Rui Tavares: Sim, deixem guiar o Mantorras
21 de Março de 2007 por Joana Amaral DiasAutor: RUI TAVARES
(Público, 20 de Março)
Pode dizer-se que ter esquecido os muitos portugueses que vivem e conduzem em Angola foi um tiro no pé. Na verdade, esse já foi o tiro no segundo pé.
Conclusão: tudo é tão mais fácil quando os outros não podem retaliar!
Na abertura do Telejornal de sexta-feira o pivot parecia alarmado. “De um dia para o outro”, senhores telespectadores, os angolanos começaram a confiscar cartas de condução a cidadãos portugueses, chegando mesmo a levá-los a tribunal. No Público do mesmo dia escrevia-se que havia um clima de “caça ao português” nas estradas de Luanda, “dada a frequência com que são mandados parar carros em que seguem brancos”. No seu texto de ontem, Helena Matos já acrescentava toda a história do colonialismo, das “bailarinas de mamas à mostra” até às “expropriações de terras ordenadas por Mugabe”.
Menos energia, minha gente. Só aqui entre nós: os angolanos não começaram “de uma dia para o outro” a confiscar cartas de condução portuguesas. Pelo contrário, fomos nós que de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro passado começámos a confiscar cartas angolanas. E sabem que mais? Ainda estamos a ganhar. Em poucas semanas, segundo as autoridades, foram apreendidas dezenas de cartas angolanas e os seus detentores levados a tribunal. Como estamos em Portugal, tudo isto aconteceu sem haver “caça ao angolano”, até porque os nossos polícias não têm qualquer apetência por mandar parar carros em que seguem negros. Foi mera eficácia. O que nos leva à minha conclusão: tudo seria mais fácil se os outros não pudessem retaliar. Como podem, o governo já disse que a solução é voltar a aceitar as cartas de condução angolanas enquanto se inventa uma solução burocrática e dispendiosa para salvar a face. Pode dizer-se que ter esquecido os muitos portugueses que vivem e conduzem em Angola foi um tiro no pé. Na verdade, esse já foi o tiro no segundo pé. O tiro no primeiro pé foi a ideia absurda de invalidar as cartas de condução de todos os países afro-lusófonos. De uma penada, milhares de residentes caboverdianos, guineenses, etc. – população em idade activa – passaram a estar ilegais nas estradas portuguesas. E que ganhamos nós com isso? É bom para a economia? É bom para a sociedade? É bom para a “integração”? É sequer bom para a segurança rodoviária?Já agora: tudo isto tem pouco a ver com a Convenção de Viena sobre Tráfego Rodoviário. Mesmo os cidadãos de países co-signatários não têm os seus títulos de condução automaticamente reconhecidos em Portugal. Um turista brasileiro pode conduzir em Portugal com a sua carta. Um residente brasileiro, que aqui trabalha e paga os seus impostos, não pode. Isto tem a ver com sobranceria no trato dos estrangeiros e uma desconfiança burocrática permanente, que traduz um país desconfiado e medroso.
No caso português, é pior: traduz um país pequenino e mesquinho, preso numa esquizofrenia ridícula. Cavaco Silva visita uma escola luxemburguesa onde os lusodescendentes têm aulas em português: que história de sucesso, etc. Em Portugal alguém sugere aulas de língua materna aos filhos de imigrantes: que absurdo politicamente correcto, etc. Para os nossos filhos lá fora, é uma ideia excelente. Para os filhos dos outros cá dentro, é um perfeito disparate.
Não se trata sequer de sermos um país de imigrantes e emigrantes, o que supostamente nos deveria dar alguma capacidade para ver os dois lados da questão. O que se passa é que, como o caso angolano demonstra, já não há países que sejam apenas de acolhimento. Temos cá milhares de angolanos, eles têm lá milhares de portugueses. Vêm brasileiros trabalhar para cá, portugueses aposentados compram casas lá. A China envia e recebe migrantes, a Índia também.
Por uma vez, pensem fora da casca. E sim, deixem guiar o Mantorras.
tags: Angola, Imigrantes, Mantorras

Comentário de pedro oliveira
Data: 21 de Março de 2007, 14:40
Sobre este assunto (e não só) ler um excelente post no:
http://controversamaresia.blogspot.com/
Pedro oliveira
http://vilaforte.blog.com/