Rui Tavares: Guerra 2.0

Espero que a Joana não tenha ainda postado este. Se isso tiver acontecido, lembrem-se que os textos do Rui são muito bons e devem ser lidos duas vezes.

Começo com algumas perguntas. Têm visto ultimamente algum filósofo chocar contra paredes por negar que as portas sejam uma Verdade Absoluta? Ouviram aquela do intelectual pós-moderno que traficava armas para Osama bin Laden? Não sabem que o Ocidente está em perigo de ser invadido e subjugado por causa das pessoas que frequentam as universidades?

Se não sabem nada disto é porque não ouviram aqui há uns anos os nossos neoconservadores. Mas não se preocupem, daqui a uns tempos vão voltar a ouvir.

Em primeiro lugar, vão ouvir que o “relativismo” é uma filosofia que nega a existência da realidade, ou que nega a existência da verdade, ou que acha que há muitas verdades e que todas valem o mesmo. Parece uma coisa de alguma exigência filosófica, e é. Não parece vir muito bem explicada nos nossos debates – e não vem. Mas aparentemente a nossa sociedade está cheia de relativistas e esse simples facto coloca em risco as nossas vidas. Não me perguntem como. Vocês precisam apenas de saber que têm só duas hipóteses: uma delas é idiota e incoerente (porque eu vos digo) e a outra é acreditar que há Verdade Absoluta, e que apenas eu sei qual é.

A segunda ideia que vão voltar a ouvir já andava a fermentar desde os anos oitenta, mas surgiu bizarramente formada logo a seguir ao atentado das torres gémeas, a 11 de Setembro de 2001. Basicamente, trata-se da teoria de que a culpa do terrorismo é de uma coisa chamada “pós-modernismo”, que é uma vaga corrente artística, literária e filosófica. A relação entre as duas coisa é ainda mais vaga, tão vaga que acho que nem conta como uma explicação pós- modernista para o pós-modernismo. Qualquer candidato a crítico reconhecerá que os atentados têm um estilo destrutivo mas pouco desconstruccionista. Entra então em cena uma explicação mais elaborada que diz o seguinte: o pós-modernismo tem a culpa na medida em que amoleceu os ocidentais e portanto facilitou os ataques. Talvez a CIA e o FBI tenham perdido demasiado tempo na Zé dos Bois, ao Bairro Alto, tentando interagir com as instalações+performance de jovens artistas contemporâneos?

A terceira ideia é a de que o Ocidente está prestes a ser invadido por uma horda de fanáticos que “detesta as nossas liberdades”, nas palavras imortais de George W. Bush. Os fundamentalistas querem proibir-nos as bebidas alcoólicas, tapar-nos as mulheres com burkas e apedrejar os homossexuais (registe-se a súbita preocupação com o direito dos homossexuais a não serem apedrejados). Ninguém duvida de que gostariam muito de fazê-lo, se pudessem. Agora vale a pena perguntar o seguinte: se assim é, porquê tanta preocupação com relativistas, pós-modernistas, intelectuais de esquerda e outros espécimes sortidos. Não terá chegado o ponto em que o inimigo é menos aquele que detesta as nossas liberdades e mais aquele que as exerce, nomeadamente a liberdade de não estar de acordo com a estratégia neoconservadora?

[E reparem bem que deixámos de lado a questão de como vão conseguir alguns milhares de fanáticos barbudos — sem exército regular — invadir, subjugar e ocupar o Ocidente, uma coisa manifestamente mais difícil do que lançar pontualmente o pânico, a destruição e a morte. Mas estas coisas não precisam de ser verosímeis]

Enfim. Em breve haverá ocasião de relembrar tudo isto, porque vem aí uma reedição dos primeiros anos da guerra do Iraque. A guerra do Iraque está velha, já chateia. Ainda por cima foi um fracasso. Agora que Bush está a chegar ao fim do seu mandato e os neoconservadores estão em plano inclinado, ninguém quer sair de cena sem poder sentir de novo o gostinho da Guerra. Essa guerra terá de ser contra o Irão, que é um osso ainda mais duro de roer. Mas a Guerra é uma droga pesada. Faz-nos sentir os maiores, os mais belos, os mais corajosos e os mais valentes, tudo isto sem sair de frente do teclado. Quem lhe pode resistir?

Muita gente resiste, na verdade. Muita gente hesita. A Guerra não é uma coisa agradável: há tripas de jovens de 20 anos que rebentam para cima dos uniformes dos seus melhores amigos. E mesmo do lado de lá, há muito mais gente que morre, embora não pareça entrar muito nas contas. De qualquer forma, para que alguns voltem a ter aquela emoção inesquecível de uma guerra novinha em folha é preciso convencer a todos os restantes de que não há outro caminho. É então por isso que há um momento em que os piores inimigos não são os inimigos de fora mas os inimigos de dentro. Os inimigos de fora não são o problema: não só são absolutamente necessários para que possamos ter uma guerra como, por vezes, querem tanto a guerra como nós. Piores são aqueles que, dentro de casa, duvidam dos argumentos da guerra. Esses só atrapalham.

Por estas razões, a guerra real tem de ser precedida por uma guerra cultural. E essa guerra cultural para preparar a próxima guerra já começou e vai ganhar velocidade nos próximos meses. A culpa da guerra não pode ser daqueles que querem a guerra. Tem de ser daqueles que se opuseram à guerra. Nada que surpreenda, aliás: a seguir à Guerra do Vietname surgiu a teoria de que a culpa do desastre era dos pacifistas, e agora que temos o desastre do Iraque a culpa é naturalmente dos pacifistas. Para se poder entrar numa nova guerra, é preciso também culpar os pacifistas pela última. E não se esqueçam de que ouviremos isto tudo também em Portugal. Aliás, já estamos a ouvir: num artigo recente no Público, Esther Mucznik acusava os europeus de terem como “principal credo” o “pacifismo a qualquer preço”. Pensem bem: o “pacifismo a qualquer preço”. É uma expressão interessante para quem tenta vender-nos uma terceira guerra (com o Irão) depois de outras duas (Afeganistão e Iraque) que não estão a correr lá muito bem. Pensando bem, há cinco anos que estamos em guerras sucessivas. Deve ser por isso que o “pacifismo a qualquer preço” é um risco tão grande.

Podem então contar com um aumento da animosidade contra todos aqueles caretas que quiserem impedir-nos de voltar a sentir a excitação de uma nova guerra a percorrer-nos as veias como um xuto de heroína. Durante o próximo ano, os inimigos serão todos aqueles que não esqueceram as guerras anteriores. Todos os que se meterem no caminho. Todos os que não concordam com os planos.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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