Não deixam jogar o Mantorras

Primeiro foi apanhado a guiar com uma carta angolana fora de prazo, e essa interpelação da nossa polícia motivou, em retaliação, uma caça às cartas portuguesas (fora e dentro de prazo, parece) na nossa antiga colónia, e mais um estranho conflito entre o terceiro mundo e o quarto. Depois foi a vez de uma jovem “modelo” se vir queixar, na capa de uma revista cor-de-rosa (mas que AVISO: Pode deixar as almas mais sensíveis roxas de repugnância) que ele a tinha abandonado “com uma filha nos braços”. Como assim? A moça abre o seu coração à curiosidade dos leitores: como tinham amigos comuns, ela pediu-lhe uma camisola autografada; como soube que ela era “gira”, ele insistiu em conhecer a moça por trás do pedido; seguiram-se dois anos de namoro, uma gravidez cuidadosamente planeada, promessas de vida em comum, até andaram a ver casas – e nisto ela descobre que ele vive com outra, tem filhos dela e não tenciona largá-la. Um clássico da literatura mundial, pois, revisitado por Pedro Mantorras. Na mesma revista (Lux? Vip? Vux? Lip?), dois outros monos do futebol nacional elevados à categoria de role models da juventude: o velho João Pinto, entre duas idas à Judiciária, dá uma de gente séria, e do eterno Jorge Cadete, recordista nacional de clubes representados, fica-se a saber que anda desde há dois meses com a Miss Playboy Terras do Sado 2007. Os mais conspirativos julgam que não querem deixar jogar o Mantorras e gritam pela Maria José Morgado; os mais analíticos concluem pela inelutável plebeização da sociedade portuguesa e convocam Bourdieu; os mais fatalistas têm saudades da televisão a preto-e-branco e ainda pedem golos ao Eusébio; os mais sensatos têm de se entreter com outras coisas.

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SEXTA | António Figueira
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Uma resposta a Não deixam jogar o Mantorras

  1. Jorge diz:

    As revistas cor de rosa são um mundo. A maior parte de nós contacta com ele, de vez em quando, no consultório do dentista. A ideia talvez seja usar a dor intelectual provocada pelo desperdício de papel como anestésico para a dor física que provavelmente aí virá. Ou talvez não; talvez não haja ideia nenhuma a não ser a do mínimo denominador comum.

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