Luís Rainha: da cegueira ao ódio

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Alexey Kallima 

O André Abrantes Amaral já tinha dado umas voltas em torno do tema. Mas creio ter sido esta a primeira vez que ele deu corpo de letra, assim preto no branco, aos seus fantasmas: «vou ser claro: Ser membro do Partido Comunista é tão grave como ser membro de um partido ou organização nazi.»
Para simplificar, vou assumir que “grave”, para o nosso amigo insurgente, quer dizer mais ou menos o mesmo que para a maioria dos dicionários. Portanto, ser militante do PCP será tão mau, em termos civilizacionais e de cumplicidade com atrocidades várias, como ser membro das organizações nazis que andam por aí.
Para AAA, existe um poderoso Pecado Original a macular a alma de todos os que hoje fazem parte activa do PCP: o da cumplicidade com os crimes de Estaline e com um projecto que desaguou no totalitarismo. E esta mancha é mais desagradável e pestilenta do que a dos cúmplices do amigo Adolf, presume-se.
Ora é bom deixar claras algumas coisas: a esmagadora maioria dos militantes actuais do nosso bisonho Partido Comunista será culpada do pecado da ignorância voluntária. E pouco mais. Não vemos militantes destacados daquele partido a exigir reedições de gulags, a deportação para a tundra gelada dos capitalistas, purgas quinzenais, o extermínio do kulaks, etc. Vemos sim alguns idiotas com responsabilidades a clamar no “Avante!” que a queda da URSS foi consequência de um ataque capitalista à «mais bela das conquistas da humanidade». Isto é cegueira selectiva; não crime.
O bom AAA faz de conta (isto para não o chamar também “ignorante”) que não sabe o que são hoje os grupúsculos nazis em Portugal. Gente com fóruns onde se escrevem, para gáudio da boçal plateia, coisas como: «é a primeira vez que vejo um macaco maquilhado»; «Os pretos são mesmo feios, como é possível haver lá “misses”?!!»; «uma rapariga branca acompanhada por um preto, dar à luz uma baratita…». Que segue líderes capazes de proclamar «quero vê-los um dia no Julgamento por crimes contra a Humanidade, crimes estes contra a nossa raça e povo, e vou adorar vê-los pendurados a bailoçar por uma corda no Terreiro do Paço» e «com armas, e não são soqueiras, nem bastões de baseball que nos vão ajudar quando o inimigo sacar das armas de fogo que dispõe, aconselho os nacionalistas a comprarem armas (…) se o vosso registo criminal não o permitir, peçam em nome da vossa mulher, namorada, mãe ou pai… há sempre uma solução para tudo.»
Trata-se de malta que celebra os aniversários de Hitler, que julga viver num mundo secretamente comandado por judeus, que se quer ver livre de todos os imigrantes um pouco mais escuros, que acha que a Solução Final não foi final qb, que organiza manifestações (perfeitamente legais) seguidas de concertos de uma banda de “racial hatecore” chamada “Ódio”. Etc, etc.

AAA é tão voluntariamente cego como os comunistas que continuam saudosos da loucura burocratizada da URSS: para ele, é igual o militante comunista que se agarra ao sonho caduco de um mundo mais igualitário e o nazi que prega o ódio racial, a violência, o preconceito animalesco.
Mas olhe que há um mundo a separá-los caro AAA: uma coisa é fechar os olhos a crimes praticados há décadas, outra bem diversa é lutar para os repetir o mais depressa possível.

Luís Rainha 

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 respostas a Luís Rainha: da cegueira ao ódio

  1. João diz:

    Concordo com a generalidade do que tu dizes.
    Até concordo com algumas críticas ao PC.

    Discordo frontalmente de ti quando consideras que o”militante comunista que se agarra ao sonho caduco de um mundo mais igualitário”.

    Pena é que alguns, como tu, considerem caduco o sonho de um mundo mais igualitário.

    Paciência.

  2. LR diz:

    Aquele sonho em particular, nos dias que correm, parece-me mesmo algo fora de prazo. E repara que não incluo todos os comunistas nessa frase…

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  4. Infidel diz:

    1. Ao contrário do que afirma o post, as atrocidades cometidas (o uso de violência generalizada, as leis inventadas conforme as circunstâncias, etc) começaram com o Vladimir. O ‘Homem de Aço’ herdou-as e aumentou-lhes a escala. Será tb isto é cegueira voluntária ?

    2. Concordo com a denúncia da perigosa imbecilidade dos que pensam essas coisas. Já agora, aqui vai mais uma: ‘Não tenho a certeza que a Coreia do Norte não seja uma democracia’ – será que o imbecil que disse isto celebra a data do pacto Molotov-Ribbentrop ?

  5. João diz:

    Luís desculpa a insistência.
    Consideras o sonho de um mundo mais igualitário fora de prazo? É isso?

    E se é isso quais são os sonhos ainda dentro da validade?

  6. JMC diz:

    Permita-me discordar da sua concepção de que o comunismo foi um “projecto que desaguou no totalitarismo”. O comunismo é um projecto que desagua no totalitarismo.
    Detentores da verdade revelada, adeptos do Estado patrão único, o que impede os comunistas de reeditar gulags, deportações dos capitalistas, purgas quinzenais, o extermínio de inimigos, etc. ? O facto de não andarem por aí a proclamá-lo? No tempo de Estaline também não o proclamavam, mas faziam-no! E, no essencial, fizeram-no por todo o lado onde chegaram ao poder.
    O que distingue o nazismo do comunismo é essencialmente o romantismo dos fins proclamados (nunca alcançados); em tudo o resto, distinguem-se apenas pelos alvos. Ódio racial/ódio de classe; messianismo ariano/messianismo proletário; expansionismo regional/expansionismo mundial; etc.
    Ficando-se pela comparação de sujeitos, comparando uns imbecis de pequenas seitas com respeitáveis membros do PCP, esquece o essencial: a comparação das ideologias e das práticas de poder.
    O totalitarismo é umas das formas de exercício do poder, a única possível para o exercício do poder absoluto. O comunismo só pode existir pelo recurso ao poder absoluto; é intrinsecamente uma ideologia inimiga da liberdade; a única liberdade que concebe é a da obediência. O “bisonho” PCP luta pelo poder; não renega o passado (o seu e o do comunismo soviético) nem a ideologia messiânica classista nem a violência revolucionária; quotidianamente, dissimulado pela denúncia das injustiças e das desigualdades, prega o ódio de classe, a estimulação contínua do conflito.
    Os grupúsculos de imbecis nazis não passam de pequenos bandos de arruaceiros (o que não impede de estarmos atentos); pretendendo ser nazis, são meros travestis.
    Os comunistas são tão lunáticos quanto os nazistas; estão bem melhor organizados e desfrutam incomparavelmente de maior influência social e política.
    O facto da maioria dos militantes comunistas serem analfabetos políticos não é factor desculpabilizante, antes pelo contrário. A ignorância é terreno fértil para a germinação da intolerância e da violência.
    A displicência com que encaramos o comunismo deriva da progressiva perda de influência social e política do PCP; mas deveríamos repensar a influência que a constante prédica do ódio de classe tem no atraso do país. É o atraso e não o desenvolvimento que permite a existência de partidos comunistas…

  7. mj diz:

    O que o Luís Rainha faz neste texto é precisamente o que Marcelo Rebelo de Sousa faz na sua crónica domingueira. Achincalhar desta maneira um partido que tantas vezes vota lado a lado com aquele onde milita, usando pregões antagonistas da erudição que alardeia nos seus textos, afoita-o para longe das múltiplas realidades políticas do BE (talvez conhecerá melhor os militantes do PCP porque vai ao Avante!). Revela enorme condescendência para a arrumação de forças existente, furtando-se a soluções para a transformação social e usa a lei do menor esforço na análise do processo revolucionário, como se soubesse de uma prodigiosa fórmula para a conquista de uma sociedade mais justa, como se nos processos revolucionários que a história experimentou não tivesse havido uma parte criativa das massas que nele participaram (Concorda ou não com a participação de ignorantes nos processos revolucionários?) ou como se os ignorantes selectivos do PCP não soubessem que as revoluções não se repetem na história, ou como se no PCP além dos muitos documentos acessíveis sobre a história da URSS não existissem quadros formados durante décadas até à Perestroika com conhecimento pelo contacto com a realidade (e não com declamações ouvidas no Avante!). Mete no saco dos estribilhos todos os militantes do partido e, sem mais nada, dá pontapés na sua organização interna pilar da sua influência e vitalidade. Os estatutos do PCP estão disponíveis para leitura. Leia por favor e depois de forma concreta e objectiva dê os pontapés que quiser.
    Quanto ao caso da comparação uns são ignorantes outros “ignorantes”, e os neo-nazis afinal são mauzinhos porque escrevem umas coisas nuns fóruns. E a violência praticada, não estava lá no fórum para ver?

  8. Ezequiel diz:

    Este André…não consegue distinguir a perversão de um ideal (que, é certo, um ideal muito susceptivel a perversões) de um ideal perverso. Suponho que se senta na cama e elabora uma detalhada quantificação das vitimas e chega á brilhante conclusão que, afinal, são fenomenos similares. Uma miopia constrangedora. Mas, como diz o Rainha, os comunistas vivem, hoje, uma profunda desilusão que resulta da falsificação inquestionável de muitos dos seus argumentos e projectos. No entanto, talvez fosse sensato aguardarmos pacientemente porque a história ainda lhes poderá reservar algumas surpresas…muitas das criticas neo-marxistas sobre a comodificação, o fetishe do consumismo, a repressão da potencialidade humana pela razão instrumental, a “colonização” da comunicação como comodidade e a critica do obscurantismo religioso etc ainda retem MUITA plausibilidade)

    O maior perigo é subestimarmos, mais uma vez, a extrema direita que, hoje, recorre a novas mascaras para se apresentar no mundo democrático-mediático. É muito mais sofisticada do que parece. Não se trata apenas de tentar repetir o passado. ESta é uma visão simplista da coisa. Trata-se de reinventar o passado no presente. Estão a elaborar e a testar a sua “terceira via.” Mas a sua “essencia” inconfundivel persiste. BEWARE!

  9. CMF diz:

    “Não vemos militantes destacados daquele partido a exigir reedições de gulags, a deportação para a tundra gelada dos capitalistas, purgas quinzenais, o extermínio do kulaks, etc.”
    Pois eu já ouvi coisas semelhantes, não de militantes destacados, é certo, mas de militantes (ou então eram simpatizantes muito combativos).

  10. ezer diz:

    Be,umpartido da mesma estirpe de um PT brasileiro?……
    Luta de classes não há?Não se diz,logo não há,N’É?Fico parvo com este ‘livre’ pensar.Prefiro o http://resistir.info/ a znet a ler bestices.

  11. João diz:

    Lê também o http://www.odiario.info

    Eu continuo a gostar de ler o Nuno.

    Gosto de vozes não sectárias de quem ainda acredita em alguma coisa….

  12. Ezequiel diz:

    Caro Aff

    eu gostaria de te enviar uma serie de palestras sobre a importancia das vozes dissonantes. Podes deixar aqui o teu email???? (ou podes criar um com o teu pseudonimo)

    Cumprimentos

  13. k diz:

    A extrema-direita faz-se valer de uma dupla chantagem. Explora a potencial reserva de preconceitos residente em cada indivíduo.Depois, subverte a lógica do enquadramento democrático dos partidos comunistas.A igreja católica também tem hoje o seu lugar social apesar da nojice que é a sua história. A extrema-direita, lá está, tem o cuidado de não reclamar a ilegalização dos PCs e da extrema-esquerda porque tal significaria reconhecer legitimidade a sua própria marginalização. Ela não diz «ilegalizem-nos também a eles», ela diz «legalizem-nos também a nós». A nuance não é inocente. Pudera. Ela diz que se ensina o multiculturalismo e esquerdices nas escolas. Ela não diz que os jovens não aprendem puto sobre o 25 de Abril e sobre o Estado Novo nas escolas. Ela quer mexer com os livros escolares e das bibliotecas municipais, nem que o faça á força de tacos de basebol. Ela diz que me quer defender de alienígenas, mas eu nada lhe pedi. Não pedi guarda-costas culturais, civilizacionais, e muito menos raciais. Ela quer matar. Matar. Matar. Quer matar negros, quer matar indianos, quer matar árabes, quer matar orientais, quer matar judeus, quer matar sul-americanos, quer matar gays, quer matar lésbicas, quer matar deficientes mentais, quer matar deficientes físicos, quer matar seropositivos, quer matar, quer matar, quer matar. Quer eliminar tudo o que não cheire ao seu ideal idiota de salubridade. Ela não reconhece os seus crimes, orgulha-se deles diariamente, e promete repeti-los a todo o instante. Não lhes reconheço lugar numa democracia. Ela traz sangue no focinho.

  14. Ezequiel diz:

    oops, desculpas, isto (acima) não era suposto vir parar aqui

  15. aff diz:

    Caro Ezequiel, o meu email vai acima, se é para enviar mais tralha académica anglófona dispenso, já tenho a minha quota parte, se é para discutir algum assunto de interesse estou à sua disposição.

  16. Ezequiel diz:

    Caro aff,

    Pronto, ok. Não lhe envio “tralha académica anglófona, francófona, germanica ou lusitana” (mais?) Não lhe envio nada.

    Discutiremos assuntos de interesse por aqui. Realmente é melhor assim.

    melhores cumprimentos, per obsequium

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  18. Quer o comunismo(URSS, China, Coreia) quer o fascismo/nazismo (Alemanha, Itália, Espanha) são igualmente maus. Ambos foram regimes que intreferiram com a liberdade do individuo.
    Se é certo que ainda hoje há (em Portugal e não só) uma extrema direita sedenta de sangue, há também uma extrem esquerda que, estando bem posicionada nos regimes democráticos, compactua, através do seu silêncio com regimes sanguinários de esquerda. Se de facto o racismo e a xenofobia têm um enorme impacto eles são o meio utilizado para atingir um pérfido fim. Ora os gulags as purgas, etc também o são (o objectivo pode não parcer tão sórdido mas é-o na medida que interfere com a liberdade dos povos).
    A extrema direita cresce na blogoesfera. A extrema esquerda tem lugar no parlamento e, de vez em quando, deixa escapar um pouco daquilo que realmente é. E isto acontece quando Bernardino Soares admite a hipotese da Coreia do Norte ser uma democracia ou na “simpatia” que muitos deputados de esquerda demonstram pelo ditador Fidel.
    Todas estas formas de discurso totalitário são reprováveis mas têm que ser admitidas em democracia. Esperemos que a extrema direita não chegue ao parlamento mas se chegar por vontade do povo, teremos que a aceitar, como democratas que somos. Penso que, felizmente, em Portugal esse cenário será longinquo visto que recentemente saímos de uma ditadura de direita…
    A nobreza da democracia reside em aceitar a vontade do povo. E a nobreza de um democrata reside em saber aceitar, sem problemas, que qualquer tipo de totalitarismo é igualmente mau.

    Max Mortner
    (www. guardafiscal.blogspot.com)

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