decorrer de certas argumentações, obedeçam a uma organização muito específica, que, apesar de indizível, é formalmente identificável. A Dona da Rua, para se convencer, e convencer os outros, prefere repetir muitas vezes a mesma palavra, variando a entoação da voz, e enformando-a numa mesma estrutura narrativa, com variantes apenas comparáveis às “nuances” das raízes do seu cabelo, em vez de encontrar o Silogismo Fatal.

    Glória Fácil.

    Ora, a cabeça do Sr. Sócrates enferma de não ter sofrido as metamorfoses cognitivas que identificam um licenciado de um não-licenciado, e tudo o resto são papéis, e ele adorou vir expor isso a público, perante uma plateia ávida de escândalo. Mas não houve escândalo, apenas “parole, parole”, como cantava a outra, e vazias.
    Para mim, que prefiro Donas da Rua a Licenciados, foi um tempo bem gasto. Provou-me que a retórica do caracacá só conseguia despertar esgares de gozo mal-disfarçado nos jornalistas — parabéns para ambos!… — e suponho que numa certa parte da Plateia Portuguesa.
    O problema central não está nesses esgares de gozo, ou nas gargalhadas da minoria, está, sim, no reconhecimento que a Grande Maioria de um Povo pouco habilitado possa ainda conceder ao Sr. Sócrates, já que ele se lhes assemelha muito ao perfil do gajo-que-deu-o-golpe-do-baú-que-todos-gostariam-de-ter-dado-mas-não-tiveram-a-sorte-dele.
    Portugal é um estádio, e o Boneco de Lata de Bilderberg tem a sua claque, suponho que sejam os No Vagina’s Boys, mas não posso assegurar, porque sou pouco entendido em Futebol, ao contrário das Donas da Rua, que ADORO.
    Até podia acontecer que o natural de Vilar de Maçada não tivesse logrado dar o salto cognitivo do Licenciado, mas houvesse alcançado o Grau Subtil de Habilitado Político, aquele “je ne sais pas quoi”, a que nós chamamos o Faro dos Grandes Estadistas. Pobremente, nem uma coisa, nem outra. É um mero provinciano, despido de discurso, vestido de trapelhos enfatizados, e reduzido, pelo nível da suspeita, àquilo que de pior lhe podia acontecer em Portugal, que foi fazerem-lhe entrar a Vaidade directamente no anedotário do Senso Comum. Ao fim, depois de lhe agradecerem, ainda disse “ora essa”, expressão que eu já não ouvia, desde os tempos do Sr. Américo, a quem a minha avó comprava queijo picante, e já lá vão “iânos” e muitos “concêlhus”, como ele diz.
    Amanhã, aliás, já ontem, todos os taxistas, as operadoras de caixa do “Carrefour”, os seguranças das bombas de depois-da-meia-noite terão um novo MBA, uma nova Pós-Graduação a acrescentar à Imensa Anedota Sócrates. É a única coisa transfinita em Portugal, o Sarcasmo, e, nisso, ele, país, cultura, modo de estar, é impiedoso.
    Costuma dizer-se que quem com ferro mata com ferro morre.
    À laia de final, ou de Consolação Menor, quando Bilderberg oscilou entre este Boneco de Lata e o Expansivo Santana, eu sei que teve as suas razões: o Santana, que, apesar de todos os seus defeitos, possui o tal “faro político”, sofria de uns “ataques”, ou seja, podia dar-lhe para cometer alguma imprevisão, que pusesse em causa o… “programinha” estipulado para Portugal. Em contrapartida, o Merceeiro de Vilar de Maçada assegurava tudo: ser Monótono, Vazio, patologicamente obstinado, Vaidoso, e ter a tal válvula de escape, muito complicada, como tinham os “Harkonnen”, de “Dune”: um passo em falso, puxavam-lhe o tampão, e o sangue jorrava até ao fim…
    Preferiram, pois, uma estrutura mental de bicha típica, subserviente, e a quem se podia desligar o oxigénio, a qualquer momento.
    Esqueceram-se de que lhe podiam pregar uma rasteira, no nível rasteiro das rasteiras à portuguesa, e o ruído dos bonecos de lata a cair no chão é uma coisa realmente do “Heavy-Metal”, deus meu, até eu, um Estóico, e mesmo com os ouvidos tapados, e já a zarpar para outro canal, fiquei com sincera pena…

  5. pedro diz:

    Porque tenho eu a impressão de que este blogue se encontra orfão do Rui Tavares?

  6. Grande texto Joana, permite-me que também concorde com o Rui Tavares. Gostava de partilhar contigo um texto meu sobre a decadência do PP e o futuro da jotas, espero que gostes:
    http://aquelaopiniao.blogspot.com/search/label/Juventude%20Popular

    Beijo.
    João Gomes

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