Mudança de fuso

O Nuno arranjou um emprego novo e eu mudei de fuso horário neste estaminé: passo a escrever às sextas. Sucede que, para efeitos de publicação na terça-feira passada, eu tinha preparado umas glosas a três notícias então recentes, e que agora estão velhas de uma semana (o que me faz lembrar a primeira vez que fui a Roma, tinha quinze ou dezasseis anos e fiquei num albergue da juventude que tinha um restaurante que se dividia em dois, tavola calda e tavola freda, com a tradução inglesa por baixo: hot food and cold food, sendo que o cê de cold tinha caído e eu apanhei na bicha dos tabuleiros um imbecil de um americano que julgava que aquela era a bicha da old food – e se calhar não se enganava, mas isso eram as duas); seja: eu publico-as na mesma, “por pura inactualidade” – até porque quem quer saber notícias não precisa de vir aos blogues.

O estranho caso das qualificações académicas do Senhor Primeiro-Ministro merece três comentários:

– primeiro, e a propósito do facto de o “Público” de 22 de Março lhe ter dedicado quatro-páginas-quatro e não obstante não lhe ter dado a manchete e tê-lo referido antes, meio envergonhado, num canto da capa e em apenas meia-dúzia de linhas, ao que se junta uma “nota da Direcção Editorial” a justificar aquilo que em lado nenhum do mundo civilizado precisaria de justificação, só apetece dizer que, em Portugal, o respeitinho ainda é muito bonito;

– segundo, que a nota do Primeiro-Ministro ao mesmo jornal (sorry, não há links porque é o “Público”), para mais escrita na primeira pessoa, é não só espantosa em si mesma como absolutamente inimaginável em qualquer um dos países do Norte da Europa que o mesmo Primeiro-Ministro tanto gosta de apresentar como referência;

– terceiro, que a complicada história de um bacharelato num Politécnico que dá acesso ao ISEL, onde alguém que está na política activa faz dez cadeiras num só ano lectivo, para depois pedir equivalências para a Universidade Independente e obter aí algo acidentadamente (to say the least) uma licenciatura em Engenharia que nem reconhecida é pela Ordem dos Engenheiros, pode até ser legalíssima – mas isso, evidentemente, não é tudo.

O não menos estranho caso da juíza alemã que acha que na Alemanha as mulheres muçulmanas podem ipso facto levar pancada dos maridos, que também é de sexta-feira passada (e é contado pela BBC aqui), ilustra bem quão ténue é a linha que separa o mais bem-intencionado dos multiculturalismos do mais desprezível dos racismos.

Enfim, merece também reparo a notícia publicada pelo “DN” na mesma sexta-feira de que a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, reagindo a uma outra notícia da véspera segundo a qual o padre de Santa Comba Dão se orgulhava de andar “no picanço” (sic) na A25, terá pedido ao Papa Bento XVI, à Conferência Episcopal e ao Arcebispo de Viseu para ajudarem aquele sacerdote a “exorcizar o seu desmedido prazer pela velocidade”. 

E é tudo – para a semana há mais.

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Mudança de fuso

  1. nuno diz:

    Queria apenas dizer que a Ordem dos Engenheiros não reconhece, antes acredita cursos. E que o único efeito desta acreditação é o facto de um licenciado em engenharia que queira inscrever-se na Ordem ficar dispensado de provas de admissão caso venha graduado com uma licenciatura acreditada. Há várias licenciaturas em engenheria não acreditadas pela Ordem, mesmo em instituições públicas e isso não significa sempre que a licenciatura visada não tenha qualidade científica.

  2. João diz:

    Alguém me explica porque é que na nomeação do nosso primeiro o mesmo aparecer referido como ENGENHEIRO.

    À mulher de César….

  3. ni diz:

    Uma pequena nota. O postante precisa de entender a arquitectura do ensino superior português e tem o defeito de olhar para o resto do país como se fosse paisagem. José Sócrates não fez um curso num politécnico que lhe deu acesso ao ISEL. Como se sabe, no tempo de Sócrates estudante só estudante (na década de 80), os politécnicos davam cursos de bacharelato. Para a formação em engenharia, havia inicialmente três Institutos Superiores de Engenharia: no Porto (ISEP), em Coimbra (ISEC, onde o Sócrates andou e onde se formou) e em Lisboa (ISEL). Mais tarde surgiram outros (alguns designados como Escolas Superiores de Tecnologia ou outros nomes criativos) espalhados um pouco por todo o país
    Destes cursos com formação em engenharia saía-se como engenheiro técnico ao fim de três anos (são os cursos que sucederam aos agentes técnicos de engenharia, que no entanto não tinham formação superior). E foi do ISEC que Sócrates saiu, do ISEL de Coimbra se assim se quiser dizer. Tal como acontece nas universidades (que são agrupamentos de faculdades de vária áreas do saber. Na Universidade de Lisboa há as faculdades de medicina, de direito de letras, de ciências, etc.) todas estas escolas, não universitárias, estão agrupadas dentro de uma entidade maior que se chama Instituto Politécnico. Sócrates não saiu de um politécnico qualquer, saiu do Instituto Politécnico de Coimbra, a que pertencem também a Escola Superior Agrária, A Escola Superior de Educação ou O Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra (o ISCAL lá do sítio). O ISEL faz parte do Instituto Politécnico de Lisboa onde se agrupam também e por exemplo a Escola Superior de Comunicação Social e a EScola Superior de Dança.
    Entretanto, salvo erro já na década de 90, os politécnicos resolveram crescer e passaram a oferecer também licenciaturas. E os alunos passaram a fazer licenciaturas bi-etápicas. Primeiro tiravam um bacharelato e depois tiravam mais dois anos de estudos e ficam licenciados. Foi o que Sócrates fez. Na década de 80 fez um bacharelato em engenharia civil no politécnico de coimbra e em 90 iniciou os estudos de licenciatura no politécnico de lisboa. simples.

    os politécnicos de antes de antes do processo de Bolonha

  4. antónio frazão diz:

    Escreva-se “exorcizar” e não “exorcisar”. Alguns cursos de jornalismo também deviam ser “reconhecidos” ou “acreditados” por uma “Ordem dos Jornalistas”…

  5. António Figueira diz:

    O jornalista não tem culpa, o lapso é meu (ou foi, porque vou corrigi-lo) e a ordem dos blogueiros ainda não foi inventada, para sorte minha.

  6. O mais interessante neste processo é a questão das Ordens. Ao intitular-se “engenheiro”, o Sócrates estava a desafiar a ordem. Para esta ele é só “licenciado em engenharia”.
    Eu nunca estudei jornalismo, mas já exerci a função de jornalista, num papel que muito poucos jornalistas teriam podido fazer. Mas se houvesse uma “ordem dos jornalistas”, tal nunca me teria sido permitido. Exorcizemos as ordens e os Antónios Frazões.

  7. Em vez de “exorcizemos os Antónios Frazões”, deveri ter escrito “exorcizemos os corporativistas”. O António Frazão parece-me um deles.

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