Rui Tavares: A sociedade de castas

Autor: Rui Tavares

 (Público, 26 Março)

A casta administradora não está sujeita às mesmas regras dos comuns dos mortais: nem regras salariais, nem de aposentadoria, nem de responsabilização, nem de democracia.

Este fim-de-semana alguns jornais fizeram as primeiras páginas com os salários auferidos por autarcas portugueses nas empresas municipais onde detêm cargos, salários esses que vão do escandaloso ao ilegal e, na maior parte dos casos, ao puramente inútil. Se Carmona Rodrigues desempenha melhor o seu cargo por ganhar quatro mil euros suplementares numa empresa municipal, imaginem (se conseguirem) quão pior Presidente da Câmara ele poderia ainda ser.

Isto não é nada.

Além dos autarcas, estas empresas acumulam funcionários de topo desnecessários e dispendiosos, muitas vezes oriundos das clientelas partidárias ou pessoais, que vivem no melhor de dois mundos, sob regras do público ou do privado conforme a conveniência. Não têm de viver anos consecutivos com aumentos de meio por cento nem de ser considerados culpados pela falta de produtividade e o estado geral “a que isto chegou”. Há os salários, é claro: mas há também uma série de outros pequenos luxos quotidianos, dos carros com motorista aos cartões de crédito, que tornam a vida mais agradável.

Chegado a este ponto, o passo seguinte consistiria em atribuir tudo ao provincianismo português. Porém, não me apetece. Não só o provincianismo português têm costas mais largas do que as do Adamastor como é, em si mesmo, uma desculpa tremendamente provinciana.

Ora isto é mais vasto do que as empresas locais ou nacionais, públicas ou privadas, portuguesas ou estrangeiras. Numa escala inteiramente diferente, consideremos a americana Home Depot, onde o trabalhador comum ganha talvez oito dólares por hora e vê ser espremido até ao último cêntimo tudo o que se gasta com as suas condições de trabalho, desde os seguros de saúde aos horários de descanso. Recentemente, a empresa mandou embora o seu presidente com uma indemnização de 210 milhões de dólares, mais do que um triplo jackpot no euromilhões, o que quer dizer que o homem era brilhante ou fez um grande trabalho, certo? Errado: na verdade, afundou as acções da empresa enquanto esteve no cargo.

Muito resumidamente, há duas coisas que este panorama sugere.

A primeira é que o capitalismo, depois de algumas décadas de universalização de direitos, se está a aproximar de uma sociedade por castas. Basta ver que a casta administradora, com as suas ramificações, não está sujeita às mesmas regras dos comuns dos mortais: nem regras salariais, nem de aposentadoria, nem de responsabilização, nem de democracia, nem sequer (em alguns países) de cuidados de saúde. As regras são diferentes na base e no topo: por isso é preciso congelar o salário de uns e fazer o que for preciso para motivar os outros.

A segunda é que esta transformação é consensual, como aliás se verifica sempre. Os cidadãos comuns podem não gostar dos resultados, mas não têm maneira de contestar os pressupostos: que é preciso gerir o estado como uma empresa (o que justifica as empresas municipais), que já não há dinheiro para manter os direitos sociais, que tudo isto se passa por causa de leis frias e incontroláveis como as da natureza. E quando qualquer destes lugares-comuns falha, os cidadãos sustentam-se pela ilusão de que talvez também possam chegar ao topo, embora seja muito maior a probabilidade de qualquer um cair na pobreza sem qualquer protecção.

O Padre António Vieira lembrou no seu mais famoso sermão que basta um peixe grande para alimentar muitos pequenos, ao passo que são precisos muitos pequenos para alimentar um grande. Apesar do cuidado posto na metáfora, não surpreende ninguém que tenha tido de fugir de São Luís do Maranhão no primeiro barco disponível. O que surpreende mais é pensar que, provavelmente, nem os pequenos gostaram de o ouvir.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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2 respostas a Rui Tavares: A sociedade de castas

  1. kane diz:

    “A primeira é que o capitalismo, depois de algumas décadas de universalização de direitos, se está a aproximar de uma sociedade por castas”

    Penso que um dos pilares deste modelo se está a inspirar naquele de outra sociedade de má memória, onde a relação entre a Nomenklatura e os meios de produção correspondia exactamente ao conceito de relação de propriedade.

  2. João diz:

    E perante esta sociedade o que fazer?
    Que respostas?
    Que saídas para os famintos?
    Que respostas para os promotores da gula?

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