Adeus, Iracema

Há uns tempos deixei aqui um vídeo de Adoniran Barbosa e Elis Regina com um pequenino comentário. Esse textinho acabou por germinar numa crónica que escrevi para a Blitz, e que eu deixo aí abaixo.

É também o meu último contributo como editor para o 5dias. Como vocelências devem ter reparado, não bloguei com a quantidade e a qualidade que este sítio merecia, muito menos como mereciam os meus colegas dos outros dias que estiveram uns furos acima em ambas as categorias. Orgulho-me, contudo, de ter contado com a colaboração de três excelentes bloggers em texto e imagem: o Jorge Palinhos, o Pedro Vieira e o André Belo. O Jorge, o Pedro e o André são três valores seguros em qualquer projecto e poderão continuar a colaborar aqui no 5dias, se eles e os outros amigos o desejarem. Eu também não me desligarei do projecto. Tenho aqui amigos e bastante confiança na ideia com que fundámos este espaço e nas suas possibilidades. Mas, pelo menos para já, o meu blogue pessoal, mesmo em jeito modesto, chega-me e sobra-me.

As segundas-feiras passarão a ser editadas por uma nova e fulgurante contratação, que será revelada na próxima semana. Continuem a passar por aqui nos dias úteis.

E agora, Paciência Iracema.

É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos Iracema, da autoria do primeiro. A musiquinha é uma curta obra-prima ternurenta e macabra. Isso mesmo: ternurenta e macabra ao mesmo tempo. É, também, uma letra supremamente equilibrada: nem excessivamente piegas nem maldosa, apesar de ser uma das raras músicas da história da humanidade — talvez a única — que tenta responder filosoficamente à seguinte pergunta: que fazer quando a nossa noiva é atropelada mortalmente a vinte dias do casamento?

Para quem não conhece, aqui vai uma descrição abreviada. No início, o cantor dirige-se a uma mulher chamada Iracema, chamando-lhe o “grande amor” da sua vida, como em qualquer banal música romântica. Logo notamos que há qualquer coisa de estranho quando o cantor recorda o aviso que costumava dar a Iracema, “cuidado ao atravessar essas ruas”, um tema inesperado numa declaração de amor. “Cuidado ao atravessar essas ruas, eu falava, mas você não me escutava não; Iracema, você ‘travessou contramão”. Aí entendemos a segunda coisa bizarra nesta música: Iracema já morreu, e toda a letra é o diálogo imaginário entre o cantor e a sua — como diria Tim Burton — noiva-cadáver. Mas para quem acha que a história já é estranha que chegue, vem agora outro pormenor absurdo: o cantor dirige-se à sua amada para pedir desculpas porque, como homem descuidado e trapalhão que é, perdeu o retrato dela. Restam-lhe então, como lembranças do grande amor da sua vida, apenas as meias e os sapatos recuperados no lugar do acidente (“Guardo somente suas meias e seus sapatos. Iracema, eu perdi o seu retrato.”). As meias e os sapatos?! Mas então esta música é para rir ou para chorar? Precisamente, nem uma coisa nem outra. Quando nos damos conta da profunda tristeza da história, a letra dá uma guinada absurda. E quando a ridícula referência às meias e aos sapatos quase nos dispara uma gargalhada, o cantor pede desculpa à amada morta por ter perdido o retrato dela, e aí quem consegue rir de um homem que no futuro terá dificuldade em lembrar-se do rosto do grande amor da sua vida? A coisa perde a piada, apesar de toda a história ser divertidíssima. É tão desconcertante quanto isto.

***

Com a combinação certa de palavras-chave, é fácil encontrar na internet — vocês sabem do que eu estou a falar — essa gravação de 1978 em que Adoniran Barbosa e Elis Regina cantam Iracema no bar da Carmela, no bairro italiano da maior cidade brasileira. A cena também em si é absurda, porque esta música de fazer chorar as pedras da calçada é acompanhada por uma roda de samba saltitante como de costume, isto à volta de uma mesa e dos seus copos de cerveja de uma alegre noite de bar. Mas Adoniran Barbosa olha em direcção nenhuma com ar seríssimo e absorto, à espera da deixa para a sua parte falada — e não cantada — da música, pronunciada num sotaque paulistano com exagerados erros de português, também para chamar a atenção e o rídiculo sobre a sua pobre personagem. E diz:

(Iracema, fartavam 20 dias
Pra o nosso casamento
Que nóis ia se casá
Você atravessô a São João
Vem um carro te pega
E te pincha no chão
O chofer não teve curpa,
Iracema.
Você ‘travessou contramão
Paciência, Iracema, paciência!)
Haverá coisa mais incoerente? No início, parece que a letra toma uma direcção melodramática (“fartavam 20 dias pra o nosso casamento”), mas logo descamba para os detalhes mórbidos, brutais e exagerados (“vem um carro te pega e te pincha no chão”). Para mim, no entanto, nada é mais absurdo e, ao mesmo tempo, mais encantador do que a referência ao “chofer” que “não teve curpa”: que tipo de homem seria capaz de, evocando a amada morta, estar preocupado em explicar-lhe se o condutor do automóvel que a matou teve ou não culpa do acidente? Talvez o mesmo tipo de homem que perdendo o retrato dela guarda como recordação as suas meias e os sapatos…

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Chegado a este ponto, é já evidente que Adoniran Barbosa, actor, cantor e compositor que nasceu em 1912 e morreu em 1982, dominava como poucos todas as manhas do efeito cómico: as suas mudanças de ritmo, as súbitas viragens na narrativa, o efeito de acumulação de absurdos. Mas esse embrulho cómico nas suas músicas traz consigo uma atitude profundamente filosófica a que eu me referia no início. Essa é a que aparece na última frase do seu monólogo. Perante a brutalidade absurda da existência, que lhe rouba a noiva e lhe faz perder o seu retrato, qual é a resposta que Adoniran dá à adversidade? Raiva? Revolta? Rebeldia? Não: apenas paciência. “Paciência, Iracema, paciência”.

A este tipo de atitude chama-se por vezes de fatalismo, e tem pouco de surpreendente na cultura portuguesa uma vez que é um sentimento dominante no género musical do fado, cujo nome tem precisamente essa origem do fatum latino, o destino. Mas tal como por vezes há fados melodramaticamente absurdos e divertidos em Portugal (o Fado da Mãezinha Tuberculosa…) também aqui encontramos um samba fatalista em ambiente brasileiro. Poderíamos explorar as correntes subterrâneas que ligam estes dois géneros musicais e a cultura dos seus respectivos países, mas parto do princípio de que este tema já está bastante explorado. Prefiro antes chamar a atenção para a longa história do fatalismo de que, de certa forma, encontro ecos naquela música de Adoniran Barbosa.

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Um filósofo grego antigo, Pirro de Eleia, era fatalista porque achava que nada se podia saber. Diz-se que o seu cepticismo era tão radical que, ao saber que Sócrates tinha dito “só sei que nada sei”, respondeu “pois eu nem isso sei”. Mais tarde um dos seus discípulos, que tinha o belo nome de Sexto Empírico, resumiu a filosofia pirronista numa fórmula sucinta:

Nada se pode saber — nem sequer isto.

Os pirronistas defendiam que, uma vez que nada se podia saber, o melhor era não acreditar em nada. A via mais sensata consistiria então em ir abandonando todas as crenças e até todas as opiniões forte sobre as coisas até chegar a um estado em que nada nos provoque inquietação alguma. A esse estado chamavam de imperturbabilidade, ou seja, a capacidade de não nos perturbarmos com nada. O nome em grego era ataraxia e há quem o compare a uma espécie de nirvana budista. Eu comparo-o antes à atitude de Adoniran Barbosa na sua música: não culpar o chofer do carro, recolher as meias e os sapatos da noiva, e conversar calmamente com ela através de um sambinha, como quem diz, é preciso levar a vida. A noiva atravessou em contra-mão. Já’não volta mais. Paciência.

***

Há muitos fatalismos diferentes, e não temos aqui espaço para todos. Um consiste em dizer, como vimos, que é tudo tão absurdo e incerto que não adianta tomar decisões. Outro fatalismo, porventura mais conhecido, consiste em dizer que tudo está pré-determinado e que, portanto, também não adianta tomar decisões. Conta-se que, na Antiguidade, certos guerreiros fatalistas andavam descuidados pelo campo de batalha, achando que não valia a pena protegerem-se uma vez que morreriam apenas no momento predestinado e não antes. Para quê usar armadura? Hoje, todavia, não se leva a filosofia tão a sério, até porque todos estes fatalismos têm uma coisa em comum: as suas raízes são muito antigas, sempre de um tempo em que não havia automóveis nem avenidas largas. E os automóveis são um argumento importante contra uma atitude de imperturbabilidade fatalista, como lembrou o físico Stephen Hawking quando escreveu:

“Reparo que mesmo as pessoas que afirmam que tudo está predestinado e que não há nada a fazer contra isso não deixam de olhar antes de atravessar a rua”

Ou seja, precisamente aquilo que deveria ter feito Iracema.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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3 respostas a Adeus, Iracema

  1. "O OUTRO" diz:

    Fantástico o seu texto. Obrigado

  2. Manel diz:

    “ternurenta e macabra ao mesmo tempo”… como a vida. Obrigada por este post.

  3. Realmente, esse video clip no Bexiga com Adoniram e Elis é uma raridade. E o ensaio sobre Adoniram e a fatalidade, e o modo pelo qual ele lida com a desgraço, está muito bom.

    Mas parece que a história é um pouco diferente. Não tenho certeza. A versão que eu conheço é que uma namorada do Adoniram, de nome Iracema, deu um fora nele, terminando o namoro. Adoniram disse que ia matá-la. Todos ficaram espantados, pois Adoniram não era violento. Aí Adoniram teria feito a música, “matando” Iracema.
    Acho que é isso.

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