(Mais) Uma inutilidade literária

A senhora Merkel incarna o melhor e o pior do génio alemão: a tenacidade e a curteza de vistas: como os Bourbons na famosa frase de Talleyrand, parece que não se esquece de nada porque também nunca aprendeu nada. Fiel a uma agenda federalista totalmente anacrónica, quis aproveitar primeiro a Presidência do seu país para relançar uma Constituição europeia de que mais ninguém (ou quase) quer ouvir falar. Agora, lembrou-se de repescar uma ideia digna do pior da era Delors: um livro de história único para as criancinhas de toda a União. A coisa tresanda a “engenharia cultural” e obriga-me, por uma vez, a dar razão a Luciano Amaral.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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7 respostas a (Mais) Uma inutilidade literária

  1. Ezequiel diz:

    Caro António

    Felizmente não sucumbiste à tentação do multiculturalismo.

    Cumps,

  2. semoncho diz:

    Concordo no tema da Constituição, mas discordo no tema do livro. Deveria haver não só um livro, senão uma enciclopédia inteira de história da Europa, escrita por historiadores/as de todos os países da União, e de algum de fora, que ao confrontarem os seus pontos de vista, veriam-se obrigados a deixar fora os múltiplos mitos nacionais e contar a(s) história(s) das gentes da Europa. Se calhar não é possível eliminar totalmente os mitos nacionais, mas com certeza teriam muito menor presença.

  3. Luís Lavoura diz:

    Mas a wikipedia não é também única? E alguém desconfia dela por esse facto?

    Na Alemanha há dezasseis Estados, que têm autonomia educativa. Cada um desses Estados tem os seus próprios curicula, inclusivé de história. E têm naturalmente muitos manuais escolares em cada Estado, todos diferentes de um Estado para o outro. Neste contexto, um livro de história comum seria apenas MAIS UM livro de história. Nunca poderia ser um livro obrigatório, cmo no tempo de Salazar.

    E MAIS UM livro de história, ainda por cima com estas caraterísticas originais, só pode ser uma boa ideia.

  4. Penso que existe um livro de história comum a Alemães e Franceses que já é usado nas escolas dos dois países; faz sentido: eles andaram em guerras durante séculos e só muito recentemente é que decidiram viver em paz.

    Mas um livro de história comum para toda a Europa, ainda não faz sentido. É melhor deixar passar algumas gerações.

  5. Eu não percebo qual é o problema, sinceramente. Não estamos a falar de Histórias nacionais; estamos a falar de História Universal que é, em grande parte, História da Europa. O “mesmo livro” não deve ter, mas deveria ter o mesmo programa. Parece-me que o problema está aí.
    O federalismo é a melhor solução para regionalismos e nacionalismos que por aí se vêem. Estou a gostar da sra. Merkel ao nível europeu, não fosse o querer reintroduzir referências religiosas na Constituição Europeia (que não morreu e há-de voltar).

  6. Luís Lavoura diz:

    Não vejo porque é que o federalismo é anacrónico no contexto da UE. Anacrónico, parece-me a mim, é o atual sistema de governo da União, em que os cidadãos são “representados” pelos seus governos. A União Europeia tem que avançar para deixar de ser um contrato entre Estados e passar a ser uma união de povos. A União Europeia já é muitíssimo mais do que um simples tratado comercial entre países, pelo que se impõe um sistema de governação comum que seja democrático. E tal sistema de governação será necessariamente de caráter federal.

  7. A sugestão de que o livro deveria ser “único” é sua – e talvez desse tal Amaral.

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