Jorge Palinhos:o leite creme

O doutor Teles e Melo estava irado. Há quase cinco minutos que a senhora à sua frente estava a usar a colher do café como colher de sobremesa. A fúria perante tamanha falta de etiqueta fazia tremer o lábio inferior do doutor Teles e Melo, ao ponto de o impedir de apreciar devidamente o leite creme.
Pousou a colher – de sobremesa – e respirou fundo. Reflectiu se a sua boa consciência liberal o deveria levar a instruir a dama na correcção comensal ou a tolerar as falhas de pessoas com uma educação menos esmerada que a sua.
Resolveu optar pela segunda escolha, que poupava a senhora a um (merecido) correctivo, não levantava perturbações num convívio se revelara tão agradável até então e não gerava incómodos à Sr.ª Barbedo de Silva, uma anfitriã esmerada com uma cozinheira assaz recomendável ao serviço. Era uma infelicidade que o louvável acto do doutor Teles e Melo acarretasse o penoso sacrifício de prescindir do seu próprio leite creme, visto que o horroroso atentado gastronómico a decorrer diante de si, não lhe permitia continuar a comer civilizadamente.
Para se distrair da tentadora sobremesa, o doutor Teles e Melo decidiu brindar a anfitriã com os merecidos elogios.
– Ah, estimada Sr.ª Barbedo e Silva, o manjar que nos ofereceu é uma raridade desde os tempos de abundância do Estado Novo!
A sr.ª Barbedo e Silva corou de prazer e ia exprimir um delicado agradecimento, quando um indivíduo se antecipou.
– Abundância do Estado Novo? Está a brincar, não?
O doutor Teles e Melo pousou o olhar no impertinente. Deveria ter uns trinta e tal anos, sem gravata, alguns dos cabelos espetados. Gedelhudo do BE, percebeu imediatamente o doutor Teles e Melo. O trotskista insistiu.
– Só se está a falar da família Patiño e do Ballet Rose…
E riu alarvemente.
O doutor Teles e Melo passou a mão pelo queixo.
– Estou a falar completamente a sério, caro… senhor. O Estado Novo foi responsável pela maior fase de prosperidade deste país dos últimos 300 anos.
O “hippie” estava pasmo.
– Não me diga que o senhor…
– Doutor – corrigiu o doutor Teles e Melo.
– Como?
– Doutor.
– Doutor?
– Doutor.
O indivíduo pareceu engasgar-se com uma gargalhada contida.
– O sôtor é admirador do Salazar?
O doutor Teles e Melo enrubesceu com a deturpação do título. Mas conseguiu manter a conversa.
– Nada disso. Sou um liberal! Mas há que reconhecer o grande desenvolvimento que o Estado Novo deu ao país.
– Mas essa obra fez-se contra a vontade de Salazar. Por pressão dos organismos e empresários nacionais e estrangeiros.
– Isso são opiniões, – declarou triunfantemente o doutor Teles e Melo. – A mim interessam-me factos. Números. Estatísticas. E é isso estes apontam: que o Estado Novo foi o período de maior desenvolvimento do país em trezentos anos.
– Então e o reinado de D. Maria I?
O doutor Teles e Melo achou de uma impertinência incrível que um analfabeto do Bloco o tentasse contradizer.
– Não sei nada disso. Tem factos? Tem números? Tem estatísticas?
– Bem… – fez o indigente, claramente derrotado – É evidente que não os trouxe para o jantar… Mas há vários historiadores que o afirmam. Com dados plausíveis.
Houve uma pausa. Todos os convidados estavam suspensos na discussão.
– Mas, oiça lá, – insistiu o bloquista – sôtor, -acrescentou maldosamente após uma breve pausa – o senhor não é liberal? Como é que pode ver aspectos positivos num regime fascista?
O doutor Teles e Melo levantou os olhos ao céu perante tamanha demonstração de estupidez e conjecturou que assim se comprovavam os malefícios das drogas leves e do sexo livre.
– Mas, caríssimo, – o doutor Teles e Melo acentuou propositadamente os agudos desta palavra –  o Estado Novo não era um regime fascista. Pelo contrário, a sua organização era claramente baseada numa das instituições mais liberais que existem. Que, aliás, inspirou o próprio movimento liberal.
O interlocutor assumiu uma expressão claramente asinina.
– Qual?
O doutor Teles e Melo não conseguiu reprimir um ligeiro abanar reprovador da cabeça.
A Igreja Católica Apostólica Romana.

O labrego do Bloco abriu muito a boca. Teve-a aberta e muda uma duração considerável de tempo. Depois, a muito custo, a mesma boca começou a emitir uns ruídos estranhos, que o doutor Teles e Melo julgou inicialmente que fossem zurros e só depois percebeu serem gargalhadas. O indivíduo ria às bandeiras despregadas. Tanto ria que se inclinou para trás na cadeira e caiu com grande estrondo no meio do chão, no meio dos gritos das damas e dos sobressaltos dos cavalheiros.
Gerou-se algum reboliço entre os convivas, que acorreram a ajudar o impertinente, enquanto este continuava a rir-se no meio do chão, como se fosse alguma espécie de símio.
O doutor Teles e Melo, indiferente, aproveitou a distracção da senhora à sua frente para terminar o seu leite creme, que, infelizmente, estava já completamente frio.

Jorge Palinhos 

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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10 respostas a Jorge Palinhos:o leite creme

  1. Sérgio diz:

    Estas indecentes reabilitações de Salazar e do Estado Novo (o homem deve dar voltas no túmulo por ser considerado da forma que é por «liberais»…) suscita-me um misto de gargalhada, de nojo e de preocupação.
    Um homem, cuja ascensão ao poder tem mais a ver com uma formiguinha trabalhadora do que a de um estóico que aguenta ser retirado da terrinha e da sala de aula a bem da nação (há mitos que perduram e a pergunta daquele programa «ditador ou salvador, você decida»… bem, está ao nível da mais miserável das antologias da falta de respeito pela inteligência alheia e pelo rigor histórico. A História não se escreve à vontade do freguês).
    Para que não restem dúvidas: o Professor considerava-se um ditador, o seu regime uma ditadura e era, visceralmente, adversário de modelos políticos vários, nomeadamente liberais (ouviram bem, «liberais»?)
    Para quem preza os direitos humanos, não esquecer: morreu gente às mãos do Estado Novo. Por razões políticas, por fallta de liberdade. Mas não importa: a pátria era ditosa porque o povo estava bem, não passava fome e era instruído e educado. Basta ver porque é que antes do SNS os indicadores de mortalidade neonatal era terceiro mundista, porque é que tinhamos o nível de analfabetismo que tínhamos e a economia vegetava na indigência que hoje se confirma? A economia crescia? Ai sim? Não seria porque o mundo também vivia o tempo dos «trinta gloriosos»? Qual quê? sabedoria do Sr. Doutor. Os que morreram, olhem, foram os arruaceiros a quem foi necessário dar os famosos safanões…

    Num assomo de optimismo quero pensar que os recentes casos não passam de cometas e represantam meras e pequenas partículas da sociedade. É que numa sociedade livre há direito a ser-se imbecil e a não ter vergonha na cara…

    Atenciosamente,
    Sérgio.

  2. maloud diz:

    Tem a certeza que ele se chama Teles e Melo? Eu não estive no jantar, mas parece que a conversa continua algures por aí, com vasta assistência.

  3. a.castro diz:

    Peço desculpa mas fartei-me de rir com o texto do princípio ao fim 🙂 🙂 🙂 Essa do guedelhudo trotskista e dos 300 anos da maior fase de prosperidade deste país, segundo o coitado do Teles de Melo que acabou por terminar o seu leite creme completamente frio – é demais!!!

  4. Ezequiel diz:

    Fantastico! 🙂

  5. António Figueira diz:

    Este texto é engraçado a vários títulos. No imaginário esquerdista, tínhamos até agora o mito “outubrista”, particularmente desenvolvido pelo MR durante o PREC (o Arnaldo Matos via-se como um Lenine, sempre pronto a esgalhar umas “Teses de Abril”, e analisavam-se todos os avanços e recuos do revolução portuguesa de 74 em função e como cópias quase dos sobressaltos da revolução russa de 17) e o “dimitrovismo” dos UDP’s (sempre um gajo de dedinho espetado, como se estivesse no processo de Leipzig, a mostrar a verdade ao povo e a “julgar os julgadores”); agora pelos vistos compete a um “trotskista guedelhudo” do BE essa mesma função iluminadora, de pôr a nu o discurso da reacção. Plus ça change…
    A principal diferença é que o Jorge Palinhos escreve muito melhor do que os seus antepassados.

  6. Ia caindo da cadeira a rir… valeu-me a lembrar-me do «”‘liberal'”» em tempos caído para não lhe seguir o exemplo.

    Sem dúvida o «post» da semana!

  7. Um conto muito blasfemo. Gostei de ler.

  8. Luís Lavoura diz:

    Excelente, fabuloso. Fartei-me de rir.

  9. Piscoiso diz:

    Com o devido respeito, vénias e o que mais quiser, não resisto em levar este texto para a caixa de comentários do Blasfémias. Espero que não rebente.
    A caixa.

  10. JoaoLuc diz:

    Uma pena este Palinhos já não escrever por aí.

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