A televisão de Pilatos

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[Texto recebido do André Belo]

Haverá várias razões concretas — não metafísicas nem eduardolourencianas — para explicar a vitória de Salazar no programa “Os Grandes Portugueses”. Vejo, para já, quatro: 1) a RTP e o formato que deu ao programa; 2) o sistema de votação, por telefone; 3) a forma como, depois do 25 de Abril, o regime democrático não foi capaz de fazer um trabalho cultural, de ensino e de memória sobre a ditadura; 4) um eventual aumento recente da nostalgia por Salazar. Vou falar aqui daquele que me choca mais e cuja responsabilização me parece mais urgente para reflexão: o papel da RTP.
Em toda esta história, uma telenovela que dura desde Outubro passado, a RTP portou-se como Pilatos: subordinou totalmente os seus critérios editoriais às audiências e abriu a porta ao que é provavelmente o maior exemplo de abuso mediático (não apenas político) da história portuguesa recente. E isto aconteceu no principal canal da televisão pública e no momento em que celebra os seus 50 anos.
O que a RTP fez foi o seguinte: desresponsabilizou-se totalmente de qualquer decisão editoral, jornalística, sobre o conteúdo do programa, permitindo que existisse, desde o início, uma fundamental ambiguidade entre “grandeza” no sentido moral (os portugueses que são “grandes” porque são dignos de exemplo e de imitação para o presente) e a “grandeza” no sentido da importância histórica das personalidades a concurso. Havia duas hipóteses de formato que, se definidas claramente, teriam afastado a maior parte dos problemas éticos que se punham ao programa. A televisão portuguesa podia ter escolhido, muito legitimamente, a primeira opção, a da avaliação da “grandeza” moral. Aí, Salazar, tinha muito pouca margem para entrar, e nenhuma para ganhar (Aristides Sousa Mendes, encarnando o “Justo”, seria provavelmente o mais forte candidato à vitória). E podia, também muito legitimamente, ter escolhido fazer um programa em que se avaliasse a influência histórica das grandes figuras — e em que o julgamento moral fosse, tanto quanto possível, evitado. E aqui Salazar tinha margem para entrar. No entanto, para ser sério, o programa deveria neste caso subordinar-se muito mais ao critério dos historiadores e especialistas (o que faria parte da missão informativa da RTP, mas impossibilitaria o formato telenovelesco do”espectador que decide o fim da intriga”. E seria, claro, aborrecidíssimo e catastrófico para as audiências).
Como Pilatos, a RTP não quis escolher entre uma e outra, e preferiu uma terceira via: alimentar a ambiguidade entre o julgamento moral e o protagonismo histórico. A ambiguidade que está (mal) escondida por trás da palavra “Grande”. Nestes termos: “Pode-se discordar ou não de Salazar, mas não da sua importância, da sua força, da sua influência, da sua grandeza”. Foi por estes sentidos contíguos, não inocentes, das palavras associadas à “grandeza”, que o ditador entrou — e com ele os seus defensores, que assim puderam esconder a sua aprovação moral do ditador por trás de um julgamento histórico aparentemente objectivo. Foi por esta porta — que vários comentadores ajudaram a escancarar ao denunciarem a ausência de Salazar da lista inicial do programa — que o ditador ganhou protagonismo. Vêm também daqui, no meu entender, todos os outros piores defeitos do programa: o anacronismo mais desbragado, alimentado por amadores e curiosos de “história” sem a menor competência, mas também, infelizmente, por alguns historiadores que participaram no programa; e a extrema simplificação da imagem do passado que a estrutura de tribunal (os “advogados de defesa”) veio agravar.
A RTP sabia, os intelectuais mediáticos sabiam, todos os que vimos e ouvimos falar do programa nos apercebemos nalgum momento, consciente ou inconscientemente, desta ambiguidade. E a RTP usou-a deliberadamente, em nome das audiências, esquivando-se a todas as críticas que lhe foram feitas, dizendo que se tratava de mero “entretenimento” (lembro que estamos a falar da mesma televisão que, em 1988, decidiu censurar um programa de humor de Herman José, esse sim de entretenimento sem ambiguidades, por causa das entrevistas ficcionais com “grandes” figuras da história portuguesa).
Penso, portanto, ao contrário do que afirma Pacheco Pereira num depoimento a Adelino Gomes no Público
de terça-feira, que a exclusão Salazar da lista inicial não foi um erro, mas um sintoma. Essa exclusão traiu, em certa medida, um complexo de culpa dos responsáveis do programa. Não um complexo censório da TV do regime democrático em relação à figura de Salazar como defendeu na altura pressurosamente o mesmo Pacheco Pereira, que chegou ao ponto de dizer que “a democracia ainda lida mal com a figura de Salazar”, enquanto nós, ingénuos coitados, vivíamos na ilusão de que foi Salazar quem sempre lidou mal com a figura da democracia), mas um complexo de culpa, mal disfarçado e logo emendado, em relação ao que era evidente que o programa prometia desde o início: um total e descarado lavar de mãos da parte da RTP em relação às implicações éticas e políticas da utilização da história portuguesa e dos mitos nacionais num concurso em que o espectador é que decide.

André Belo

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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