Polémicas italianas

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Peço imensa desculpa, mas depois de ter lido o texto do Daniel Oliveira não concordo com quase tudo. A questão do poder não se resume à questão do governo. A participação de uma força política anti-neoliberal num governo de centro-esquerda tem de ser vista no concreto, mas não pode significar que se abdique do programa, das bandeiras, das ideias, da oposição à guerra para entrar no governo. Está-se no governo para mudar as coisas, não se está no governo para ser mudado por ele. Acho, aliás, que os princípios não são cómodos, são princípios, e como o nome indica não servem para negociar. A frase do Daniel, sobre isso, parece-me manifestamente infeliz. Quando escreve: “Não vale a pena ficar no confortável plano dos princípios”, inverte, no meu entender, o ónus da questão. Ao limite, faz parecer que ir para o governo, ganhando alguns lugares, em troca de abdicar do programa é uma afirmação de coragem. Estou de acordo que é fundamental impedir o acesso ao governo à direita de Berlusconi, mas para isso não é necessário ir para o governo, bastava um acordo de incidência parlamentar.
Durante o primeiro Fórum Social Europeu, Bertinotti divulgou um conjunto de teses (infelizmente só encontrei este texto anterior do autor sobre o assunto) para refundar a esquerda europeia. Aí se dizia que era necessário que a esquerda partidária construísse uma relação de simbiose com os movimentos sociais, incorporasse a pluralidade das agendas dos novos actores sociais, colocasse a questão da paz como questão nuclear e adquirisse que a Europa era um espaço com um tamanho mínimo para a transformação. Acho que estas teses eram globalmente correctas, e, sobretudo, que o seu tempo não se esgotou. Penso que durante anos, a esquerda deve bater-se por mudar o mundo, mesmo sem estar no poder e deve evitar estar no governo, se isso significar mudar-se para que tudo fique na mesma.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 respostas a Polémicas italianas

  1. l diz:

    Desde que o Daniel defendeu enfaticamente, na televisão, pelo menos por duas vezes, o – e cito – «direito à hipocrisia», que pareceu-me ocorrer naquela cabeça alguns devaneios preocupantes.

  2. João diz:

    Penso que o Daniel está como o LR que classifica num post aqui em cima de caduco o sonho de um militante comunista a um mundo mais igualitário.
    O Daniel terá certamente que abdicar de alguns princípios para manter o lugar no grupo comunicacional em que dá largas à sua prosa.

    Se isto é o bloco. Estamos conversados…
    E eu que começava a achar-vos piada…

  3. João diz:

    O texto do Daniel deixou-me de rastos…
    E eu que pensava que o bloco tinha ideias e não tácticas…

  4. a.pacheco diz:

    Julgo que o Daniel Oliveira, pensa pela sua cabeça, e no seu Blogue tem todo o direito de expôr os seus pontos de vista, as sua dúvidas e as sua precupações, tentar misturar isto com o que seriam as posições do Bloco no seu todo, é não entender o que são partidos plurais, onde não há censura ás opiniões individuais.

    Aliás a politica italiana, é um microcosmos muito sui-generis, e se calhar muitos comentadores têm enorme dificuldade de a entenderem.

    Participar em governos, sem ficar claro as linhas mestras da sua politica, pode levar a pôr em causa os principios que levaram á criação de um determinado partido.

    E se para manter uma coligação, essa força politica tiver por pragmatismo de abdicar de sua matriz criadora, então com essa atitude assinará a sua sentença de morte.

    Os partidos criam-se á volta de ideiais, e de projectos , e todos os partidos aspiram a ser governo para porem em pratica as suas ideias .

    Agora se para ser governo, é necessário adbicar dos principios, então realmente mais vale fecharem a tenda.

    O problema da Italia ainda vai levar a uma discussão entre o que é ser pragmatico, e o que é ser oportunista disposto ao abandono dos principios, e ao consequente apoio a politicas que se condenam.

    Da resposta a essas questões se verá a real fronteira entre os que defendem o pragmatismo, necessário a todos os partidos politicos, e o OPORTUNISMO daqueles que estão disposto a ser poder e a manter-se nele a qualquer preço.

  5. João diz:

    Caro a.pacheco o problema não é misturar as ideias do Daniel com as do Bloco. A simpatia que, apesar de tudo, sinto pelo bloco marcharia pelo ralo da minha indiferença.

    O problema é que um destacado dirigente do bloco afirma que os “princípios” não são para levar a sério.

    Se para estar no governo se tem que fazer aquilo que aos outros criticamos, então assumam-se os custos de estar eternamente na oposição.

    vendermos as ideias em troco de uns lugares no poder sem que neles apliquemos os nossos princípios parece-me um preço demasiado alto…

    ficamos talvez então com as propostas fracturantes que nada mudam no essencial…
    Quem pode dormir com quem? e pouco mais….

    Desilusão grande a de hoje…
    nem do daniel eu esperava tanto… ou tão pouco…

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    João,
    Não exageres, o texto do Daniel problematizava questões importantes e difíceis de resolver. Era, aliás, um texto mais dubitativo do que afirmativo. Eu não concordo com alguns dos considerandos, mas não creio que o Daniel estivesse a propor vender a esquerda ao desbarato. Acho essa conclusão injusta. O Daniel quando acabou a “Plataforma de Esquerda” foi dos dirigentes que defendeu um caminho alternativo da esquerda e não uma ida para o PS, como defendeu e executou o Pina Moura.

  7. João diz:

    Não ponho no mesmo saco o Pina Moura e o Daniel. Que fique claro.
    O Joaquim Pina Moura levou, como tantos outros, o pragmatismo até para lá do oportunismo.

    Considero, também por isso, muito perigosos alguns caminhos do “pragmatismo”.

    Dos princípios não se abdica.
    Não considero que estar no poder seja algo pelo qual se deva abdicar dos princípios. Sob pena de algures no percurso já desconhecermos porque estamos, para onde vamos, em que acreditamos.

    Mas talvez esteja a interpretar mal o texto…

    Admiro

  8. a.pacheco diz:

    João ter dúvidas e questionar é um bom principio, penso que foi isso que o Daniel tentou fazer.

    A queda de Prodi pode a curto ou médio prazo fazer a direita trauliteira do Berlusconi regressar ao poder, e isso é sem dúvida uma preocupação de quem em Italia e mesmo na Europa se reclama da esquerda.

    Como conjugar isso, sem abdicar, de uma luta consequente contra o imperialismo americano e as suas aventuras.

    Como conjugar isso sem abdicar da defesa dos direitos dos trabalhadores.

    Como conjugar isso sem perder a prespectiva de lutar por uma sociedade mais igualitária.

    Como conjugar isso com um combate consequente contra o racismo, e as politicas neo-liberais.

    Etc etc .

    Muitas interrogações para tão poucas respostas.

  9. ezer diz:

    Então deveriam ler este texto do Eduardo Galeano sobre as palavras ‘pragmatismo’,’realismo’ e esses termos pipis.
    http://resistir.info/galeano/galeano_medo_global.html

    Afinal de contas,o ‘nosso’ Patrick de Barros ‘ganhou’ 1 000 milhões de Érios(10 E09 Euros) à conta de nenhum trabalho,sangue , suor e lágimas,de mais valia e essas tretas todas e,o que vejo é,mais MISÉRIA!!!!

  10. ezer diz:

    Ah,o Pina Moura ‘é que é o presidente da’ Iberdrola.POis,PS bloco de interesses.Ele há coincidências do cara****.Desculpa-me,mas já me salta a tampa com esta trampa de gente pequena e tão ávida de dinheiro,dinheirinho ,entendes?E,esta sociedade está cada vez pior,quando seria expectável haver menos pobres.

  11. João diz:

    As caixas de comentários, devidamente controladas, do blog do Daniel estão uma delicia…
    E a capacidade de debate está ao rubro.
    Estou cada vez mais esclarecido.

    Ainda bem que o ps tem maioria absoluta…
    posso continuar a iludir-me com o be.

  12. Está tudo a ser publicado. Apenas um insulto puro não o foi e duvido que seja seu.

  13. l.rodrigues diz:

    Ora, Daniel, ainda vai ser acusado de ser contra a pureza do insulto….

  14. A recente minicrise italana teve duas consequências (ao nível da blogosfera de esquerda portuguesa) que eu não esperava: fez-me concordar genericamente com o Daniel Oliveira (registo com agrado a sua evolução face a tomadas de posição anteriores sobre o mesmo assunto). E discordar frontalmente do Nuno Ramos de Almeida, que tão gentilmente me acolhe às sextas no Cinco Dias.
    Telegraficamente, o que diz então o Nuno? Concorda: “é fundamental impedir o acesso ao governo à direita de Berlusconi, mas para isso não é necessário ir para o governo, bastava um acordo de incidência parlamentar.” Tem graça que neste caso o que falhou mesmo foi o referido “acordo de incidência parlamentar”. A crise foi gerada no Senado; não teve origem no governo. E “ir para o governo, ganhando alguns lugares, em troca de abdicar do programa” não é necessariamente uma afirmação de coragem, mas também não é de oportunismo. É uma afirmação de responsabilidade: de preferir trabalhar, implementar medidas concretas e fazer o melhor que se for possível, não se limitando à posição confortável (e sem responsabilidades) da crítica no café, nas colunas de jornal ou no blogue.

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Filipe,
    Acho que a tua concepção do poder ultrapassada: o governo não deve ser a
    única fonte da política nas sociedades democráticas. Uma sociedade civil forte pode, e deve, construir hegemonias e desenvolver políticas e “governar” espaços. Não cabe à esquerda anti-neoliberal participar em políticas de governo neoliberais, mas tentar pressionar socialmente os governos e criar hegemonias sociais que permitam a construção de novas políticas. O âmbiente é um bom exemplo disso: o aquecimento global prova o falhanço do mercado e a necessidade de novas políticas públicas à escala global.
    A ideia que a acção política na sociedade não é trabalho nem significa “arregaçar as mangas” é só para quem confunde polítca com gestão do governo.
    Sobre o concreto, a moção do D’Alema era completamente imbecil. Tem no governo gente que não concorda com as tropas no Afeganistão e radicaliza a divergência.
    Para além disso, um acordo de incidência parlamentar com a esquerda não tem que incluir o Afeganistão: o governo do Prodi faz maioria com a direita a esse respeito. Agora, para haver acordo, Prodi tem que negociar. E isso exige fazer algumas cedências à esquerda. Não é possível ter um governo com a esquerda e só fazer políticas de direita, mesmo com o papão do Berlusconi.

  16. ALbino M. diz:

    Não concordo com quase… nada (eis o que o Nunito queria dizer…).
    Sorry!

  17. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Albino,
    “O não concordo com quase tudo” é propositado. A expressão que propõe é habitual, mas falta-lhe, no meu entender, lógica: se eu não concordo “com nada”: concordo com tudo. É uma espécie de dupla negação.
    Cada um tem as suas embirrações.

  18. João diz:

    Pois é… parece que o Daniel é do contra…
    É contra os votos dos radicais…
    E é contra a penalização dos radicais…

    E assim se defende o oportunismo do voto. Mas a moderação para com os radicais.

    Percebi (????) o raciocínio do Daniel, apesar de não o subscrever.
    Já não percebi o raciocínio daqueles que tanto criticaram o voto dos radicais e agora não entendem a “penalização”.

  19. João diz:

    E já agora concordo com a forma de ver o poder do Nuno. Se o bloco fosse mais Nuno do que Daniel acho que conseguía lá chegar….
    MAS como é mais DANIEL que NUNO… não consigo…

    Paciência….
    vou-me mantendo….

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