Filipe Moura: os segredos da febra

Este texto do Filipe Moura fala-nos de um fenómeno estranho que assola determinadas pessoas: quanto mais caro pagam um prato, melhor lhes sabe. Será que um copo de água a 100 euros, sabe melhor que uma garrafa de Barca Velha?

Reactivando um hábito de outros anos, e porque entendo que o feminismo começa verdadeiramente na distribuição das tarefas domésticas elementares, de acordo com a minha ética proletária, observo o Dia da Mulher… com uma receita. Homens para a cozinha, pois então!
Confesso no entanto que a receita que escolhi este ano não foi a pensar em nenhuma mulher: é mais dedicada ao jornalista, crítico gastronómico e blóguer Duarte Calvão . O Duarte Calvão costuma publicar crónicas no Diário de Notícias sobre os excelentes restaurantes que visita, em Portugal e no mundo inteiro. E confirma-nos aquela máxima da cozinha portuguesa que a torna verdadeiramente atractiva e democrática: pobres e ricos comem as mesmas coisas (excluo os “muito pobres”, como é evidente, que mal tenham dinheiro para comer). O que quero mesmo dizer é o seguinte: se excluirmos restaurantes de luxo, é frequente encontrarmos ementas semelhantes em restaurantes mais caros e mais baratos. A diferença de preço está só no local onde se come. No Brasil, pelos vistos, a situação não é muito diferente. E é assim que vemos o Duarte Calvão, na sua crónica do DN , todo orgulhoso por ter pago 15 euros em São Paulo por um hambúrguer. Recordo-me que o mesmo jornalista, no passado mês de Junho, por altura dos santos populares, escreveu outra crónica onde gabava umas sardinhas assadas que tinha comido em Alfama, pelas quais tinha pago a módica quantia de… 20 euros. Tinha gostado tanto que voltara ao mesmo restaurante para comer… umas febras de porco! Um prato que já não comia há dois anos! O crítico gastronómico Duarte Calvão não comia febras de porco há dois anos. E ficou tão comovido por as descobrir no mesmo sítio onde tinha pago 20 euros pelas sardinhas que voltou lá de propósito, só para as comer, tendo voltado a desembolsar 20 euros por um prato!
Eu não sou o Duarte Calvão, mas quando pago 20 euros por um prato num restaurante (é muito raro, mas pode acontecer), não é para comer febras de porco. Sendo assim, hoje, Dia da Mulher, dia em que os homens se deveriam habituar a ir mais à cozinha (como todos os outros), eu deixo aqui uma receita de febras de porco. Dedicada ao Duarte Calvão.

Tome as febras, tempere-as com colorau, louro e um pouco de pimenta. Junte-lhes uns dentes de alho em rodelas (Duarte, se for cortar os alhos, tenha cuidado não se vá cortar). Junte um pouco de vinho branco e deixe marinar por umas horas. Escorra-as na marinada e leve-as a fritar em margarina ou banha, a seu gosto. Estando fritas, junte a marinada até esta reduzir. Acompanhe com umas boas batatas cozidas com casca. (Duarte, se for cozer as batatas, lave-as bem primeiro, corte-as – cuidado, não se corte! É melhor não as descascar! -, ponha-as em água com sal que entretanto pôs ao lume (cuidado, não se queime!) e deixe-as cozinhar até ficarem tenras.)
E pronto: com ingredientes que compram em qualquer supermercado, têm aqui um pitéu que vale, nos restaurantes que o Duarte Calvão costuma frequentar, 20 euros. Et voilá, como dizem os chefs desses restaurantes. Bon appétit.

Filipe Moura

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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15 respostas a Filipe Moura: os segredos da febra

  1. Pim diz:

    Entendi a questão fulcral do texto. A ironia resultou (melhor em algumas passagens do que em outras) contudo há uma certa razão naquilo que o crítico gastronómico diz. Por exemplo, comer uma francesinha (sou do Porto) é uma coisa corriqueira por estas bandas. Qualquer tasca a faz. Ainda assim a melhor que comi foi no Porto Beer, cujo Chefe é o Hélio Loureiro (tem um programa na RTP-N e é o cozinheiro da selecção nacional) e foi a melhor francesinha que já comi… paguei cerca de 16 euros… Um absurdo, claro… O normal é pagar entre 5-7 euros por este prato… Mas havia diferenças óbvias na confecção desta francesinha e na das outras das tasquinhas onde como a diária…

  2. l.rodrigues diz:

    As melhores febras de porco que já comi, acho que foi em casa da minha mãe, arranjadas num grelhador daqueles do George Foreman. Não me perguntem porquê.

  3. LR diz:

    Experimenta um dia fazer isso com autêntico porco preto (daquele alimentado a bolota…) e sem isso do colorau. Verás como pagar um bocado mais pode ter reflexos (saborosos, diga-se) nas tuas febras…

  4. O Duarte Calvão diria se fossem febras de porco preto. Nâo eram: ele chamou-lhes “febras” ou “bifanas”.
    Eu sei que o meu tempero é discutível, mas colorau é paprika. O menino não gosta de paprika? Ai que possidónio!

  5. Ó Pim, eu adoro francesinhas, mas nenhuma francesinha clássica vale 16 euros (tal como nenhum hambúrguer). Digo-te uma série de sítios no Porto onde as comes por menos de metade desse preço.

  6. LR diz:

    No restaurante alentejano onde me preparo para ir almoçar também não se dão ao exibicionismo meio racista de mencionar a cor do pobre e defunto animal. E a paprika arruinaria o delicado sabor do bicho.

  7. zé bolota diz:

    16 euros por uma francesinha? Tá bem. Ó Pim, o amigo está à vontade para dar o que lhe pedirem por uma francesinha. Nem tem de se justificar.
    LR, confie aqui num gajo que já comeu porco de várias cores, incluindo o preto: uma febra de porco é uma febra de porco é uma febra de porco, e nunca há-de chegar a ova de esturjão. Mas acho que no bar do Savoy de Londres, pode-se comer uma bifana de porco preto, mais uma imperial de guiness preta, por duzentos e cinquenta euros.

  8. zé bolota diz:

    O Chefe Hélio tem olho pró negócio 😉

  9. Pim diz:

    Caro Filipe, como deves calcular também conheço vários… Certamente, serão os mesmos que pretendes enumerar (já agora, estás à vontade para o fazer…)… De qualquer modo, desafio-te a lá ir (ao Porto Beer), nem que seja por uma vez, como eu…

  10. Teresa FM diz:

    Eu sou muito provinciana, no que toca a comida! Gosto pouco desses restaurantes chiquerrimos, onde se paga muitíssimo e não se come quase nada. Um restaurante, para ser mesmo bom, tem que conjugar três factores, importantíssimos: Servir pratos bem confeccionados; em abundância e baratos.
    A vez que comi pior (e mais caro, talvez!…) foi num desses restaurantes finérrimos que serviu um caril de gambas (duas ou três), acompanhadas por um esparregado (um montinho), no meio de um prato enorme. Realmente estava muito bem arranjadinho, mas o caril (que deve ser servido em cataplana) estava frio (o prato enorme não conservou o calor) e eu fiquei cheinha de fome. O que me (nos) valeu foi o pão e manteiga, que, após a refeição, voltamos a pedir.
    Quanto a francesinhas, Pim, experimente as da “confeitaria ML”, na Rua Mártires da Liberdade, aí no Porto – vai ver que por menos de metade do preço come umas francesinhas como nunca comeu, não desfazendo…

  11. LR diz:

    Zé Bolota,
    Depois de deglutir uma dose do belo entrecosto de porco preto, não podia discordar mais.

  12. maloud diz:

    Deixe as febras ou bifanas e faça em casa o hamburger. Começa pelo pão. A farinha, o fermento, as sementes louras de sésamo existem nos supermercados. É só dar ao braço ou à MAP, se a tiver. Depois faz um belo bife de carne do lombo picada com a faca. A picadora eléctrica rasga e amassa as fibras. Não esqueça a salada. E se quiser que seja cheese, escolha bem o queijo. Nada daquelas porcarias em forma de paralelepípedo O ketchup, espécie de chutney de tomate, também deve constar. No fim com a calculadora some as parcelas. Sem a electricidade e a água para lavar toda a traquitana, e trabalhando de graça, gastou perto de 15€. E comeu um hamburger táo bom como o do Duarte Calvão.
    Bem se vê que você só entra na cozinha uma vez por ano.

  13. 15 euros por um hambúrguer feito em casa, mesmo se de “bife do lombo”?
    Maloud, eu entro na cozinha todos os dias. Você é que só deve fazer contas uma vez por ano.

  14. maloud diz:

    Eu pensava que podia brincar, tal como o Filipe. Tenho de me informar melhor sobre as regras da casa.
    Quanto às contas, olhe que não! Quem gere esta traquitana sou exclusivamente eu. Nós dividimos as tarefas e como não trabalho fora de casa…
    Posso pedir-lhe um favor? Diga-me um sítio cá no Porto, onde ainda se comam boas francesinhas. É que ultimamente o desastre é tal que já nem me atrevo a pedir.

  15. Miguel diz:

    A melhor francesinha que eu já provei (e continuo a provar com regularidade semanal) é em Braga num restaurante chamado “Atrium Café”.

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