Feridas de guerra

Enquanto Prodi se demitia e era renomeado, uma outra notícia envolvendo a Itália ia ficando na sombra: a do conflito diplomático com a Croácia, originado pelas observações do Presidente Napolitano a propósito da limpeza étnica de que foram vítimas os italianos da ex-Jugoslávia no fim da II Guerra Mundial.

A Itália tem sido inábil na forma como tem suscitado esta questão.

Parece certo que a pretendida limpeza étnica existiu mesmo, como também existiu na mesma altura contra alemães em toda a Europa Central e Oriental.

A Alemanha e a Itália suportaram a correcção das suas fronteiras no pós-guerra, e calaram aquilo que sabiam ser violências contra os seus nacionais fora do seu território, porque enquanto vencidas não podiam fazer outra coisa e porque arcavam com uma responsabilidade muito maior: a de terem despoletado a guerra mundial de que aquelas limpezas étnicas, terríveis que tenham sido, foram apenas episódios menores e de terem sido causadoras de violências em muito maior escala.

A Alemanha – honra lhe seja feita – mesmo depois da reunificação, nunca caíu na tentação do revanchismo, não obstante a pressão exercida pelo lobby dos “espoliados” dos Sudetas e dos territórios a leste da linha Oder-Neisse.

A Itália primeiro também calou – e o próprio Giorgio Napolitano, nos seus anos de PCI, não consta que alguma vez tenha pedido contas aos vizinhos jugoslavos.

A mudança deu-se quando a Jugoslávia acabou e os seus Estados sucessores (nomeadamente a Croácia e a Eslovénia, onde residia sobretudo a minoria italiana) pretenderam aderir à UE.

Pressionado pela Aliança Nacional, de Fini, e julgando estar agora numa posição de força face aos seus vizinhos, os governos de Berlusconi decidiram, para efeitos de consumo político interno, pedir à Croácia e à Eslovénia desculpas pelos crimes do passado e garantias acrescidas para as minorias italianas que permaneceram nesses países.

Mas não só Berlusconi: d’Alema e agora Napolitano alinham pelo mesmo diapasão.

Parece evidente que, hoje, o eventual irredentismo italiano não preocupa ninguém e – digamo-lo francamente – as reivindicações italianas não assustam como assustariam reivindicações semelhantes por parte da Alemanha. Mas uma coisa fica à vista: a insinceridade do arrependimento histórico da Itália, em relação aos crimes cometidos pelo regime fascista nos balcãs, que só durou enquanto a relação de forças com os seus vizinhos eslavos do leste lhe foi desfavorável.

Frágil fundação para a Europa política de que Prodi tem a boca cheia…

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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Uma resposta a Feridas de guerra

  1. pedro oliveira diz:

    Foi aí que começaram a 1ª e a 2ª guerra mundial. Os nacionalismos têm de ser controlados, e o papel da UE é fundamental, e que os países dessa região “entrem” todos na União o mais rápido possivel.
    Excelente post.

    Pedro Oliveira
    vilaforte.blog.com

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