Filipe Moura: um debate à portuguesa concerteza

Tive o prazer de participar no debate da semana passada sobre os quatro anos da Guerra do Iraque, com a participação de dois membros residentes do Cinco Dias. No balanço, nota-se bem que aquele foi um debate “à portuguesa”, sem um grande confronto, onde todos procuravam estar de acordo. Numa coisa foi um debate diferente: foi permitida a participação da audiência, através de inscrições, algo muito pouco usual em Portugal.

Só que tal oportunidade foi utilizada, sobretudo, pelos suspeitos do costume, mais habituados e mais rápidos a pedirem a palavra. Foi assim que assistimos ainda a intervenções/comício de Vasco Lourenço, Garcia Pereira e Mário Tomé, entre outros. E foi assim que nos pudemos aperceber de que estes senhores não mudaram nada na forma de verem o mundo desde há trinta anos para cá.

Ainda consegui intervir, já perto do fim, para manifestar o meu pessimismo com a situação actual da União Europeia e o “erro colossal” que constituiu o chumbo da Constituição pela esquerda, na sequência da preocupação de Freitas do Amaral com a falta de espírito europeu dos países de leste, que estão mais interessados em se aliarem aos EUA e só contam com a Europa para receberem subsídios. Tivesse eu um pouco mais de tempo e talvez tivesse conseguido pôr os senhores da mesa todos uns contra os outros (ou pelo menos, por razões diferentes, todos contra mim). Ocasiões para isso não faltavam, desde o papel da Europa no mundo e a sua política de defesa à questão iraquiana: até que ponto o Irão e o seu presidente constituem uma ameaça? Até onde eles poderão chegar? E até onde os poderemos deixar chegar? Estes temas mal foram abordados no debate, e por si só dariam um outro debate muito interessante e certamente sem consensos entre os membros da mesa.

Novidade (pelo menos para mim) foi ouvir alguém particularmente autorizado na matéria (Freitas do Amaral) denunciar a falta de espírito europeu e de cooperação por parte dos estados membros da Europa de Leste, nomeadamente a Polónia e a República Checa, que só parecem contar com a União Europeia para receber subsídios: em tudo o que tenha a ver com política externa, só contam com os Estados Unidos, e a estes nunca se oporão. É aqui que vale a pena parar para pensar e perguntar: não estaremos a andar depressa demais? Não teremos alargado a União de qualquer maneira, sem nos certificarmos de que os novos membros querem fazer parte de um projecto europeu?

Filipe Moura

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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9 respostas a Filipe Moura: um debate à portuguesa concerteza

  1. LR diz:

    Belo debate deve ter sido esse, com os intervenientes todos em coro a trautear a mesma velha cançoneta…
    Menos tu, claro: falaste para perorar sobre a «União Europeia e o “erro colossal” que constituiu o chumbo da Constituição pela esquerda»? Mas o tema não era o Iraque?

  2. A primeira frase do teu comentário está correctíssima até uma certa parte do debate. Depois para variar um pouco o Freitas falou do papel da Europa no mundo, e descambou para este tema.

  3. LR diz:

    Para a próxima, proponho um debate sobre o catolicismo em Portugal. Participantes: frei Bento Domingues, Cardeal José Policarpo, Bagão Félix, o fantasma da irmã Lúcia.
    É capaz de ser quase tão variado quanto esse.

  4. irrelevante, pode ser edite estrela diz:

    escreve-se, de certeza, com certeza; a má ortografia, em letras garrafais, que se tornou de repente tão comum, agride, não lhe parece? o esforço de ler em todo o caso, apesar do erro, conhece?

  5. Caríssimos,

    Sem quaisquer pretensões, palavra, e por isso espero que não levem a mal. Pode acontecer a qualquer um e só não acontece a quem não escreve. No título deste post está um erro ortográfico muito comum. Com efeito, “concerteza” não existe. Correctamente, escreve-se “com certeza”. Trata-se de uma locução adverbial que, como tal, tem o valor de uma só palavra (advérbio). Penso que a tendência para unir as duas palavras terá surgido precisamente por este motivo, o que tornou o erro tão frequente.
    Espero que nenhum dos “5” fique melindrado, bem como o Filipe Moura, cujo texto muito apreciei. Não é minha intenção corrigir ninguém, apenas alertar. Até porque a minha autoridade na matéria não é nenhuma: sou mera aprendiz de quem me queira ensinar.

  6. Varanda diz:

    “Com certeza” é que devia estar no título.

  7. Pois… esse “concerteza” no título não foi assim escrito por mim. Ó Nuno, confranqueza…

  8. A gaffe cuja responsabilidade é minha – e essa parece que ninguém notou – é “questão iraquiana”, que deveria ser (percebe-se pelo contexto) “questão iraniana”.

  9. Caro Filipe,
    Folgo em saber que reagiu ao meu comentário com humor. O seu “confranqueza” está muitíssimo bem apanhado e é uma inteligentíssima piada de contexto. 🙂
    Quanto à sua gaffe, confesso que me escapou. Mas é natural que na leitura corrida dos blogues um pormenor desses, que ainda por cima se deduz do contexto, passe despercebido. O do título estava em letras gordas, por isso me chamou à atenção…

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