Rui Tavares: Sim, deixem guiar o Mantorras

Autor: RUI TAVARES

(Público, 20 de Março)

Pode dizer-se que ter esquecido os muitos portugueses que vivem e  conduzem em Angola foi um tiro no pé. Na verdade, esse já foi o tiro  no segundo pé.

Conclusão: tudo é tão mais fácil quando os outros não podem retaliar!

Na abertura do Telejornal de sexta-feira o pivot parecia alarmado.  “De um dia para o outro”, senhores telespectadores, os angolanos  começaram a confiscar cartas de condução a cidadãos portugueses,  chegando mesmo a levá-los a tribunal. No Público do mesmo dia  escrevia-se que havia um clima de “caça ao português” nas estradas de  Luanda, “dada a frequência com que são mandados parar carros em que  seguem brancos”. No seu texto de ontem, Helena Matos já acrescentava  toda a história do colonialismo, das “bailarinas de mamas à mostra”  até às “expropriações de terras ordenadas por Mugabe”.

Menos energia, minha gente. Só aqui entre nós: os angolanos não  começaram “de uma dia para o outro” a confiscar cartas de condução  portuguesas. Pelo contrário, fomos nós que de 31 de Dezembro para 1  de Janeiro passado começámos a confiscar cartas angolanas. E sabem  que mais? Ainda estamos a ganhar. Em poucas semanas, segundo as  autoridades, foram apreendidas dezenas de cartas angolanas e os seus  detentores levados a tribunal. Como estamos em Portugal, tudo isto  aconteceu sem haver “caça ao angolano”, até porque os nossos polícias  não têm qualquer apetência por mandar parar carros em que seguem  negros. Foi mera eficácia. O que nos leva à minha conclusão: tudo seria mais fácil se os outros  não pudessem retaliar. Como podem, o governo já disse que a solução é  voltar a aceitar as cartas de condução angolanas enquanto se inventa  uma solução burocrática e dispendiosa para salvar a face. Pode dizer-se que ter esquecido os muitos portugueses que vivem e  conduzem em Angola foi um tiro no pé. Na verdade, esse já foi o tiro  no segundo pé. O tiro no primeiro pé foi a ideia absurda de invalidar  as cartas de condução de todos os países afro-lusófonos. De uma  penada, milhares de residentes caboverdianos, guineenses, etc. –  população em idade activa – passaram a estar ilegais nas estradas  portuguesas. E que ganhamos nós com isso? É bom para a economia? É  bom para a sociedade? É bom para a “integração”? É sequer bom para a  segurança rodoviária?Já agora: tudo isto tem pouco a ver com a Convenção de Viena sobre  Tráfego Rodoviário. Mesmo os cidadãos de países co-signatários não  têm os seus títulos de condução automaticamente reconhecidos em  Portugal. Um turista brasileiro pode conduzir em Portugal com a sua  carta. Um residente brasileiro, que aqui trabalha e paga os seus  impostos, não pode. Isto tem a ver com sobranceria no trato dos  estrangeiros e uma desconfiança burocrática permanente, que traduz um  país desconfiado e medroso.

No caso português, é pior: traduz um país pequenino e mesquinho,  preso numa esquizofrenia ridícula. Cavaco Silva visita uma escola  luxemburguesa onde os lusodescendentes têm aulas em português: que  história de sucesso, etc. Em Portugal alguém sugere aulas de língua  materna aos filhos de imigrantes: que absurdo politicamente correcto,  etc. Para os nossos filhos lá fora, é uma ideia excelente. Para os  filhos dos outros cá dentro, é um perfeito disparate.

Não se trata sequer de sermos um país de imigrantes e emigrantes, o  que supostamente nos deveria dar alguma capacidade para ver os dois  lados da questão. O que se passa é que, como o caso angolano  demonstra, já não há países que sejam apenas de acolhimento. Temos cá  milhares de angolanos, eles têm lá milhares de portugueses. Vêm  brasileiros trabalhar para cá, portugueses aposentados compram casas  lá. A China envia e recebe migrantes, a Índia também.

Por uma vez, pensem fora da casca. E sim, deixem guiar o Mantorras. 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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5 respostas a Rui Tavares: Sim, deixem guiar o Mantorras

  1. pedro oliveira diz:

    Sobre este assunto (e não só) ler um excelente post no:
    http://controversamaresia.blogspot.com/

    Pedro oliveira
    http://vilaforte.blog.com/

  2. A helena matos no público de hoje demonstra bem que a história da reciprocidade é uma estupidez.

  3. Rui, só duas questões.
    Quem paga as aulas de português aos portugueses do Luxemburgo?
    O projecto que apareceu, tanto quanto eu percebi, não era de “aulas de língua materna” aos filhos de imigrantes (o que me parece aceitável): era de aulas “em” língua materna, o que é bem diferente.
    Quanto às cartas de condução, creio que deve prevalecer a Convenção de Viena sobre Tráfego Rodoviário. Não podemos fazer tábua-rasa dela. A solução está em pressionar os outros países a aderirem a essa convenção, e não sermos nós a furá-la. Já basta os maus exemplos de condução que damos!
    Abraços,
    Filipe.

  4. espumante diz:

    É extraordinário como se consegue escrever um post deste tamanho e não se fazer a mínima ideia do que se está a dizer. Ou fazer e conseguir chegar ao fim sem se rir. Sobretudo no que concerne as cartas de conduçao angolanas e portuguesas. Simplesmente extraordinário… e digo sobretudo as cartas porque o resto é a vulgata do costume.

  5. Airness diz:

    Pois, realmente este post é um autêntico disparate! A comparação entre as cartas de condução portuguesas e angolanas é de uma irresponsabilidade impressionante. Basta perguntar a algum português que trabalha em Luanda, o verdadeiro motivo pela apreensão das cartas de condução!! Corrupção pura e simples… mas qual convenção de Viena! Francamente…

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