(Mais) um argumento contra a Ota

Até prova em contrário, estou convencido que os projectos da Ota e do TGV são erros trágicos. Num país com falta de tudo, vai-se gastar o que temos e o que não temos em obras faraónicas, de necessidade duvidosa e com alternativas evidentes. Vai-se aprofundar a nossa especialização económica na fileira do betão, e propiciar, pelo próprio gigantismo dos projectos, o tráfico de influências, o concubinato político-privado e o enriquecimento sem causa – numa palavra, a corrupção.  Sobretudo, vai-se optar pela cultura terceiro-mundista da facilidade, porque o que custa não é fazer obra, é mantê-la, como prova o facto de os sucessivos governos que não foram capazes de reformar o Estado nem de nos dar uma administração decente terem, em vez disso, sabido organizar a Expo 98 ou o Euro 2004, cujo impacto duradouro no progresso do país foi igual a zero. 

Mas há mais um argumento contra a Ota que me parece importante. O TGV vai encurtar o tempo da ligação Lisboa-Madrid, e permitir talvez à capital espanhola uma influência sobre Lisboa que o aumento vertiginoso das relações económicas luso-espanholas das últimas três décadas justifica, mas que nunca antes, em termos sociais e culturais, tinha exercido. Por outro lado, a Ota coloca todas as capitais europeias – incluindo aquelas que tradicionalmente os portugueses mais visitam, ou seja, Londres e Paris – a mais uma hora de distância de Lisboa. A conjugação destes dois factos, diga o que disser o iberista Mário Lino, só pode ser negativa para Portugal. 

Herculano não teve evidentemente razão quando julgou, há 150 anos, que a ligação por caminho-de-ferro a Espanha ia “desnacionalizar” o país, mas isso não implica que a dimensão estratégica nacional dos grandes projectos de obras públicas não deva ser tida em consideração, se necessário até contra a sua aparente racionalidade económica (o que aqui nem é o caso). Uma de duas: ou se acredita nas virtudes da existência do Estado-nação português ou não; se se acredita, é preciso tomar em conta o que é melhor para a sua sobrevivência e afirmação e decidir em conformidade, e não deixar simplesmente agir as regras de laissez-faire do mercado europeu – e ibérico.

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SEXTA | António Figueira
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9 respostas a (Mais) um argumento contra a Ota

  1. Caro A. Figueira,

    Não sei se a localização da OTA é a melhor opção para um novo aeroporto.
    Mas, sei que a Portela é um aeroporto perigoso, o próprio acidente de Sá Carneiro o demonstra. Também sei que a Portela é um aeroporto saturado, pouco eficaz e que transmite uma imagem abandalhada do país a quem chega (que por acaso é a imagem certa).
    Não sei, mas desconfio que o dinheiro que se perdeu, se perde e se perderá na Portela até 2020, é capaz de andar na ordem do custo de um novo aeroporto.

    Dito isto, vou comentar a seguinte frase:

    “a Ota coloca todas as capitais europeias – incluindo aquelas que tradicionalmente os portugueses mais visitam, ou seja, Londres e Paris – a mais uma hora de distância de Lisboa”

    Quando vou de Coimbra para o aeroporto, só na viagem entre a estação do Oriente e o aeroporto, perco frequentemente 45 min a uma hora, porque o magnífico transporte público que temos entre a referida estação e o aeroporto, é o autocarro 44, que tem horários aleatórios e para além disso foi pensado para servir Lisboa e não o aeroporto.
    Poderia também aqui falar sobre o facto de não existir nenhum comboio rápido ou intercidades vindo do norte que chegue a Lisboa antes das 9 da manhã. O que me faz sair de Coimbra por vezes 7 horas antes do voo, no autocarro das duas da manhã.

    Vim agora de Munique. O aeroporto de Munique fica a uma distância do centro da cidade comparável à da OTA ao centro de Lisboa. Do aeroporto de Munique o metro de superfície S8 demora ~38 min a chegar à Marienplatz, o centro de Munique. Julgo que a OTA será dotada de transportes ferroviários rápidos que ligarão o aeroporto ao centro de Lisboa. Existe algum transporte público com um horário fiável entre o Terreiro do Paço e a Portela que demore menos de 38 minutos? Não, nem nada que se pareça.

    O aeroporto de Lisboa serve a Região Centro (1,7 milhões de habitantes). Se a OTA for bem feita parece-me a mim que os habitantes do Centro vão ganhar muito mais que uma hora para chegar ao aeroporto.

    PS- Já agora qual é a “alternativa evidente” à rede de transporte ferroviário europeu, da qual o nosso projecto de TGV Lisboa-Madrid é apenas um pequeno ramal?

  2. salomé diz:

    Um novo aeroporto na Ota não só servirá Lisboa como o Algarve e a região centro do país, se houver boa articulação da rede de transportes. E a longo prazo todos vão ganhar com isso. Com um aeroporto maior passa a haver maior tráfego aéreo, os voos de entrada e de saída ficam inacreditavelmente mais baratos, Portugal deixa de ser um destino tão caro, os portugueses vão poder viajar mais com operadores de baixo-custo, os taxistas vão ter corridas maiores e esperemos que beneficie a rede ferroviária de transportes da Ota para o resto do país. O aeroporto da Portela, segundo sei, vai contiinuar a funcionar para Lisboa cidade. Não tem, aliás, capacidade para mais.

  3. Kane diz:

    O aeroporto da Portela está hoje no centro da cidade. A par das questões de segurança, a Portela vai avançando paulatinamente para os limites de saturação. No meu entender, estes são motivos válidos para se equacionar a construção de um novo aeroporto.
    No entanto, é sobretudo a localização do novo aeroporto, na Ota, que tem levantado as maiores dúvidas sob o ponto de vista técnico. Alguns especialistas de créditos firmados, vão levantando objecções sobre esta matéria. Ao contrário, exceptuando o voluntarismo político, poucos têm aparecido a defender a localização do novo aeroporto.
    À falta de esclarecimento credível, junta-se a dúvida metódica do cidadão comum habituado à especulação, ao tráfico de influências e à corrupção.
    Quando é a localização de um aeroporto o motivo para o debate político, para realçar as diferenças, muito pobre vai a vida política…

  4. Luís Lavoura diz:

    Rui Curado Silva, está agora em construção a extensão do metropolitano da estação do Oriente até à Portela. Em 2009 (creio) Você terá apenas 15 minutos desde a estação até ao aeroporto.

    Não é por a Ota ficar a Norte de Lisboa que será mais rápido lá chegar vindo de Coimbra. Tudo dependerá das ligações que sejam feitas. No caso das ligações à Ota, há problemas muito sérios, dado tratar-se de um terreno com montes e vales (a região de Munique, à qual Você comparou, é completamente plana!) e com povoações (nomeadamente Vila Franca de Xira) a barrar o caminho. Não será nada fácil, nem barato, construir uma linha de caminho-de-ferro rápido de Lisboa até à Ota. É que o caminho-de-ferro não consegue subir grandes desníveis, devido ao deslizamento das rodas.

  5. O facto de Portugal não estar dotado de uma única linha de TGV é a principal razão pela qual ainda não sou um empresário de sucesso. Sempre sonhei que a janela do gabinete presidencial da companhia teria como paisagem de fundo uma linha de comboios de alta velocidade.

  6. “Herculano não teve razão, mas…” Não teve mesmo? Pense lá outra vez, e vai chegar á conclusão de que comboios e aviões são estrangeirices que o país deveria evitar. Quando até as pessoas mais inteligentes começam a escrever posts destes, é caso para ficarmos realmente preocupados…

  7. Esqueci-me de perguntar-lhe que “prova” seria suficiente para fazê-lo mudar de opinião. É só pedir.

  8. dentinho-afiado diz:

    O betão continua a ser uma das poucas indústrias em portugal a funcionar e a trabalhar sem problemas de maior. Contudo, as novas casas construidas nos últimos anos têm tido dificuldade em ser vendidas, logo o governo tem que apioar esta indústria, a Ota e o TGV parecem-me boas opções, visto que o ppl todo do governo já tem segundas e terceiras casas.

  9. Este comentário tresanda a autarcismo/chauvinismo serôdio…

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