Luís Rainha: Quem não sabe entrevista quem ignora

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João Pereira Coutinho, auto-nomeado intelectual conservador e luminária profissional, resolveu entrevistar-se a si mesmo. Talvez por falta de interlocutores à altura, ou talvez porque os restantes candidatos a entrevistados tivessem fugido todos.
A peça é ainda mais cómica do que se poderia imaginar, assim à primeira vista. Recomenda-se a leitura integral. Para vos aguçar o apetite, eis uma amostra:

“– Isso significa que os julgamentos e as condenações continuarão?
– Tu és esperto, João.

– E haveria forma de as evitar?
– Havia, sim: se a lei de 1984 fosse entendida e aplicada como sucede em Espanha. Infelizmente, estivemos na presença de uma campanha de tudo ou nada. Os extremos costumam ser maus conselheiros. Agora, com uma lei que despenaliza até às dez semanas, está aberta a porta para a criminalização depois das dez semanas. Uma pena, quando a aplicação da lei de 1984 teria evitado o cenário.”

Para lá da subtil ironia do auto-elogio, regista-se asneira da grossa. Mais uma vez se carrega, por óbvia preguiça intelectual, na gasta tecla da igualdade entre a legislação espanhola e portuguesa. Que é, pura e simplesmente, mentira. Não vou recapitular de novo o que já escrevi sobre o assunto; ficam aqui dois links que talvez deixem claros os pontos em que a lei e a regulamentação dos vizinhos ibéricos diferem.
Mais: a tal “lei de 1984” que nenhum dos participantes nesta entrevista aparentemente leu, nunca “teria evitado o cenário” da criminalização, uma vez que refere claramente um prazo limite para a IVG legal, com a excepção dos casos de em que é o único meio de evitar a morte ou lesões “irreversíveis” para a mulher!
Confirmem, por favor: “b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;”
Mas é muito mais fácil correr logo para o teclado e dar eco a boatos do que investigar um pouco, não é?

Luís Rainha 

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Luís Rainha: Quem não sabe entrevista quem ignora

  1. Ezequiel diz:

    what a fucking idiot, this coutinho boy!

  2. J.Urbano diz:

    É interessante reparar como a maioria dos conservadores de direita(que os à de esquerda, no seu apego a um mítico estado providência) se agarram à vida fetal, quando geralmente se preocupam tão pouco realmente com a vida dos outros: são os primeiros a apoiar as guerras do Império, a estar-se a cagar para a eliminação da biodiversidade e a desvalorizar o apocalipse ecológico (tão acarinhado pelo ecopassifistas). Por outro lado quando o relativismo impera e todos os princípios absolutos desabam agarram-se a uma espécie de resíduo, julgando agarrar-se a um principio absoluto, não percebem que quais naufragos se agarram ao primeiro destroço flutuante que lhes aparece. Precisam de uma certeza, de algo fundamental e absoluto em que se sustentar. Porém a sua concepção da vida, como princípio absoluto, é tão frágil e relativista, tão manhosa, que só dá vontade de chorar por mais.
    Quanto a ter sido o homem banido da questão do aborto, penso que em parte ela é estratégica, se assim não fosse a confusão ainda seria maior. Imaginemos que ela quer abortar e ele não quer que ela aborte, o que fazer? Ainda por cima o rapaz é rico, tem todas as condições para dar uma vida regalada à futura criança. É ilucidativo que João Pereira Coutinho tenha usado este exemplo, o pior de todos. É que caso o pai tivesse a lei do seu lado e pudesse obrigar a mulher a levar a gravidez até ao fim( e suponha-se que ela perdia os direitos sobre a criança), reduziria esta a uma máquina de reprodução, a uma espécie de instrumento ao serviço da espécie. E isto sem levantar a questão suplementar de se ela perdia ou não os direitos sobre a criança e de todos os custos psicológicos, etc, de tal que dai decorreriam. Estariamos perante uma espécie de monstruosidade e de um jogo extremado da culpa, que me parece ignóbil e que no fundo revela o carácter cego, patriacal e autoritário que se esconde no subçolo mesmo de certas mentes brilhantes da direita. Quando pomos no prato da balança ele e ela a balança pende sempre para ela, pelo que em última instância a decisão final é dela. O único caso em que o homem é realmente lesado nos seus direitos é quando ela deseja a gravidez e ele não. Neste caso porque é que ele terá que ser obrigado a suportar encargos e a ter deveres impostos por uma decisão alheia contrária à sua. Sei que o assunto é melindroso. Mas se ela em última instância decide pelo destino a dar ao embrião, porque ele terá que ficar para sempre cativo de uma decisão que ele não quis e não quer? E que venha a suportar custos financeiros por uma decisão unilateral dela? Se ela pode decidir sobre o destino do feto, porque ele não se pode desvincular dessa decisão? Compreendemos os custos emocionais e outros desta situação. Que uma coisa é o feto nunca passar disso mesmo e outra a existência concreta de uma criança que quer ele queira ou não, veio ao mundo.
    Também em caso de divórcio são elas que por norma ficam com os filhos(disso os conservadora gostam, talvez lhes desagrade o divórcio, não sei. O que sei é que os conservadores se levassem suas concepções a suas últimas consequências eram uma espécie de defençores do Homem das cavernas ou mesmo das bactérias, pois preferiam a bactéria às inovações que a conduziram à formação de organismos mais complexos como as algas e as plantas). Estas questões dariam pano para mangas. Aqui deito apenas algumas achas para a fogueira.

  3. J.Urbano diz:

    Como não corrigi o anterior comentário aqui vai a versão correcta e substituam-na pela anterior.

    É interessante reparar como a maioria dos conservadores de direita(que os à de esquerda, no seu apego a um mítico estado providência) se agarram à vida fetal, quando geralmente se preocupam tão pouco realmente com a vida dos outros: são os primeiros a apoiar as guerras do Império, a estar-se a cagar para a eliminação da biodiversidade e a desvalorizar o apocalipse ecológico (tão acarinhado pelo ecopassifistas). Por outro lado quando o relativismo impera e todos os princípios absolutos desabam agarram-se a uma espécie de resíduo, julgando agarrar-se a um principio absoluto, não percebem que quais naufragos se agarram ao primeiro destroço flutuante que lhes aparece. Precisam de uma certeza, de algo fundamental e absoluto em que se sustentar. Porém a sua concepção da vida, como princípio absoluto, é tão frágil e relativista, tão manhosa, que só dá vontade de chorar por mais.
    Quanto a ter sido o homem banido da questão do aborto, penso que em parte ela é estratégica, se assim não fosse a confusão ainda seria maior. Imaginemos que ela quer abortar e ele não quer que ela aborte, o que fazer? Ainda por cima o rapaz é rico, tem todas as condições para dar uma vida regalada à futura criança. É ilucidativo que João Pereira Coutinho tenha usado este exemplo, o pior de todos. É que caso o pai tivesse a lei do seu lado e pudesse obrigar a mulher a levar a gravidez até ao fim, reduziria esta a uma máquina de reprodução, a uma espécie de instrumento ao serviço da espécie. E isto sem levantar a questão suplementar de se ela perdia ou não os direitos sobre a criança e de todos os custos psicológicos, etc, de tal que dai decorreriam. Estariamos perante uma espécie de monstruosidade e de um jogo extremado da culpa, que me parece ignóbil e que no fundo revela o carácter cego, patriacal e autoritário que se esconde no subçolo mesmo de certas mentes brilhantes da direita. Quando pomos no prato da balança ele e ela a balança pende sempre para ela, pelo que em última instância a decisão final é dela. O único caso em que o homem é realmente lesado nos seus direitos é quando ela deseja a gravidez e ele não. Neste caso porque é que ele terá que ser obrigado a suportar encargos e a ter deveres impostos por uma decisão alheia contrária à sua. Sei que o assunto é melindroso. Mas se ela em última instância decide pelo destino a dar ao embrião, porque ele terá que ficar para sempre cativo de uma decisão que ele não quis e não quer? E que venha a suportar custos financeiros por uma decisão unilateral dela? Se ela pode decidir sobre o destino do feto, porque ele não se pode desvincular dessa decisão? Compreendemos os custos emocionais e outros desta situação. Que uma coisa é o feto nunca passar disso mesmo e outra a existência concreta de uma criança que quer ele queira ou não, veio ao mundo.
    Também em caso de divórcio são elas que por norma ficam com os filhos(disso os conservadores gostam, talvez lhes desagrade o divórcio, não sei. O que sei é que os conservadores se levassem suas concepções a suas últimas consequências eram uma espécie de defensores do Homem das cavernas ou mesmo das bactérias, pois preferiam a bactéria às inovações que a conduziram à formação de organismos mais complexos como as algas e as plantas). Estas questões dariam pano para mangas. Aqui deito apenas algumas achas para a fogueira.

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