Honra a Riga

riga_old.jpg
Riga num postal por volta de 1900

Não: Munique 1938 não foi igual ao Pacto nazi-soviético. Nem, quer-me parecer, equivalente. Em Munique, a França de Daladier e a Grã-Bretanha de Chamberlain não se apropriaram do território de nenhum Estado europeu em troca da paz com Hitler. Em Munique, as potências democráticas não repartiram com os nazis um pedaço da Europa central, um bocado para cada; a URSS com a Alemanha nazi, sim.

É natural que o António Figueira não tenha reparado nisso, porque a quota que coube aos soviéticos parece, aos olhos dele, uma parte natural do império russo – e o desprezo que ele tem pelas nações ex-soviéticas do Báltico, depois do último post, deixou de ser segredo. Mas também não é verdade que Isaiah Berlin, judeu que nasceu em Riga, pudesse ter nascido em Tallin (então Reval). Riga era, já desde antes da primeira guerra mundial, uma das maiores metrópoles da Europa Central e de Leste. Tinha – como ainda se pode ver se se lá for – uma industrialização iniciada, uma burguesia local desenvolvida, avenidas largas, prédios de arte-nova, uma vida cosmopolita. E era uma das cidades com mais judeus na Europa, judeus que foram dizimados da noite para a manhã (como diz o Figueira – nesse aspecto com razão) com a cumplicidade activa da população local. Mas nisso, no facto de ter judeus, como no facto de ter burguesia local, industrialização, avenidas largas, prédios de arte-nova e ser uma cidade cosmopolita – em tudo isso se distingue da Estónia e em particular de Tallin, como se pode ver até hoje. A Estónia, quando foi ocupada pelos nazis em 1941, tinha muito poucos judeus para dizimar – essa é uma fraca virtude, pode até dizer-se que é uma medida da sua inferioridade, mas não pode acusar-se a Estónia pelas centenas de milhares de judeus dizimados em Riga.

«Estados do Báltico» é uma vasta categoria: em rigor, Estados do Báltico são nove, e incluem a social-democrata Suécia bem como a Dinamarca, a Finlândia, a Alemanha. A Estónia, a Letónia e a Lituânia compartem a circunstância de terem emergido como nações independentes na sequência da desagregação dos impérios europeus em 1919 (como várias outras nações da Europa central), terem sido incluídas no pacto nazi-soviético, ocupadas pela URSS, ocupadas pela Alemanha, e ocupadas de novo pela URSS de 1944 a 1990. Esta circunstância de sessenta anos não torna os três países idênticos, e em rigor deveria fazer pensar duas vezes antes de falar em «Estados do Báltico».

A industrialização da Estónia ocorreu nas décadas de cinquenta e sessenta; foi soviética, sem burguesia local nem judeus nem (hélas) prédios de arte nova nem avenidas largas. A Estónia era, e em larga medida continua a ser, um país de camponeses; não tem uma cidade digna desse nome para apresentar ao turista. Tem um centro histórico medieval cheio de muralhas, e flores, e meninas vestidas como se tivessem acabado de sair de uma história de Hänsel und Gretel, para entreter as hordas de turistas italianos, espanhóis, portugueses que lá se dirigem em excursão (também tem álcool barato para os moços finlandeses e ingleses que se embebedam em despedidas de solteiro). Riga tem uma série de problemas, incluindo a perseguição injusta à população russa, tensões étnicas, etc., mas é uma cidade a sério, graças àquilo que foi até há cerca de um século. E não tem, com toda a probabilidade, também nada que ver com Vilnius ou com a Lituânia, um país que a história aproxima muito mais da influência polaca do que da influência russa – e que hoje não tem uma questão russa comparável à dos outros dois.

Bem sei que o texto do António Figueira não era sobre isso, mas sobre a equiparação entre nazismo e comunismo que está subjacente às remoções e colocações de monumentos na Estónia. Não quero discutir a equiparação do nazismo com o comunismo. Sem dúvida que, se colocada nos termos em que a coloca Nolte – como «guerra civil europeia», o fascismo e o nazismo como resposta defensiva ao ataque bolchevique –, a comparação é de rejeitar. Mas isso não faz de todos os que colocam a questão da experiência histórica do nazismo e do comunismo ipso facto partidários do Nolte – nem faz deles anti-semitas, relativizadores do nazismo (o «Mal Absoluto» – expressão que eu não partilho) e sei lá eu que mais. Acresce que, ainda que a II Guerra Mundial tenha sido ganha por uma aliança entre os EUA, a GB e a URSS, daí não decorre que a UE tenha de ter uma doutrina oficial (um «adquirido civilizacional», como lhe chama o Figueira) sobre o grau de malignidade relativa do comunismo e do nazismo. Eu também acho – já achava quando escrevi aquilo – que, para além de ser imoral andar agora a construir monumentos aos soldados nazis falecidos, aquele género de provocações descaradas à Rússia e à minoria russófona da Estónia era muito má ideia. Mas não partilhei, nem partilho, dos termos absolutos em que o Figueira se refere à «querela histórica» da Estónia, nem da tendência para medir as virtudes e crimes históricos da Estónia pelo que se passou nos outros sítios.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.