Feridas de guerra II

O conflito entre a Estónia e a Rússia, a propósito da remoção dos monumentos ao Exército Vermelho naquele país, tem uma dupla dimensão.

Por um lado é bilateral: a Estónia (como a Letónia) tem, desde a independência, discriminado a sua numerosa população russófona, e a remoção dos monumentos aos vencedores da II Guerra é mais uma ofensa que lhe fazem.

Por outro tem implicações à escala europeia: levantar monumentos aos estónios que lutaram ao lado das SS e chamar-lhes patriotas, remover outros monumentos ao Exército Vermelho e criminalizar, como alguns pretendem, o uso da foice e martelo, equivale a proceder a uma releitura da história que põe em causa o consenso político em que assenta todo o pós-guerra europeu, do Atlântico aos Urais.

Esse consenso é o do anti-fascismo e, segundo ele, a fronteira entre o admissível e não-admissível, politicamente falando, situa-se entre quem esteve ao lado e quem combateu o nazi-fascismo e o mal absoluto que ele incarnou. Foi sobre esse consenso que nasceram, nomeadamente, a República Italiana e as IV e V Repúblicas francesas, e foi ele que tornou legítima a direita republicana gaullista mas não a de inspiração maurrasiana, por exemplo; na generalidade da Europa ocidental, nem os rigores da Guerra Fria permitiram excluir a presença de quantos se reivindicavam dessa mesma foice e martelo que tira o sono aos novos dirigentes da Estónia da grande aliança anti-fascista, que o seu papel nas diferentes resistências nacionais conquistou; e até em Portugal, mais tarde (como quase sempre) e “mudando-se o que deve ser mudado”, o mesmo princípio se aplica – porque o sentido do movimento histórico foi também o mesmo.

Os novos Estados Bálticos, como outros países da Europa central e de leste, é que estão em sentido contrário a esse movimento e querem fundar um outro consenso histórico europeu, assente antes num princípio anti-comunista ou pelo menos ”anti-totalitário”. Esses “novos europeus” fazem tábua rasa da cultura política do último meio século da história da Europa Ocidental; ignoram o carácter fundador do anti-fascismo na criação de muitos dos seus actuais regimes; e julgam que o status quo do pós-guerra pode ser simplesmente varrido da história europeia pelo recurso à artilharia ideológica da “Guerra Fria tardia” e ao revisionismo histórico dos anos 80, com Nolte e Furet à cabeça. Não há consenso possível com eles.

PS Uma velha recensão de Gopal Balakrishnan – autor, entre outras coisas, de uma muito recomendável “biografia intelectual” de Carl Schmitt, “The Enemy” – ao trabalho de Martin Matustik sobre Habermas, que aborda justamente a sua intervenção contra Ernst Nolte na Historikerstreit dos anos 80, pode ser encontrada aqui; uma interessante entrevista de Domenico Losurdo (autor de “Le révisionnisme en histoire”, que é provavelmente, a par de “Les anti-Lumières” de Zeev Sternhell, uma das mais fundamentadas críticas do moderno revisionismo histórico franco-alemão), pode encontrar-se aqui; ainda aqui, mais informações sobre Nolte, com alguns links interessantes.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

21 Responses to Feridas de guerra II

  1. Pingback: cinco dias » O antigo consenso

  2. Pingback: cinco dias » Ferida aberta

Os comentários estão fechados.