Gostou da guerra do Iraque? Vai adorar a do Irão!

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Ouvi uma vez Pascal Boniface numa conferência do CPR (Conselho Português para os Refugiados) foi brilhante. Recentemente, li este texto que explica a vertigem catastrófica da actual administração norte-americana. Esta caminhada, entre caixões em passo de ganso, faz-me lembrar uma conhecida anedota brasileira em que se citavam as frases chaves de três presidentes brasileiros. O primeiro, teria advertido que o Brasil estava à beira do abismo. O segundo, garantiu que o país tinha dado um passo em frente. O terceiro, exultou que ao Brasil já ninguém o conseguia “pegar”. Estamos de facto, a um passo do abismo. Cá fica o texto de Pascal Boniface para pensar:

Gostou da guerra do Iraque? Então, vai adorar a guerra do Irão! Claro que não terá a mesma forma. Não vale a pena sonhar com uma invasão maciça com emprego de tropas em terra e uma ocupação militar prolongada que acaba numa guerra civil.
Isso não é possível. Mesmo a hiperpotencia norte-americana tem os seus limites. Não tem – já não tem – os meios para abrir uma segunda frente deste tipo. Você vai ter que se contentar com ataques aéreos e bombardeamentos dirigidos às instalações nucleares iranianas. Mas não se preocupe, se o desenrolar vai ser diferente, o resultado vai ser tão catastrófico ou mesmo mais do que a guerra do Iraque.
O que é que surpreende mais ou choca mais? Que as mesmas pessoas que tinham-se batido em favor da guerra do Iraque, possam sem nenhuma vergonha, apesar do resultado desta guerra, apelar a que haja operações militares contra o Irão?
Que utilizem os mesmos argumentos: perigo nuclear, necessidade de acabar com um regime tenebroso e insuportável? Que os mesmos “especialistas” que garantiam que o Iraque estava cheio de armas de destruição maciça, garantem-nos (repetidamente e há vários anos) que o Irão está a um ano de conseguir produzir uma arma nuclear, sem terem medo que a sua credibilidade seja posta em causa? Que ousem alcandorar-se numa posição moral, ao mesmo tempo que praticam o terrorismo intelectual e diabolizam todos aqueles que pensam que a guerra não é necessariamente o melhor dos meios para resolver os problemas políticos. Que desavergonhadamente se dediquem a veicular amalgamas duvidosas em que comparam Ahmadinejad a Hitler – relativizando os crimes deste ultimo?

Quando se ouve comparar um dirigente a Hitler, sabemos que os preparativos para uma guerra estão em curso. Este tipo de comparações foi feita em relação a Nasser antes da guerra do Suez, para Saddam antes da guerra do Golfo de 1990-1991 (mas nunca durante a guerra Iraque-Irão), e antes da de 2003 (mão não entre as duas guerras), e finalmente em relação a Milosevic antes da guerra do Kosovo. Nenhum destes personagens era um grande democrata. Mas pode-se seriamente coloca-los no mesmo saco que Hitler?
Isto não é uma ofensa à memória das milhões de vítimas do nazismo? Alguns ousaram mesmo, antes dele ser assassinado por um extremista israelita, fazer a mesma escandalosa comparação em relação a Rabbin.
Não se trata de negar o perigo que representaria um Irão com armas nucleares, nem de aceitar sem nada fazer as inaceitáveis declarações de Ahmadinejad de ver Israel riscada do mapa ou da escandalosa conferencia revisionista de Teerão.
O IRIS (Institut de Relations Internationales et Stratégiques), como vários think-thanks, decidiu aliás romper os contactos com o organismo que promoveu esta conferência. Não se trata, também, de recusar o recurso à força em qualquer circunstância. Há casos em que ela se justifica como um último recurso. Foi o caso, na minha opinião, contra o Iraque em 1991. Não foi o caso em 2003 e não é o caso hoje em dia perante o Irão.
Qual será o resultado dos ataques às instalações nucleares iranianas? Destruirão certamente uma parte delas. Retardarão assim o acesso do Irão à arma nuclear. Mas aumentarão a determinação dos iranianos a possuir a arma nuclear. Serão acompanhadas de inúmeros “danos colaterais” (verdadeiramente massacres) sobre a população iraniana que podem ser marcantes. Depois do Afeganistão, Iraque, Líbano, e sobre o pano de fundo do agravamento do conflito israelo-palestino.
Dar-se-á um grande salto para a frente, mas em direcção a um choque de civilizações e não em direcção a um Médio-Oriente em paz, ao fim do terrorismo e à não proliferação das armas nucleares. Todos estes objectivos (que eram já afirmados na guerra do Iraque) serão colocados em causa pela guerra contra o Irão. No momento que Ahmadinejad começa a ter dificuldades no plano interno, verá a sua legitimidade reforçada segundo a lei de antanho que garante que perante um ataque do exterior a população de um país tende a alinhar-se com os seus dirigentes.
Claro que se pode pensar racionalmente que perante a situação estratégica desastrosa, nomeadamente no Iraque, os Estados Unidos não assumirão o risco de abrir uma segunda frente.
Infelizmente, o pior não pode ser excluído. George W. Bush pode acabar por ser convencido pela sua própria propaganda. Se Ahmadinejad é Hitler, como é possível aceitar que os riscos inerentes a uma guerra são menores do que ter um Hitler dotado de armas nucleares?
Impedir o Irão de se dotar de armas nucleares, fazer que este país regresse a uma politica internacional mais respeitosa dos seus vizinhos, e que possa ser reintegrado na comunidade internacional são objectivos correctos. A guerra é o pior meio de o conseguir.
É mesmo o melhor meio de atingir o resultado inverso. Depois das eleições de Novembro de 2006 e sobretudo após a publicação do plano Baker Hamilton acalentou-se a esperança que o presidente Bush fosse adoptar uma política mais realista e menos perigosa para a região. O triunfo da ideologia sobre a realidade. A tentativa de sair da crise provocando uma ainda maior? É o que podemos temer das catástrofes que se parecem seguir.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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8 respostas a Gostou da guerra do Iraque? Vai adorar a do Irão!

  1. Ezequiel diz:

    Muito interessante. Se não estivesse tão cansado tentava comentar este interessante texto recorrendo, em parte, a um texto do perspicaz e controverso E Carr sobre a moralização-diabolização que que acompanha todas as guerras ou antagonismos. Fica para amanhã. Se me permites deixo aqui duas palestras (uma das quais não ouvi, a do K Waltz, realista..e atenção, não são poucos os realistas que se opoem à política do Sr. George Bush-deixo aqui o testemunho), uma delas do sempre brilhante Joschka Fisher. Não quero ser chato. Cá vai.

    http://muse.jhu.edu/demo/world_politics/v057/57.1craig.pdf

    http://coblitz.codeen.org:3125/uc.princeton.edu/main/images/stories/podcast/20070221SaganWaltz.mp3

    J. Fisher (em baixo)

    http://coblitz.codeen.org:3125/uc.princeton.edu/main/images/stories/podcast/20070227JoschkaFischer.mp3

    Até amanhã. Boa noite.

  2. Ezequiel diz:

    Não tenho tempo ou força para comentar agora. Tenho que ir para a caminha. Deixo aqui umas coisinhas que ouvi hoje que Te/Vos poderão interessar, julgo eu. Desculpas por estar semrpe a deixar links, mas presumo que isto seja de interesse. Dois realistas old school. Um green realista (J Fisher) e um artigo sobre os realistas Americanos (nem todos apoiam o Bush, deve-se dizer)

    http://muse.jhu.edu/demo/world_politics/v057/57.1craig.pdf

    J Fisher, brilhante, como sempre.

    http://coblitz.codeen.org:3125/uc.princeton.edu/main/images/stories/podcast/20070227JoschkaFischer.mp3

    K Waltz e Sagan (“realistas”)

    http://coblitz.codeen.org:3125/uc.princeton.edu/main/images/stories/podcast/20070221SaganWaltz.mp3

  3. Ezequiel diz:

    ooops…pensei que x e foi y e depois x..bolas! sorry. 🙂

  4. miriam diz:

    Por aquilo que já li,a afirmação de que o Ahmadinejad queria Israel riscada do mapa, é uma mentira !Li algures entre a Znet ,o resistir.info ou o lemonde diplomatique que isso é uma atoarda dos serviços de propaganda do capital.Se são democratas pq usar prop mentirosa?É a superioridade moral da democracia?Estranho…
    Ou é a aflição do dólar sagrado de estar a ser escorraçado?Porque não comparar o Bush (no final,o capital) ao Hitler?Aliás,o0 grande capital andou ,e de que maneira,enleado nesse personagem que quiz dar novos mercados(já e ainda) às corporações alemãs.
    De resto estes posts estão-me a lembrar ,as conversas de cabeleireiro ,NRA.Penso que andas muito atarefado e,portanto, o fait- diverse de alguns destes posts.Abraço

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miriam,
    Quando se comenta (por muito ocupado que se esteja) convém ler. O autor do texto diz especificamente isto: “Não se trata de negar o perigo que representaria um Irão com armas nucleares, nem de aceitar sem nada fazer as inaceitáveis declarações de Ahmadinejad de ver Israel riscada do mapa ou da escandalosa conferencia revisionista de Teerão”. Que é, pelos vistos, exactamente o contrário daquilo que você garante ter lido. Mesmo no cabeleireiro é preciso alguma atenção.

  6. Ezequiel diz:

    eh eh eheh e hh ee h(acordei e já estou a rir) até já.

  7. Ezequiel diz:

    Caro Nuno

    Um texto interessante, sem dúvida.
    1.a) A diabolização-moralização é um fenomeno que acompanha todos as guerras-antagonismos. Penso que é crucial considerar as questões essenciais sem nos deixarmos auto-enclausurar em criticas que incidem sobre, ou emanam da, diabolização-moralização. Os factos essenciais por vezes são obfuscados pela retorica. E quais são os factos essenciais?

    O regime Iraniano é dominado por uma elite teocrática que se divide em duas facções, como deves saber: a facção “reformadora” e a facção fundamentalista. É esta elite que decide quem é que pode candidatar-se às “eleições” e, como é sabido, a facção fundamentalista do conselho supremo detem, actualmente, o controle quase absoluto das instituições repressivas do estado Iraniano. O controle destas instituições estende-se a toda a sociedade iraniana e pode, por isso, ser entendido como totalitário. Basta ver o que acontece a todos aqueles que podem contestar o poder do estado. As vozes de contestação com poder mobilizacional são brutalmente reprimidas. As vozes de contestação sem poder mobilizacional são relutantemente e estrategicamente permitidas (até ao dia em que se tornam problemáticas) Ahmdinejah é, até certo ponto, uma marionete da facção fundamentalista do conselho supremo. De facto, a problemática do nuclear, especialmente a forma como é usada na mobilização do nacionalismo persa-shiita, tem como objectivo essencial a resolução de um problema primordial para o regime iraniano: a balança de poder interno. (que parece estar a mudar) Iria mais longe: diria até que a propria “política” estrangeira iraniana é, na sua essencia, uma funcção da dimensão interna. Ou seja, Ahmdinejah e os seus compinchas sentem-se cercados dentro e fora do país, literalmente. Esta situação é muito perigosa porque intensifica a percepção de que é “tudo ou nada” e pode, sem dúvida, propulsionar o regime para acções lunáticas e psicopáticas, especialmente se considerarmos a ideologia que inspira os radicais iranianos (o regresso do Mahdi, do profeta shiita, acontecerá num contexto de caos e destruição: ou seja, os radicais não sentem uma aversão profunda a uma situação desastrosa. O caos faz parte da teleologia do regime. Penso que não é preciso muita massa cinzenta para perceber o perigo que isto representa, particularmente para Israel etc)

    1.b) Historicamente, os regimes profundamente dogmáticos tendem a ser imunes a pressões diplomáticas ou ao ” effective containment” defendido por Joshcka Fisher. O que tende a acontecer é que o containment intensifica ainda mais o dogmatismo. Estamos, portanto, perante um problema muito complexo. Concordo que a intervenção militar provavelmente seria desastrosa. O Irão dispõe de meios para ripostar: O Hezbollah, por exemplo, é uma organização terrorista( internacional) tão ou mais perigosa do que al quaeda. As duas opções que estão na mesa, a do containment e a intervenção militar, são ambas péssimas. Parece-me evidente que a dimensão essencial é a da relação da política interna (a configuração do poder interno, que parece estar em mutação) com a dimensão externa. De certa forma, tudo dependerá do que se passa no Irão. Todavia, esta relação é complexa e perversa. Quanto maior for a ameaça (interna) dos movimentos de democratização e liberalização (movimento das mulheres, por exemplo) maior será, para os radicais no poder, o incentivo para consolidar o controle totalitário e tentar obter a opção nuclear (um dos objectivos do nuclear-talvez o mais importante- é a proteção da integridade do regime teocrático, apesar das clausas na constituição iraniana que afirmam o imperativo de criar um califato global, constituido através da força, se necessário)

    “Foi o caso, na minha opinião, contra o Iraque em 1991. Não foi o caso em 2003 e não é o caso hoje em dia perante o Irão.”

    O Iraque em 1991 não estava a tentar desenvolver o nuclear, apesar de possuir, e de ter utilizado, ADM. Em suma, um GRANDE imbroglio.

    Cumprimentos,

  8. Ezequiel diz:

    “Se Ahmadinejad é Hitler, como é possível aceitar que os riscos inerentes a uma guerra são menores do que ter um Hitler dotado de armas nucleares?”

    Pergunta estúpida.

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