O Portugal moderno, o Portugal antigo e o Portugal de sempre

Eu bem tinha dito que lhes passava.

Na noite de dia 11, com a coisa ainda quente, foi deitar a bílis toda cá para fora. Nos blogues mais trauliteiros, como “O Insurgente” ou o “Blogue do Não“, comparou-se o 11 de Fevereiro em Portugal com o 11 de Março em Madrid e o 11 de Setembro em NYC, e só faltou pedir que se dissolvesse o povo.

Mas enquanto isso, gente menos sanguínea e mais cerebral ia preparando uma saída honrosa, para que se percebesse que, afinal, e não obstante todas as provas em contrário, nem uns tinham ganho tanto como parecia, nem outros tinham perdido tanto como se dizia.

De entre esta, um dos mais assinalados foi Luciano Amaral. Logo num post premonitório, afixado no “31 da Armada”, ironizava com os 90% do “sim” em Aljustrel: é este o “Portugal moderno” que dizem que ganhou? A observação podia não valer nada (e não valia, claro), mas deu o mote a outro pensador (Rui Ramos) e a uma semi-pensadora, de tipo intermitente (Constança Cunha e Sá), que trataram de amplificá-la em artigos de opinião (sem links porque saíram no “Público”) nos dias seguintes: o voto no “não” foi tão “moderno” (isto é, jovem e urbano) como o voto no “sim”, portanto ficámos todos empatados.

Mas Luciano Amaral não se ficou por aí, e num notável artigo publicado no “DN” de 22 de Fevereiro, tentou mesmo demonstrar que o “sim”, mais do que representar também o “Portugal antigo”, o que representa mesmo é o “Portugal de sempre” – essa categoria antropológica decadentista, inventada pela Geração de 70, de valor explicativo mais do que duvidoso mas que quase toda a gente invoca pelo menos uma vez na vida, quando esbarra, impotente e sem esperança, na incompetência do Estado e na indigência da sociedade.

Luciano Amaral começa por contar um divertido caso de costumes, cuja relação com a despenalização do aborto é pelo menos ténue e em que a personagem principal é o Major Valentim Loureiro – o qual, ficamos a saber, é pai de filhos fora do casamento cuja existência revelou entretanto à legítima esposa, que por sua vez é irmã de uma outra senhora nas mesmas condições, sendo que as duas, seja por temor do escândalo, amor aos maridos, ou até, quem sabe, genuína bondade cristã, se dispuseram a aceitar a situação, que antes já era do conhecimento de toda a Gondomar menos elas, e agora até vem nos jornais (Luciano Amaral encontrou-a no “24 Horas”).

Sucede que Luciano Amaral não conta esta história “de borla”, por assim dizer; ele conta-a para provar a sua tese de que, no referendo, não houve vencidos nem vencedores (que é uma tese típica de vencidos, evidentemente). A sua lógica é silogística: as desventuras conjugais de Valentim Loureiro, que remetem para Camilo ou, mais remotamente, para a tradição do picaresco ibérico, representam em qualquer caso, para o leitor português um pouco mais “moderno”, um evidente arcaísmo; ora, como Luciano Amaral não deixa de nos lembrar, o Major apoiou o “sim”; logo, a vitória do “sim” é também a vitória dele, de gente como ele, de valores sociais e familiares semelhantes aos dele. O caso anedótico vale assim como explicação geral e quem julgava que tinha chegado ao século XXI aterrou afinal e por engano no Portugal de sempre.

O problema desta história, como dos silogismos em geral, está no seu carácter reversível: a tese que ela pretende provar, de que Valentim Loureiro incarna os valores do “sim”, é um disparate, foi Luciano Amaral que a escreveu, logo, Luciano Amaral só escreve disparates… O que vale é que eu não sou dado a silogismos – e que o Portugal moderno ganhou mesmo o referendo.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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10 respostas a O Portugal moderno, o Portugal antigo e o Portugal de sempre

  1. pedro oliveira diz:

    Todos os que votámos Sim, ficámos satisfeitos porque, na verdade representa uma viragem histórica na mentalidade dos Portugueses.
    O resto é música de vencidos, que ainda gostariam de ver as mulheres Portuguesas de “bigode” e em casa a tomar conta da casa, do marido e dos filhos.

    Pedro Oliveira
    vilaforte.blog.com

  2. kane diz:

    Nota-se que a vitória do SIM provocou uma digestão difícil! Não só na Igreja. Por pouco que Valentim Loureiro não foi um dos grandes vencedores no referendo…

  3. fbarragao diz:

    Por acaso, gostei dessa. Uma “viragem histórica na mentalidade dos Portugueses”. Por que razão? Porque deixámos de ser “queixinhas” face a algo que nenhuma pessoa bem formada faz? Eu não iria por aí. De resto, dado que resido numa vila pequena, sei bem que a coscuvilhice e a maledicência jamais cessarão neste país. Podem não querer a mulher na prisão, mas resta saber se não dão cabo dela por detrás das costas.
    Já agora: a mulher enquanto dona de casa foi sempre uma velha pecha para as feministas, mas isso não significa que não haja feministas pró-vida. Mas, claro, cá não se liga a isso.
    Digo e reafirmo: o suposto “direito” a eliminar outrem não existe naturalmente. Só inventado numa lei tonta e amoral como a que foi aprovada agora é que ele passa a ser reconhecido como tal. Por mim, continuarei com a minha vida, já que outros não vão saber o que isso é. Que abortem à saciedade, pois. Agora, os meus princípios não estão à venda. Que fique claro. Quando diminuirmos a sério em termos demográficos, saberemos a quem agradecer.

    Por fim, uma palavra de apreço: sendo eu um direitista convicto e empedernido, apraz-me confessar que o 5dias é o único blogue que leio voluntariamente e com gosto todos os dias. Continuem o bom trabalho, que eu voltarei para chatear ;))

    Cordialmente,
    Fernando Barragão.

  4. pedro oliveira diz:

    Viragem de mentalidade, basta ver os resultados de 98 e 2007. Não se trata de “queixinhas”, trata-se de dar à mulher e já agora ao homem, a possibilidade de decidirem o que fazer, sem ter na mente que pode, a mulher, ir parar à prisão.
    Também vivo numa pequena vila, e sei do que fala, mas não foi por causa disso que votei SIM.
    Qual a relação entre aborto até às 10 semanas e envelhecimento das sociedades?Olhe que a França está com um babyboom.

    um abraço,

    Pedro Oliveira
    vilaforte.blog.com

  5. Jean diz:

    Não deixa de ser fantástico que existem pessoas que mesmo perante uma derrota total conseguem arranjar argumentos, mesmo que por debaixo da mesa e erróneos, para justificar a sua vitória! Com a maior cara de pau, dizem que a derrota que todos vêem é na realidade uma vitória.
    Porque é que estas pessoas não se calam, faziam melhor figura.

  6. fbarragao diz:

    Caríssimo Pedro,

    Vejo com agrado que não anda a dormir na formatura. Isso é positivo.

    É bem verdade que os resultados de 98 e 2007 são bem distintos. Agora, quantas pessoas é que terão mudado de opinião entretanto? Algumas, decerto, mas não terá sido a maré que se supôe. De resto, vários dos jovens que foram votar este ano não podiam fazê-lo em 98 – eu, p. ex., que tinha 16 anitos à época. Isso pesa na votação, e seria um erro ignorá-lo.
    Depois, há que considerar a motivação de cada um para votar como votou. Mencionei acima a questão demográfica, mas não foi o ponto determinante.
    Primeiro: o que é abortado é uma vida humana. Isto é sabido. Se é ou não uma pessoa, fica para outro dia. Lamentavelmente, houve quem, do lado do Sim, insinuasse que “aquilo” não era bem, bem, bem humano. Com gente desta é inútil debater em condições.
    Segundo: se é de uma vida humana que se trata, a coisa não deve ser encarada levianamente. Que causas, necessariamente de força maior, devem ser tidas em conta ne decisão? As costumeiras: nenhuma mãe deve ser forçada a sacrificar-se para que a criança nasça, pois a sua vida também está em jogo e sobre isso todos somos soberanos; o trauma causado por violação pode ser demasiado para que se equacione a hipótese de ter um filho gerado naquelas condições (embora a prioridade seja combater o trauma psicológico, e só depois pensar no destino a dar ao feto); malformações graves, de carácter teratológico, são uma causa aceitável, até porque podem fazer perigar a saúde ou a vida da mãe.
    Terceiro: o que sobra? Razões socio-económicas cheiram-me a esturro. “Tadinhas das pobrezinhas” e restante fado da desgraçadinha. Tenho sérias dúvidas, mas inclino-me para a desaprovação. Outras causas são disparatadas: porque é muito nova, porque é muito velha, porque a família pressionou, porque me apetece… Isto é quase monstruoso. Por isso é que escrevi: gente bem formada não aborta – sobretudo com estas desculpas de mau pagador.
    Aceito que a prisão escandalize muitos. Creio que foi por aí que o Sim ganhou. Insisto: por que é que não se discutiram a sério alternativas viáveis como o famoso trabalho comunitário ou uma coima? É porque teríamos ainda julgamentos? Mas se vamos continuar a tê-los, e a “humilhação” de algumas que (perdoe-me a sinceridade) não têm vergonha na cara vai continuar, porquê festejar dessa forma?

    Como já deixei claro (assim o espero), o aborto não é algo que, pela sua natureza, deva ser deixado exclusivamente ao critério de quem o pretende fazer. Pelo contrário: o feto, devido à sua fragilidade, merece um mínimo de protecção contra a vontade discricionária da grávida. (Se nós, homens, pudéssemos engravidar, diria o mesmo, acredite.) A lei que tínhamos garantia essa protecção; a nova retira-a por completo até às 10 semanas. O livre-arbítrio que invocou deve ter como limite os direitos do nosso semelhante; o aborto desrespeita-os. Quer o direito à vida (que existe), quer o direito à liberdade de escolha que a criança nascida exercerá no futuro, e que deve ser salvaguardado no presente.

    Já agora: o baby-boom “francês” é sobretudo dos magrebinos que lá vivem. Eles ainda levam a gravidez e o nascimento a sério. Nós, nem por isso. Também por isso se fala no efeito Roe nos EUA: os pró-vida têm filhos, os pró-escolha abortam-nos, logo, a base eleitoral pró-vida cresce e a pró-escolha mirra.

    Assim se vê que o Portugal “moderno” que muitos apregoam é, no fundo, um país mais cruel e, vendo bem, menos decente do que se pode pensar. Há mais liberdade de escolha? Há. Todas valem o mesmo? Nem por sombras. Reitero: dia 11, perdi (e não o nego). Só que o País também ficou mais pobre – e levará longos anos a percebê-lo.

    Cordialmente,
    Fernando Barragão.

  7. António Figueira diz:

    Caro Fernando Barragão,
    Esta discussão está um bocadinho fora de prazo, mas permita-me só três comentários:
    1 – Todo o seu raciocínio assenta num pressuposto que me parece duplamente falso: que antes da despenalização não havia abortos em Portugal, ou havia muito poucos, e que depois vai haver muitos mais;
    2 – há de facto um pequeno babyboom em França (como em vários países da Europa do Norte, de resto), que não se deve só nem sequer principalmente aos magrebinos “que levam a gravidez e o nascimento mais a sério” (leia-se: que têm muito menos autonomia pessoal em matéria sexual e reprodutiva e estão muito mais condicionados pela pressão do meio familiar e social); muito mais do que a legislação sobre a IVG (que é liberal em quase todo o lado), o que condiciona a natalidade dos diferentes países europeus são as perspectivas económicas das famílias e/ou as condições oferecidas às jovens mães – razão pela qual hoje a natalidade francesa é superior à portuguesa ou a sueca é muito superior à italiana; como nós somos o primeiro mundo do terceiro ou o terceiro do primeiro – é à escolha – as mulheres portuguesas (como as espanholas ou as italianas, que apresentam taxas de natalidade semelhantes) já têm autonomia pessoal bastante para controlarem os seus nascimentos, mas não têm ainda Estados ricos e clarividentes que os incentivem;
    3 – com o devido respeito, se V. acredita num embuste como o “Roe effect”, também é capaz de acreditar na “Bell curve” ou noutra patacoada pseudo-científica semelhante…
    Cordialmente, AF

  8. pedro oliveira diz:

    Bons dias ao Fernando Barragão e ao António Figueira,

    É evidente que este tema está fora de “época”, mas as boas conversas são assim mesmo, em qualquer altura e lugar.

    A minha “resposta” ao caríssimo Fernando, está incluida nos pontos 1 e 2 do texto escrito pelo caríssimo António.

    um abraço aos dois e “vemo-nos” por aí na blogosfera,

    Pedro Oliveira
    vilaforte.blog.com

  9. fbarragao diz:

    Caro António,

    Lamento sinceramente se dei a impressão de ignorar a “era do desmancho” do Portugal de há uns tempos atrás. De facto, estou tão ciente disso como qualquer outra pessoa, seja ela pró-vida ou pró-escolha.
    A questão é outra: deve o aborto, enquanto prática (que tem a finalidade que sabemos), ser incentivada? Creio que não. De resto, onde estão agora esses numerosos militantes do Sim que diziam achar que o aborto era um drama, mas também um mal menor? Aliás, reporto-me ao seu próprio exemplo de gente que gera uma vida após uma noite louca regada a álcool. Acha bem que se dêem abébias a criaturas dessas? Sei bem que nem todos os casos que conduzem a abortos vêm nessa linha. Só que a nova lei trata as duas situações por igual – com a agravante de, em caso de pressão familiar, o médico jamais desconfiar da motivação extra que subjaz à assinatura no termo de responsabilidade.
    Quanto à autonomia pessoal: deve existir, claro. Sobre terceiros é que se torna mais difícil justificar essa aspiração ao livre-arbítrio. O aborto prejudica a autonomia de terceiros. Não me parece, portanto, que a autonomia seja um bom argumento para isto.
    Claro que deveríamos pensar em quantos filhos queremos ter – antes da concepção, não depois. Não foi contra os casos dramáticos que votei Não, mas antes contra aquelas que diziam ter um “problema” – leia-se, um filho ainda não nascido. Aquelas que dizem: “Não queria o bebé, é simples”. É o carácter descartável atribuído à vida humana intra-uterina que me choca, só isso. E não nos iludamos: as que mais ganharam com a nova lei foram estas mulheres, não as outras.

    Concordo que os magrebinos ainda têm uma concepção das relações humanas, sexuais e afectivas em particular, muito limitada. Será que isso justifica cairmos no extremo oposto? já crescemos um bocadinho desde Woodstock, e a melhor forma de dispensarmos o senhor guarda é mandarmos nos nossos instintos, evitando que estes mandem em nós. Eles reprimem em demasia; nós permitimos em demasia. Soa cruel, eu sei, mas os efeitos práticos são ainda mais cruéis.

    Poderemos enterrar a conversa do Roe effect a seu bel-prazer. Agora, que precisamos de gente, já deu para ver. Curioso como a clarividência que põe o Estado a financiar políticas de natalidade não funciona contra políticas anti-natalistas. Aí, no entanto, poderemos agora descobrir soluções à nossa custa.

    Sei que, ao escrever, dou a impressão de me recusar a adaptar à nova lei. Descanse: já sobrevivi a abalos maiores na minha vida. Apenas me entristece ver que os meus esforços para ser um cidadão mais impoluto e virtuoso sejam comparados, na prática, aos de gente que faz valer interesses mesquinhos sem se importarem com quem espezinham no caminho. Resolver o “problema”, lembra-se?

    De qualquer forma, creio que posso ficar por aqui. Afinal, essa gente também não pode mandar na minha vida. E, se um dia me fartar de polemizar com nível, como aconteceu aqui, Dublin é já ali ao lado 😉

    Cordialmente, e na esperança de mais temas interessantes para debate,

    Fernando Barragão.

  10. António Figueira diz:

    Caro Fernando,
    Eu despachava-me a ir até Dublin, porque já não dou muito por aquilo…
    Bom fim-de-semana, AF

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