Um novo papel

Em Fevereiro, coincidindo com o fim do Público e do Diário de Notícias, Pacheco Pereira publicou três artigos muito interessantes sobre o futuro da imprensa. As versões reduzidas desses artigos (aliás, um artigo em três partes) apareceram no Público. A versão completa apareceu no blog, embora partida em três. O Pacheco passa o texto a dizer que se deve submeter a imprensa à lógica da edição online (do hipertexto) e não à do papel, mas depois esqueceu-se de que a partição em três – estritamente justificada pelos constrangimentos do espaço em papel – não faz nenhum sentido online. «O primeiro objectivo de um jornal» – diz ele – «é informar, e um jornal em papel é um meio mais pobre para informar do que um jornal em linha. Esta é que é a chave da crise da imprensa escrita, a impossibilidade de incorporar o hipertexto.»

De todas as formas, o tema é fascinante e as reflexões do Pacheco muito úteis. A crise dos jornais é mundial (tirando os detalhes que são a Índia e a China, que conhecem um boom associado ao aumento da população alfabetizada e com algum dinheiro). Mas não é impossível que no caso português – devido à natureza exígua do mercado – venham a revelar-se de forma especialmente rápida e acentuada problemas que só mais suavemente afectarão a imprensa dos países ricos. O que é certo é que os jornais diários tal como existem actualmente em Portugal seriam há dez anos irreconhecíveis.

PENSAR OS JORNAIS I
José Pacheco Pereira, 17 de Fevereiro de 2007

À nossa frente, diante dos nossos olhos, vários objectos que tomamos por indissociáveis do “nosso mundo” desaparecem, uns lenta, outros rapidamente, de um dia para o outro. Já vi desaparecerem as máquinas de escrever, os copiógrafos, a tipografia a chumbo, os selos do correio, o rolo de fotografias, o gravador de fita, as disquetes, o telex, o fax, o vídeo, etc, etc.

Olhando à nossa volta, outros objectos estão também a ir-se embora: que necessidade tenho eu de vir a esta estante de CD de música que gravei no iPod, podendo agora transportar toda a minha discoteca de aparelho para aparelho sem precisar de mais nada? Ao lado, os vídeos em VHS juntam-se aos discos em vinil e suponho que, a prazo, os DVD irão fazer-lhes companhia. Os selos, a mesma coisa, hoje já quase que não se usam no correio, para serem emitidos apenas para os coleccionadores. O dinheiro pouco a pouco é substituído pelos cartões e todos os cartões convergem para um só. A rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da Segunda Guerra Mundial.

E será assim para estes objectos que tenho à minha frente, feitos de muitos hectares de floresta, esta pilha de jornais? Estão também a ir-se embora, pouco a pouco, sem nós vermos, nem nós querermos? Talvez em geral, sim, em particular para os jornais feitos ao modelo antigo, entre o jornal generalista e aquilo que se chama hoje “imprensa de referência”. Vejamos o caso português, em que há várias coisas evidentes que os jornais “de referência” não quiseram ver nem entender. Uma delas é que hoje um leitor em papel pode ler a “imprensa popular”, opção que não tinha no passado.

Quando só havia jornais vergados ao peso de si próprios como instituições, protegidos por um mundo em que a institucionalização era garantida entre outras coisas pela censura – que eliminava o “popular” (sentimentos fortes, crime, inveja social, críticas aos poderosos, voyeurismo, violência em geral, medos, etc.) -, a “imprensa popular” não existia.

Acabada a censura e envelhecidos os modelos dos jornais “de referência” numa sociedade em mutação, em que a ascensão das massas aos consumos “culturais” se dava pela primeira vez, era natural que uma parte dos públicos forçados até então pela ausência de alternativa escolhessem. Já não tinham apenas o Diário de Notícias, ou o Diário de Lisboa, ou o Século, ou o Diário Popular, ou o Comércio do Porto, ou O Primeiro de Janeiro, mesmo com as suas nuances, mas podiam começar a comprar o Correio da Manhã e, mais tarde, a imprensa tablóide, que é uma outra variante de “imprensa popular”. No Porto, sempre tiveram essa escolha porque tinham o Jornal de Notícias, de quem se dizia que, se se espremesse o jornal, escorria sangue, e talvez por isso é que a imprensa “de referência” de Lisboa nunca tivesse tido sucesso no Porto. (Deixo por agora de parte a concorrência com a televisão e rádio quanto à novidade noticiosa e à espectacularização).

Afastada da sensibilidade “popular”, logo do público de massas, era inevitável uma perda significativa de leitores, agravada pelo aparecimento dos gratuitos. Mas a imprensa “de referência”, durante muito tempo, que era também imprensa do Estado porque pública ou semipública, continuou num caminho autista até que a privatização começou a abanar os bolsos dos “donos” da imprensa com os elevados custos de jornais que perdiam leitores e, ao perderem leitores, perdiam publicidade. Quer o Diário de Notícias, quer o Público, de modo diferente, começaram a sentir há muito esta perda e ensaiaram diferentes respostas para a contrariar, cujo sucesso depende da correcção da análise dos problemas.

O Diário de Notícias tentou tornar-se num jornal forte na economia, investindo num suplemento diário, o Público tenta conquistar os novos leitores que estão a fugir para a rede. Quer um, quer outro valorizaram o desporto e outros temas “populares” mesmo antes das reformulações realizadas, num caso e noutro muito distintas nos seus alvos. O Diário de Notícias parece ter falhado, o Público ainda é cedo para ver.

Perdendo os públicos antigos, que se deslocaram para a “imprensa popular”, colocava-se saber por que razão não se conquistavam os novos públicos. Havia sempre duas estratégias possíveis: ou tentar tornar “popular” (e “popular” e tablóide” não são a mesma coisa, porque há imprensa “popular” de qualidade, como é o caso do Correio da Manhã) o produto, como agora se diz, ou tentar roubar novos públicos a outros media que começam a crescer, em particular na juventude, ligados a outra combinação de media. Basta ver a combinação de media que os jovens consomem – jornais desportivos, revistas de moda em papel e blogues e sítios, incluindo os jornais, gratuitos em rede – para se perceber que não era tão simples como isso lá chegar, com um produto em papel. É que as novas elites numa sociedade de massas, em particular as elites com elevada educação formal, são também elas próprias um resultado da sociedade de massas, espectacularizadas, com gostos “culturais” muito mais “populares”, habituadas a uma informação mais curta, fragmentada e utilitária. Na verdade, a sociedade de consumo de massas encolheu as elites, como nós as conhecíamos do passado, e gerou elites que o são socialmente, mas que, entre outras coisas, lêem menos e lêem diferente. O retrato das elites do presente dificilmente seria considerado como sendo de elite no passado. A tradição já não é o que era.

Podemos não gostar deste mundo, mas é o que existe lá fora. Neste processo, para onde foram os leitores dos jornais? Fugiram porque os jornais não lhes interessavam, ou porque já não precisam deles e não estão dispostos a pagar caro por aquilo que tem para eles apenas um utilidade marginal. Quem sobra é uma elite de uma elite, que continua a precisar e está disposta a pagar jornais de “referência”, com a condição de que estes lhes forneçam informação de muito maior qualidade, o que, por regra, não acontece hoje. Só há uma maneira de os jornais competirem com os novos consumos mediáticos gerados pela televisão e pela rede, é serem muito diferentes do que eram no passado e serem únicos, ou seja, o que está ali não está em lado nenhum. E, mais fundamental ainda: não poder estar em nenhum outro lado.

PENSAR OS JORNAIS – 2
José Pacheco Pereira, 24 de Fevereiro de 2007

1. O exercício que se fará a seguir é o de pensar num jornal ideal a partir do que é um jornal de hoje e das possibilidades tecnológicas que o podem moldar num período de cerca de uma década. Esse jornal do próximo futuro será reconhecível como um jornal, da mesma maneira que a Gazeta de Lisboa pode ser reconhecida ainda nos dias de hoje como um jornal. Não estou a falar de qualquer coisa exótica, nem sequer revolucionária, mas de um jornal, mantendo o núcleo de identidade de um órgão diário (ou semanário) assente no acto de ler, pelo qual se obtém informações, notícias, análises, comentários, críticas sobre a realidade do mundo à nossa volta. Dentro desta definição, muita coisa pode mudar, a ênfase pode ser colocada no político, no cultural, no social, o texto pode ser factual ou de creative non-fiction, privilegiar histórias ou estórias, ter mais ou menos opinião, dirigir-se a públicos eruditos ou populares, ter causas ou não ter, etc., etc., mas todas estas modalidades cabem numa concepção comum de jornalismo.

2. Não custa muito pensar no jornal ideal, nem são necessários exercícios de futurologia ou de ficção científica. O jornal ideal que refiro será possível em meia dúzia de anos, incorporando tecnologias já existentes, mas ainda experimentais e caras. Será apenas uma questão de tempo, e pouco tempo, até este jornal existir e não será em papel, mas em “papel” electrónico. O jornal do próximo futuro poderá ter apenas uma folha dupla aberta, de plástico, do tipo dos que hoje a Plastic Logic produz, pesará cerca de 100 gramas e o texto que terá será um texto electrónico, transmitido em wireless e mudando durante o dia. O jornal poderá ter uma estrutura diária e partes que não são diárias, mas o fluxo noticioso será isso mesmo, um fluxo contínuo.

3. Um jornal deste tipo não é apenas um ecrã portátil, mas uma folha de papel electrónico com a qual se poderá fazer o mesmo que se faz hoje com o papel, menos deitá-lo fora no fim, ou usá-lo para embrulhar peixe, porque fica caro. Há apenas uma razão, para além do custo actual, para o papel electrónico não ter ainda substituído o papel: ainda há limitações técnicas na sua funcionalidade para se adaptar em pleno ao principal factor limitador das tecnologias, o corpo humano e os seus hábitos. Há certas coisas que não fazemos, ou que não é confortável fazer com os ecrãs actuais de computador e, enquanto não existir papel electrónico capaz e barato, a mutação do papel para o ecrã plástico não se fará. Quando houver, a mutação será muito rápida e o papel de impressão ficará um nicho de mercado de luxo como os relógios analógicos.

4. O jornal estará obviamente numa forma de ecrã, mas não estará preso ao computador, não será laptop, nem desktop, embora consigo vá um computador especializado e uma ligação permanente à rede. Será mais um dos múltiplos objectos que passarão a ser inteligentes porque tem um processador, software e a comunicar em rede: casas, frigoríficos, lâmpadas, roupas, automóveis, etc. Transportar-se-á como um jornal, ler-se-á como um jornal, terá a mesma resolução, ou ainda mais do que um jornal. O suporte tem de permitir o espaço que necessita um jornal, precisa de páginas e de paginação, e também aqui há considerações ergonómicas que dependem do nosso corpo, do nosso olhar. A razão pela qual o jornal ideal depende mais do papel electrónico do que de um grande ecrã, mesmo que ultrafino, é que tem de ter espaço para se espraiar e ler e portabilidade. Não cabe num telemóvel, e não cabe num ecrã de computador que não necessita na maioria das suas funções de tanto espaço como a página dupla aberta de um jornal.

O seu grafismo mudará, a partir do modelo clássico do jornal, mas incorporará o grafismo dos sítios em rede, como aliás já acontece com o grafismo da rede a influenciar o grafismo dos livros, jornais e revistas e publicidade. Posso partir do princípio de que esse jornal terá o mesmo tamanho do Público e do Diário de Notícias, cujas qualidades ergonómicas permitem que se possa ler nos mesmos sítios onde hoje se lê um jornal, no carro, na cama, numa cadeira, num autocarro. E que se possa levar debaixo do braço ou numa pasta.

5. Até aqui, o papel electrónico foi mais papel de plástico do que electrónico, mas a verdadeira revolução dos jornais virá do electrónico, ou seja, do conteúdo em linha e do hipertexto. Começa logo no facto de todas as vantagens do ecrã e da ligação em linha estarem presentes, tornando o papel vivo: os que lêem mal podem alterar o tipo de letra, os cegos podem ouvir o jornal, e nesse jornal não se lerá apenas, pode-se ouvir sons e ver filmes, pode-se procurar palavras-chave, ler artigos para que remete uma bibliografia, seguir ligações em linha na rede. O hipertexto acelera a integração de todos os fluxos digitais, numa só estrutura de “leitura”. O papel vivo pode ser lido por contacto na página, como no iPhone, ou nos ecrãs sensíveis e por isso, desde a simples função de folhear as páginas, até ao acesso aos arquivos, à sequência de notícias, a canais em directo de televisão, tudo se poderá fazer a partir de uma estrutura que será essencialmente voltada para informar, analisar, debater, como é suposto serem os jornais. Todos os actos simples que se fazem com um jornal, preencher as palavras cruzadas, responder a um anúncio, escrever uma carta à redacção, marcar um artigo e recortá-lo, deitar fora um suplemento que não se deseja, estão presentes.

6. Este jornal ideal acabará com a distinção entre o jornal em papel e o jornal em linha, mas essa mudança não se fará apenas pela hegemonia do jornal em linha, mas pela valorização de um contínuo que incorpora o mecanismo fundamental que os distingue: o hipertexto. O que está a gerar a crise do jornal de papel é a sua impossibilidade de incorporar hipertexto, ou seja, de comunicar com todos os outros fluxos de informação que um jornal em linha pode utilizar: som, vídeo, arquivo, leitura em volume típica do hipertexto propriamente dito, tempo real.
Um exemplo: um artigo sobre a actual campanha do aborto nesse jornal do futuro conterá a notícia da novidade que foi a utilização utilização dos vídeos no YouTube e conterá os vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa e do Gato Fedorento. O leitor poderá ler sobre eles e ter de imediato disponível toda a informação em que se baseia o jornalista. Quando, ao lado, estiver um artigo de crítica ou um comentário, quem o escreve terá que o fazer com muito mais rigor e precisão, com valor acrescentado, porque o leitor que o lê dispõe da mesma informação em bruto que tem o jornalista ou o crítico. No final, os textos, as análises, as fontes, os números, as opiniões, fornecem o tipo-ideal da informação: matéria prima noticiosa, mediação e opinião plural. Isto hoje só é possível num orgão de informação com o hipertexto.

O próprio conceito clássico do artigo mudará com o hipertexto. Embora este “texto” de Lawrence Lessig não seja um artigo no sentido clássico do termo, funciona como se fosse um artigo de opinião: expõe uma posição usando mecanismos que estão entre o texto, o filme, a conferência, a imagem como reforço da palavra, etc. O jornal do futuro terá artigos clássicos, e artigos deste tipo.

7. O primeiro objectivo de um jornal é informar, e um jornal em papel é um meio mais pobre para informar do que um jornal em linha. Esta é que é a chave da crise da imprensa escrita, a impossibilidade de incorporar o hipertexto. Eu próprio, ao escrever este artigo, já várias vezes tive de abandonar formas mais simples e explicativas de dizer o que quero dizer. Quando o colocar em linha, vou poder fazê-lo: incorporar imagens da Gazeta de Lisboa, do Diário de Notícias de 1945 e do papel electrónico da Plastic Logic, com ligações para os vídeos em que se percebe como se pode manipular o novo papel. Se eu colocar aqui [na edição em papel] um endereço electrónico, uma URL, ele mostrará de imediato a inadequação do meio actual: http://www.plasticlogic.com/index.php . Este “texto” não serve para ser lido como a frase anterior e não pode ser clicado. Terá que ser copiado à mão e reescrito, algo que muito poucos utilizadores intensivos da Rede farão. Eles verão o nome da companhia, Plastic Logic e colocarão o nome no Google e chegarão lá de forma que já tem muito pouco a ver com o jornal. Acima de tudo, terão que, pelo caminho, deixar o jornal de papel de lado, porque a partir daqui lhes é inútil.

8. Há também algo que tem que mudar, mas também já se percebe de modo grosseiro como tal possa acontecer: o modelo económico dos jornais, quem paga os jornais e como, para estes sobreviverem como empresas que são. Deixo de lado o facto de a edição em papel ser por si só muito cara e para, uma outra ocasião, as mudanças na produção jornalística que a “vida” do papel electrónico trará a redacções e aos jornais como organização. A aparição de produtoras de textos, reportagens, análises, de material para os jornais, será uma consequência da desadaptação de redacções muito grandes, pouco flexíveis e muito caras ao modelo do jornal do futuro. Como já existe para o audiovisual, haverá um novo mercado de “textos” (e de imagens, vídeos, sons, etc.) dando uma outra dimensão ao jornalismo freelancer e será um caminho que pode mudar o tamanho gigantesco que atingiram as redacções, com os enormes custos associados.

Mas o modelo económico do jornal do futuro estará na Rede. Na Rede, os grandes percursores dos pagamentos em linha não foram os bancos, nem as instituições financeiras, mas os sítios pornográficos. Eles precisavam de meios fáceis, simples, seguros e quase anónimos de pagamento e desenvolveram mecanismos que depois a Amazon, a Ebay e a Paypal utilizaram. Há investigações em curso para encontrar meios fáceis (que não exijam sequer um clic suplementar) e seguros para pagamentos muito diferenciados, incluindo sistemas de “pay-per-view” quase nominais, um cêntimo por exemplo, para o consumo de todas as partes do jornal em linha, que não incorporam muito valor acrescentado. Mesmo numa Rede que tem uma cultura da gratuitidade, estes pagamentos nominais podem obter aceitação generalizada no acesso a sítios profissionais e empresariais que “vendem” um produto único e de necessidade. Uma das formas de combater a pirataria nas músicas e nos filmes foi tornar os produtos digitais muito mais baratos do que o que eram, e, com a crescente centralidade da Rede em todas as actividades, o mercado de massas será aí.

Esta mudança nos pagamentos, reflectir-se-á a prazo na publicidade e dependerá, como nas bancas, em última razão, das “vendas”, das “audiências” e dos públicos especializados. Na rede é possível fazer uma diferenciação de públicos muito mais certeira do que no jornal em papel e as formas de publicidade, que muito embrionariamente estão a surgir à volta do Google, mostram caminhos novos.

9. Será por aqui que os jornais irão e, se quiserem sobreviver, deverão pensar-se desde já no modelo do futuro mais próximo, para onde já estão, sem se aperceberem, a migrar. É por aqui que eu parto para analisar o presente, porque, utilizando-se este método de aproximação, verifica-se que muita coisa que se pode fazer desde já não está a ser feita. Ou seja, se eu tivesse de analisar como se devem mudar os jornais actuais, em particular os que pretendem manter o estatuto “de referência”, eu pensava-os essencialmente a partir da pergunta: o que é que eu posso fazer desde já na combinação jornal de papel com versão em linha, para os fundir cada vez mais, aproveitando as vantagens de cada um dos meios e tentando minimizar as desvantagens que existem em cada um deles. Uma coisa eu não faria de certeza: era pensar os jornais em papel para “competir” com os meios electrónicos, jornais em linha, sítios e blogues, pela simples razão de que essa competição está perdida a prazo. Eles têm hipertexto, o papel não tem. Ponto final, por aí não há competição.

(No artigo seguinte farei a aplicação deste modelo: como é que desde já os jornais em papel – em complemento com a versão em linha, que quase todos têm – podem evoluir para maximizar tudo o que os aproxima deste jornal do futuro. É muito mais do que se pensa, e mudará profundamente a organização, métodos de trabalho, preparação, o “tempo e o modo” dos jornalistas. Mas continuará a ser jornalismo.)


PENSAR OS JORNAIS – 3
José Pacheco Pereira, 3 de Março de 2007


Embora não haja receitas milagrosas e a actual situação da chamada “imprensa de referência” em Portugal seja má por razões comuns a toda a imprensa deste tipo e por problemas portugueses, essencialmente ligados à pequena dimensão do mercado, é possível identificar caminhos que, a serem seguidos, melhorariam a situação. À partida, o problema fundamental para se avançar neste caminho é que os jornais já existem e foram criados para outro modelo, com redacções tradicionais que muito dificilmente se alteram sem mudanças drásticas. Seria muito mais simples começar de novo, do zero, criando um novo tipo de jornal de “referência” de raiz, um modelo cuja hibridez se devesse apenas às impossibilidades tecnológicas do presente e não à necessidade de manter o tamanho e composição das redacções actuais. O problema dos jornais actualmente existentes, caso do Público e do Diário de Notícias, é que, devido ao lastro do passado, tem todos os problemas genéricos da crise da imprensa em papel e mais os que advêm da enorme dificuldade de se adaptarem para a transição, para os anos de espera entre o papel e o papel electrónico.

Por isso, parece-me uma solução segura e certa, e, no caso português de escasso mercado, ainda mais segura e certa, que os jornais de “referência” têm de ser muito mais pequenos, mais compactos, mais especializados, menos generalistas, comunicando de forma próxima com outros media, como a televisão e a rede, explorando todas as sinergias, com um conteúdo com identidade própria, resultado de um trabalho jornalístico único. Serão mais parecidos com os semanários e bastante diferentes entre si. Não podem contar com públicos de muitas dezenas de milhares (em Portugal), mas têm de ter uma relação económica sustentável com públicos mais escassos, mas muito mais influentes em toda a sociedade e que estão dispostos a pagar mais. Essa influência trará publicidade, mais do que a “audiência” da venda em banca, mas exige padrões muito qualificados de jornalismo. É como se, mal comparado, se abandonasse a tentativa de fazer televisão generalista para fazer um canal por cabo, a SIC Notícias por exemplo.

Um dos obstáculos a que isto aconteça encontra-se nos próprios jornais actuais, com redacções muito grandes, com vícios territoriais, com dificuldades em ter verdadeira edição sem prémio nem sanção, sem controlos internos, renitentes à verificação de qualidade. Em redacções deste tipo, as restrições de custos têm efeitos devastadores na quebra de qualidade porque o dinamismo é escasso à partida. Do mesmo modo, a introdução de critérios de exigência internos (como se verifica já hoje com a actuação dos provedores) gera grande conflitualidade. Tamanho e mediocridade sempre foram mortíferos para jornais que se pretendem de “referência”, só que agora são factores decisivos de sobrevivência.
Hoje, um jornal vive numa ecologia muito mais crítica e num escrutínio permanente e público. Os blogues alargaram o campo comunicacional e tornaram inevitável o escrutínio da imprensa escrita, que até há uns anos não existia de todo. Mesmo quando não fornecem essa crítica de qualidade, tornaram a reflexão sobre os jornais inevitável e inescapável. Tornaram difícil manter os jornalistas resguardados num mundo próprio, vivendo em grupo, e “pensando” em grupo, em pack, falando quase que exclusivamente uns com os outros, reagindo corporativamente a todas as críticas, exibindo nos jornais, sem sanção, a sua falta de experiência, de formação e, acima de tudo, de imaginação, deixando o mundo correr ao seu lado sem o ver, repetindo de jornal para jornal, as mesmas notícias, as mesmas palavras, a mesma maneira de ver as coisas, uma casuística superficial que só tem paralelo em Portugal com o mundo político, que é aquele que cada vez é mais próximo do dos jornais e vice-versa.

Há excepções, e é tão má a regra que essas excepções brilham de evidência. Matérias como a Europa, Timor, sondagens, corrupção, são exemplos de casos em que há jornalistas altamente qualificados nos jornais portugueses e que têm um grau de especialização que não se compadece com exercícios amadorísticos num jornal de “referência”. O grau de exigência subiu e muito e a competição com os novos media valoriza a especificidade da escrita, da reportagem, da investigação, que sobrevivem bem em papel, muito melhor do que as notícias em tempo real. São jornalistas que conhecem as suas matérias, lêem o que se publica sobre elas, artigos e livros, conhecem os protagonistas, têm fontes altamente colocadas, e, quando escrevem, tem autoridade. Um jornal “de referência” só sobrevive se assentar neste tipo de jornalistas. Eles é que são o penhor da “referência” e é com eles que se pode construir uma redacção compacta, que possa ser um centro de tratamento e edição de informação, que actua organizando, procurando, editando e “escrevendo” a partir de muitos inputs do exterior, quer sobre a forma de contribuições externas (não há razão nenhuma para se utilizarem crescentemente “produções” externas, como acontece nas televisões) quer usando os novos recursos daquilo que é chamado “jornalismo dos cidadãos”.

O que esta redacção compacta deve fazer é moldar o fluxo de informação ao trabalho de mediação típico do jornalista e à identidade do jornal, mas cada vez mais é suposto que o facto de trabalharem para o “papel” não deve esquecer que o “papel” e o jornal em linha não devem ser apenas complementares, mas pensados em conjunto como um único produto. Por exemplo, parece-me um erro quer menosprezar a edição em linha quer assentar a edição em linha na edição em papel. É a edição em linha que tem futuro, não a de papel, e o fluxo de informação é o mais importante “material” de qualquer órgão de comunicação.

Hoje, esse fluxo tende a ter actualidade, e “tempo real” apenas na rádio, na televisão e na rede. Mas as “sinergias” de que muito se fala hoje para os modelos de negócio na comunicação deviam ser em primeiro lugar sinergias de informação porque a prazo, rádio, televisão, rede e papel esbaterão as distinções entre meios especializados. Jornalistas com os novos meios digitais ao seu dispor podem gravar, filmar e fotografar. E o jornal deve poder utilizar toda a massa de informação que obtenha, colocando em linha toda a que não servir para colocar no papel, ou aquela que não pode ser colocada em papel. Desde já.

Um exemplo recente mostra como as redacções de hoje não actuam no sentido de maximizar os instrumentos que tem ao seu dispor, valorizando ao mesmo tempo a edição em linha e a de papel. Esse exemplo é o do terramoto de há dias, um caso típico de um evento inesperado, uma notícia em estado puro. Ocorrido o terramoto, que ainda por cima não é um facto privado, um jornal devia de imediato começar a conduzir toda a informação em linha, criando um foco de interesse, de “leitura”, que corresponda a uma necessidade real de informação por parte do público. O efeito do “directo” é muito poderoso e de imediato começam a aparecer testemunhos e, se as houver, imagens e filmes. Esse material pode de imediato ser sujeito a uma edição rápida e conforme a sua natureza colocado em linha. A massa de informação obtida das pessoas (e neste sentido os testemunhos editados podem ser considerados peças de “jornalismo de cidadão”), aliada ao trabalho da redacção em obter informação qualificada, de especialistas em sismologia, técnicos e responsáveis pela protecção civil, permite um trabalho muito mais qualificado e economias de escala. Isto significa uma redacção a mover-se à velocidade dos eventos, com equipas em linha e outras a preparar a edição em papel, acompanhando o trabalho em linha, que pode identificar com muito mais rigor as deficiências da prevenção (telefones de emergência que não são atendidos como deviam, sítios na Rede que vão abaixo, ignorância de bombeiros quanto ao que fazerem, pânico dos responsáveis, falta de treino, etc,) Isto significa também, como é óbvio que o trabalho num jornal dura 24 horas e que a tendência para se fecharem os jornais cada vez mais cedo, os prejudica gravemente.

Muito mais poderia ser dito, seguindo o modelo de tentar aproximar o mais possível o jornal de hoje das tendências de futuro que já podem ser identificadas, mas não cabe aqui. Reconheço que há outras maneiras de colocar a questão, mas trata-se apenas de um exercício de análise, nada mais. A realidade é sempre muito mais complicada.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.