A Igreja e o referendo

Partindo do princípio de que a generalidade dos Estados-nação tem de ter uma matriz religiosa qualquer, não me desagrada nada o facto de viver num país maioritariamente católico. De facto, e apesar de não ser crente, reconheço ao catolicismo importantes vantagens sobre os seus possíveis concorrentes na nossa área geográfica: o islamismo quase sempre menoriza as mulheres e tolhe a liberdade individual a níveis insuportáveis e o cristianismo reformado (em particular o de raiz calvinista) é mais propenso à discriminação do que o catolicismo, que é mais miscigenador e universalista. Claro que também tem os seus contras, e não são pequenos: desconfia da leitura e não incentiva o livre-exame, sobretudo; mas eu não consigo deixar de gostar mais da opulência barroca do que do rigorismo nórdico: “antropologicamente” falando, acho que sou um bocado católico e há muito que decidi aceitar esse facto. 

Por todas essas razões, eu gostava de viver em paz com a Igreja – ela cuidando dos seus negócios e eu dos meus, todos em alegre convívio – mas infelizmente não consigo, porque ela não deixa. Disse Vasco Pulido Valente há dias no “Público” que a Igreja tinha comprado uma guerra absurda com a “esquerda” (seja lá o que isso for) a propósito da questão do aborto, mas eu não acho. D. José Policarpo é o chefe em Portugal de uma organização internacional e altamente centralizada; por mais tolerante e inteligente que fosse, poderia face aos seus superiores em Roma deixar de travar esta guerra? Claro que não; quem realmente “comprou” esta guerra foram dois católicos de vistas muito curtas, a saber o Eng.º António Guterres e o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que inventaram esta história dilacerante do referendo – como se a mãe de todos os parlamentos, a Câmara dos Comuns, não tivesse ao longo de séculos demonstrado que a representação política também pode (e deve) resolver questões ditas “de consciência”. Eu acredito até que este referendo é incómodo para D. José Policarpo, se ele é de facto tão inteligente como dizem, porque obriga à exposição pública de figuras da Igreja que melhor ficariam longe de vistas mais sensíveis, como o inenarrável Bispo de Bragança e Miranda, autor da famosa comparação das mulheres que abortam com os carrascos de Saddam Hussein. Mas enfim, nous avons tous nos bidonsvilles 

Portanto a Igreja tinha de vir a terreiro – mas podia (e devia) fazê-lo com mais discrição e prudência. Aliás, é isso mesmo que lhe pede a grande maioria dos portugueses (que são também na sua maioria, e pelo menos nominalmente, católicos), que, a acreditar na recente sondagem do DN, quer ver a Igreja longe das controvérsias do referendo. Ouvi Helena Matos, que defende o “sim”, dizer na rádio que os portugueses não têm razão, e que a presença da Igreja neste debate é muito importante, mas lamento dizer que ela não tem razão. Creio imodestamente que, tal como eu, os portugueses querem aqui duas coisas: viver num Estado secular, e estar em paz com a Igreja. Viver num Estado secular implica que a lei geral não acolhe uma particular concepção metafísica, que choca com o senso-comum e segundo a qual um feto anterior às dez semanas é uma pessoa humana, e que quem não concorda com ela arrisca-se a uma pena de prisão. Estar em paz com a Igreja obriga a que ela compreenda o mundo em que vive e as decorrências da modernidade e que, sem ter necessariamente de abjurar os seus dogmas, não pretenda impô-los a todos através do braço secular do Estado. Disse há dias D. José Policarpo que a educação sexual nas escolas é bem-vinda, desde que na “perspectiva da castidade”; ora D. José Policarpo tem de perceber que a “perspectiva da castidade” é para uso seu, dos seus ministros e das escolas da sua confissão; os outros há muito que dispensam a lição.

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SEXTA | António Figueira
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3 respostas a A Igreja e o referendo

  1. lino diz:

    Muito bem escrito, António.

  2. Mas se a Igreja Católica é a mais evocada não é menos verdade que a chamada “Protestante”, ou da Reforma, é a mais crítica. Só que está muda; porque para falar, e por vezes demais – e sem discrição como muito bem salienta -, já têm a Católica.
    Cumprimentos
    Eugénio Almeida

  3. Sérgio diz:

    Muito bem. Concordo, genericamente, com a hierarquia de valores que o leva a essa costela católica.
    Mas há que reconhecer que admitindo a secularização como um fenómeno inerente ao cristianismo (Anselmo Borges escreve muito bem sobre o assunto), também não será mentira que a Igreja Católica (institucionalmente) tem uma longa tradição de condenação da dita. Note-se que o papa actual encara a secularização como uma espécie de desvio ou degenerescência do próprio cristianismo. E pretender defender uma moral de castidade (que como muito bem disse AF é uma moral particular) através da educação sexual nas escolas públicas mais não é do que recorrer a mão longa do Estado para fazer serviço da «Verdadeira» Igreja.
    Atenciosamente.

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