Portugal dos pequenitos

Para os mais velhos, um recuerdo, para os mais novos, uma aprendizagem: o Portugal do Livro de leitura da 3ª classe de 1958 (mas que durou quase até 74) em alguns poucos porém belos extractos: 

Do amor filial: Amo o meu Paizinho como não amei, não amo, não amarei mais pessoa alguma a não ser a minha Mãe. Amo o meu querido Pai. Sempre… amá-lo-ei … e sempre lhe darei com grande enternecimento um grande beijo de infinito agradecimento por todo o bem e sacrifícios que por mim tem feito; e desde manhã até que me deito. 

Das vocações dos nossos infantes: “Manuel António, extasiado e pondo os olhos no pai, sentia crescer lá dentro de si uma grande vontade de ser lavrador.”  

Das suas perguntas difíceis: “- E por que é que há trovoadas, Pai? – Isso também é muito interessante, mas aprendê-lo-ás mais tarde.” 

A felicidade pelo estudo: “Na escola, desde a primeira classe que tem merecido a simpatia da sua professora pela pontualidade com que todos os dias comparece, pela prontidão com que faz os exercícios, pela boa vontade com que escuta os seus conselhos e pelo arranjo e asseio dos livros e dos cadernos. Não é muito inteligente, mas é das que mais sabem. E o seu amor ao estudo tem-lhe conquistado a amizade e o respeito das condiscípulas. Os pais julgam-se felizes por terem uma filha assim. Que prazer que eles não terão quando ela fizer exame da terceira classe!…” 

Notas biográficas:Lembro-me muito dele, do Jorge – dizia o professor conversando com um amigo. Era baixo mas bem constituído, já de musculatura saliente. Travesso incorrigível, porém de excelente coração. Facilmente, em ocasiões de mau humor, perdia a paciência com os amigos. Mas nenhum como ele era capaz de se sacrificar por um companheiro necessitado, de se condoer de um pobrezinho, de amparar um velho, de servir de guia a um cego. Uma vez jantei em casa de seus pais. O Jorge, à mesa, parecia um homem. Direito na cadeira, guardanapo sobre os joelhos, servia-se da colher, da faca e do garfo perfeitamente à vontade. Prestava atenção ao que se dizia, mas só falava se o interrogavam ou se a conversa lhe dizia directamente respeito. Terminada a refeição e vendo-nos entretidos numa discussão que se prolongava, pediu respeitosamente licença para sair da mesa, cumprimentou-nos a todos e foi divertir-se com o «Tejo», lindo cão de guarda, que nunca levava a mal as suas travessuras. Já então mostrava o Jorge o que havia de ser quando homem: Hoje é o orgulho dos pais. E eu sinto muita honra em dizer que o tive por aluno.” 

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Portugal dos pequenitos

  1. Ezequiel diz:

    belos, sem dúvida, Caro António. Very very kool! 🙂

  2. Sérgio diz:

    Delicioso…

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