Pirosices

Chegamos nós a uma portagem e o que é que encontramos lá escrito? “Tire o bilhete”, ou mesmo “Retire o bilhete”? Não, encontramos “Retire o título” – um português especioso, pretensioso, piroso, que parece inventado por um recém-letrado que precisa de mostrar à família e ao mundo que já é formado em direito – e nós toca de passarmos todos a dizer também título em vez de bilhete, como já dizemos CRIL, CREL ou VCI em vez de estrada ou de circular ou de circunvalação ou seja lá o que for (e parecemos muito mais modernos, ricos e desenvolvidos só por isso, claro). Em Portugal, a alfabetização é recente, a história não existe e a administração manda na língua (vejo os nossos liberais indignados com coisas fantásticas, com a notícia de que Chávez proibiu a venda de bebidas alcoólicas junto às  estradas da Venezuela no fim-de-semana da Páscoa – o que costuma ser, como é sabido, a última etapa da Road to Serfdom – e nunca lhes ouvi uma só palavra sobre esta extraordinária violência que se exerce sem controlo sobre os cidadãos). Ali ao pé da Cinemateca, gastou-se uma fortuna a refazer a fachada de um edifício: onde se lia (gravado na pedra) “Junta Nacional dos Vinhos” passou a ler-se (repare-se na precisão sistemática): “Instituto da Vinha e do Vinho”; ora eu sei que “Junta” tem uma conotação corporativa e “Instituto” é mais neutro, mas, por exemplo, precisávamos mesmo de mudar o histórico “Ministério das Obras Públicas” para “Ministério do Equipamento Social”? Alguém se deu ao trabalho de contabilizar os custos dessa inutilidade? A Inglaterra tem desde há séculos o seu “Home Office”, a França o seu “Ministère de l’Intérieur”; nós ficámos mais democráticos só por termos mudado o nosso “Ministério do Interior” para “Ministério da Administração Interna”? Mas já pouco ou nada escapa à sanha iconoclasta dos tecnocratas de serviço, apostados em sacrificar no altar da última moda lexical os termos que o uso da língua foi lenta e informalmente consagrando: há bocado, ouvi na rádio o Bastonário da Ordem dos Advogados defender como perfeitamente admissível senão desejável que, no quadro da próxima reforma do mapa judiciário, as tradicionais “comarcas” e “distritos judiciais” passassem a chamar-se respectivamente NUT 1 e NUT 2! (sendo que depois não foi bem capaz de explicar what does NUT stand for…). E talvez por terem percebido que os portugueses, nisto da língua, são pau para toda a obra, é que os tipos do “Corte Inglês”, a que toda a gente chama o “Corte Inglês”, insistem no uso de “El Corte Inglés” – e pode ser que pegue, e que daqui a uns tempos ninguém ache esquisito repetir o artigo e dizer que vai “ao El Corte Inglés”: sinceramente, já vi pior.

PS No fim-de-semana passado fui ver a exposição de Columbano ao Museu do Chiado. À parte a bandeira nacional vermelha e verde, que acho a mais discutível das suas criações, eu gosto muitíssimo de tudo o que Columbano fez, acho o Grupo do Leão um ícone histórico magnífico, o Sarau de Amadores um grande quadro em qualquer parte da Europa e tenho uma especial predilecção pela uma das menos óbvias das suas pinturas – a Luva Cinzenta da sua mana Maria Augusta; aliás, acho mesmo que no século XIX português só há dois génios pictóricos, um a abrir e outro a fechar o século – Domingos Sequeira e Columbano – e que o tudo o mais que há pelo meio, interessante que possa ter sido (e nalguns casos até foi: o Cristino da Silva dos Cinco Artistas em Sintra, as cenas italianas de Henrique Pousão, alguns retratos de Miguel Lupi, etc.) não aguenta o confronto com a grande pintura que se fazia na época além-fronteiras, e se hoje continua a interessar-nos é mais a título histórico ou sociológico que propriamente artístico. A exposição é por isso de saudar – não foram os texto que a suportam, cuja sintaxe é em vários pontos deficiente e cujo vocabulário é superiormente irritante. Eu já tinha dois ódios de estimação: os “espaços”, disto e daquilo, e as “cumplicidades”, particularmente as que se “tecem”, que são as mais foleiras de todas; agora ganhei mais um: o verbo “convocar” nas suas múltiplas formas. Não se pode exterminá-lo?

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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14 respostas a Pirosices

  1. paulo varela gomes diz:

    E “acessibilidades” para acesso? Qualquer estradeca passou a ser uma “acessibilidade”! E a frase “o que vai desejar?” que é usada como se o verbo “querer” fosse excessivo, um sinal de má educação. E se calhar é. Para os portugueses de hoje querer seja o que for é excessivo. Deseja-se, assim suavemente, sem excessos, com gentileza, país capado de gente capada, desculpem lá o mau jeito e o mau humor mas já não há pachorra para gente que se deixa tratar como é tratada e não sabe sequer reagir à francesa ou à espanhola – o mais que estes bravos portugueses conseguem fazer é armar em modernos e telefonarem para a RTP a votar no Salazar.

  2. Miguel Magalhães diz:

    Excelente crítica! Mais alguns exemplos: “situação” aplicado a torto e a direito (por exemplo, no atendimento telefónico da TV Cabo); “em sede de…” para dar o um ar “jurídico”: ” o assunto será resolvido em sede de negociação”parece mais fino do que “na negociação” ou “durante a negociação” ou “através de negociação”.
    A linguagem pseudo-técnica está a ter este pseudo-êxito, porque existe no português de Portugal uma longa prática do eufemismo (“eu queria” em vez de “eu quero”). Como as características que levavam ao eufemismo (modéstia, humildade, decoro, pudor, etc.) estão fora de moda, agora usa-se o pseudo-técnico para exibir saber, conhecimento, competência, etc., características mais consentâneas com os nossos preconceitos actuais.

  3. L. Lopes diz:

    Sobre Columbano e o lugar de excepção da sua pintura no século XIX final português estou de acordo com o A.Figueira. Mas, há alguns anos, vi em Madrid uma exposição de pintura de Joaquin Sorolla (1863-1923), um contemporâneo de Columbano que de algum modo partilha o seu universo de cor e traço, e não pude deixar de notar as diferenças, por exemplo nos retratos (e, como Columbano retratou a gente da geração de 70 e outros, também Sorolla pintou retratos de Galdós, Azorín, Etchegaray, Menéndez Pelayo…). Há, claramente, nas figuras pintadas por Sorolla, mais “vontade” (digamos que supomos nelas mais energia stendhaliana). E essa diferença tem certamente tanto a ver com os pintores, como com as sociedades respectivas. Ignoro se Columbano e Sorolla algum dia se encontraram, ou sequer se souberam um do outro. Mas não deixei de pensar, vendo esta exposição de Columbano, numa possível (mas improvável) expo. Columbano/Sorolla (em Madrid, houve no ano passado uma expo. Sorolla/Sargent), que seria também oportunidade para uma reflexão sobre… Portugal/Espanha.

  4. paulo varela gomes diz:

    Vou continuar a mandar vir sózinho neste lindo domingo de Páscoa: e a piroseira do falar estrangeiro? Não estou a falar do Allgarve onde já se fala estrangeiro há muito tempo. Refiro-me aos meninos e meninas, cavalheiros e cavalheiras das indústrias e comunicações da ponta que enchem a língua toda de coisas inglesas desnecessárias, dizendo, por exemplo, “on line” quando podem dizer “em linha” que tem quase o mesmo número de caracteres. Ou os músicos pópe que cantam em inglês porque assim não se nota tanto que não têm nada para dizer e que, mesmo esse nada, não sabem dizê-lo e menos ainda escrevê-lo.
    Tudo tem que ver, não com provincianismo, mas – como diz o António – com um país de gente pobre e brutiforme a querer parecer rica e alfabetizada. Um país de gente especializada em mentir sobre si própria.

  5. paulo varela gomes diz:

    Sim, o silêncio é tal que parece domingo.

  6. António Figueira diz:

    Caro PVG: Hoje é pior do que domingo – é dia santo (não se pode comer carne nem fazer barulho).

  7. paulo varela gomes diz:

    E, caro António, não tenciono: comer carne e fazer mais barulho. “Por isso”, como diz o Marques Mendes, por isso, mudo de assunto: Joaquin Sorolla não é muito bem lembrado a propósito de Columbano, apesar da época, dos assuntos escolhidos e do meio social onde ambos se moviam. Sorolla, como Sargent, era um pintor proto-modernista. Columbano era um pintor moderno, certamente, mas não era um artista próximo das vanguardas. É curioso verificar, aliás, quem é que muitos intelectuais do final do século XIX admiravam como pintores: não eram os impressionistas e aparentados, nem pensar. Eram artistas como Columbano, mais ou menos talentosos, a maior parte dos quais já não conhecemos. Os impressionsitas são uma “descoberta” posterior. De resto, não gosto particularmente do Columbano. Acho-o um chato um bocado sorumbático que abusava do azul-chumbo: todos os seus personagens têm o ar de comido alguma coisa que lhes fez terrivelmente mal. Nisso o L. Lopes deve ter razão: deven ter sido enchidos de porco à portuguesa.

  8. anónimo diz:

    António, já viu o que seria se fosse a um cinema e lhe dissessem para guardar o título, ou se o apanhassem em excesso de velocidade na auto-estrada e você não tivesse bilhete?

  9. António Figueira diz:

    A influência do consumo de carne de porco no carácter nacional é uma temática que remonta a Camilo: recordo que já Calisto Elói, d’A Queda dum Anjo (ventripotente, apesar de seco de carnes), se alimentava apenas de “presunto e orelheira” da sua Miranda natal, o que terá provavelmente influenciado o extraordinário casticismo da sua arte oratória.

  10. a.castro diz:

    bilhete, senha (título – qualquer dia é ticket!); Junta (Instituto): a vaidade de quem é pequeno! 🙁

  11. f. diz:

    muito bom, nuno

  12. salvaterra diz:

    Isto só mesmo paciência de santo em dia santo que se está a finar ou já finou.
    Jorge Roberto, essa figura que agora desponta, na UnI e para a UnI, que oculta do currículo ser funcionário da CGD, há 25 anos, oculta também que é deputado municipal em Salvaterra de Magos pelo Bloco de Esquerda? Já só faltava mais esta para a novela da UnI.

  13. António Figueira diz:

    Obrigado, Joana

  14. Luís Lavoura diz:

    “CRIL, CREL ou VCI”

    Há também os “nós”: “Aveiro Norte”, “Viseu Sul”, “Abrantes Oeste”, e assim por diante. Uma pessoa vai na auto-estrada, vê que se aproxima de “Viseu Sul” e não sabe se há-de sair ali ou em qualquer outro lado. Nomes que não servem para nada, a não ser para quem já sabe tudo. O costume nas nossas estradas, aliás.

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