Uma pergunta directa para uma resposta honesta

[do Público de 3 de Fevereiro]

Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua.

A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar.

“Concorda com a despenalização…”. A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo de próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bébés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.

Numa pergunta que começa com aquele “concorda com a despenalização”, os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e anti-aborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem “Sim” à pergunta são “pró-despenalização”. Os que respondem “Não” são “pró-penalização” (ou “anti-despenalização”, o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso.

“…da interrupção voluntária da gravidez…”. Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão “interrupção voluntária da gravidez” por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo. Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos de aborto. Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta.

“…se realizada, por opção da mulher”. No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que “o aborto foi despenalizado”, precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher.

No mundo do “Não”, porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. “Por opção da mulher”? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado. Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. É precisamente por isso que aquele inquietante “por opção da mulher” ali está.

“…nas primeiras dez semanas…”. Aborto livre, grita o “não”! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas! Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre… Ou o facto de só se poder andar até cinquenta quilómetros por hora dentro de uma localidade significa “velocidade livre”? Não faz muito sentido, não é verdade?
Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do “Não” mudam de estratégia. Então o que acontece às onze semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema?

“…em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um “estabelecimento de saúde” quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e “legalmente autorizado” quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse. Mas vale a pena notar o que “legalmente autorizado” não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa.

Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a “segunda pergunta” de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco. Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde “legalmente autorizado” significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio.

Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto.

Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada. É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei “Sim”. Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

16 respostas a Uma pergunta directa para uma resposta honesta

  1. teresa diz:

    E ainda acrescento mais: vejamos a pergunta tal como está formulada – “(1)concorda com a despenalização (2)da interrupção voluntária da gravidez, (se realizada), (3)por opção da mulher, (4)nas dez primeiras semanas, (5)em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” – e agora façamos um esforço por imaginá-la sem qualquer uma das 5 expressões que a compõe.
    Aí sim, estaríamos a permitir qualquer coisa de muito grave, p. ex., como referiu, fazer uma IVG sem o consentimento da mulher (3); ou num qualquer vão de escadas (5); sem qualquer limite temporal (até ao final da gravidez) (4).
    Ou estaríamos a responder a questões de ordem moral (1) – aqui sim, estaríamos a responder se concordávamos ou não com a IVG, não com a sua despenalização.
    Ou teríamos uma pergunta sem qualquer sentido, porque sem objecto (2) – é preciso saber o que pretendemos despenalizar.
    Esta é a única pergunta possível – objectiva, clara, simples e sem moralismos – quem a critica, que avente outra para que a possamos analisar. Mas ao que parece, apesar de haver quem não concorde com ela, não é capaz de formular outra que devesse ser respondida.
    Eu, por minha parte, não imagino outra…

  2. Raúl Ribeiro dos Santos diz:

    O que é extraordinário é que entre os críticos da pergunta estão deputados que há cerca de dois meses a aprovaram no Parlamento!
    Não consigo encontrar exemplo mais reles de “politiquice” – isto é, de tentar obter ganhos (?) partidários brincando (é o único termo que me ocorre) com uma questão concreta, que afecta concretamente a vida de milhares de pessoas. Eticamente falando, acho mais defensável a atitude do CDS nesta campanha (um “não” rotundo e claro) do que as piruetas que o PSD tem dado, e que estão à vista nos seus tempos de antena. Para mim, o comportamento do Dr. Marques Mendes nesta matéria é moralmente inqualificável – o homenzinho parece um chico-esperto do nosso futebol.

  3. cláudia diz:

    Acima de tudo, ninguém foi capaz de formalizar uma proposta credível neste intervalo entre referendos! É uma hipocrisia dizer – suspenda-se a penalização – qunado, até ao momento, nada se fez nesse sentido!

  4. H diz:

    Sem dúvida que a pergunta é honesta; porque honestamente não existiu a coragem de se referendar a liberalização da IGV, fala-se em despenalização! Mais honesto, impossível!

  5. Parabéns pela clareza !

  6. teresa diz:

    Outra coisa que me ocorreu agora: Seria bom perguntar à Igreja Católica se, tendo a mulher um aborto espontâneo, nas primeiras 10 semanas de gestação, se lhe seria permitido fazer (ao feto) um enterro católico, com todas as honras que um ser humano tem direito. E se a resposta for negativa, perguntar porquê, já que andam a dizer que não deve ser feito aborto naquele período, porque se trata de um ser humano.

  7. Filipe d'Avillez diz:

    À Teresa,
    Um aborto espontâneo é uma coisa tremendamente trágica. Não sei se já passou por um, mas desejo-lhe sinceramente que não passe. A sua pergunta (sobre os enterros para fetos de 10 semanas) deriva de: 1) Não saber nada sobre liturgia católica e 2) Não ter, pelos vistos, a mínima noção de para que é que serve, do ponto de vista católico e social, um enterro.
    Em resposta à primeira, seria possível de facto fazer-se um enterro a um feto vitima de aborto espontâneo (ou provocado). Existe uma liturgia para o efeito, que é a mesma usada para bebés não baptizados. Porque é que não acontece mais vezes? Aqui entramos na 2ª parte. Um enterro é essencialmente um “instrumento” para a família. Enterramos os nossos mortos para nos consolar a nós mesmos, por uma questão de dignidade para com eles, porque não os queremos a apodrecer no meio da rua. Um enterro tem todas estas e mais algumas funções inerentes.
    Qualquer pessoa que tenha sofrido um aborto espontâneo sabe que o corpo do feto é irrecuperável. A natureza trata das coisas à sua maneira. A ideia de guardar qualquer coisa para enterrar é tão doentia como é estúpida.
    Não é que não seja uma pessoa, uma coisa nada tem a ver com outra. Quando uma pessoa morre totalmente carbonizada, e fica reduzida a pó, não se pede à família que vá juntar as cinzas para colocar dentro de um caixão. Se houver um enterro, mesmo que seja com caixão vazio isso serve uma função social de luto para a família, a palavra inglesa seria “closure” e pode ser muito importante.
    Porque é que não se faz isto com um aborto espontâneo? Porque socialmente temos outra forma de lidar com a questão. Os casais a quem isso acontece normalmente preferem viver e ultrapassar esse drama intimamente e em conjunto. Certamente conhece alguém que já sofreu um aborto espontâneo, certamente viu o quanto lhes custa, agora já imaginou, por cima disso, terem que arranjar um caixão para enterrar, vazio…
    Portanto, cara Teresa, tenho-lhe a dizer que essa sua dúvida que “lhe ocorreu agora” é infundada, e até bastante estúpida. Revela uma falta de conhecimento factual, e uma ausência total da mais básica reflexão, que apenas se pode explicar por uma vontade cega de bater na igreja com mais um pseudo-argumento fantástico.
    É pena.

  8. kandinsky diz:

    Nao vem a propósito,peço desculpa,mas não ha que pedir a demissão do Ministro Amado,depois da abertura do inquerito-crime por parte da Procuradoria-Geral da República?

  9. Filipe d'Avillez diz:

    Quanto ao artigo do Rui, vamos por partes:
    O Rui Tavares é uma pessoa inteligente, é uma das novas figuras intelectuais em Portugal e ainda vai dar muito que falar. Tenho acompanhado um pouco o seu percurso e por isso sei que estou diante de uma pessoa inteligente. Custa-me ver, por isso, a forma como tem escrito sobre esta campanha.
    Ele insiste em continuar a vender esta ideia de que “isto é tudo muito simples” por mais que uma vez eu ou outras pessoas que comentam os seus posts lhe temos dito que as coisas não são tão simples assim. É evidente que esta questão não tem só a ver com a penalização das mulheres, é evidente que implica muitas outras coisas. Creio que é evidente que ele sabe isso. Continua a fingir que não, e por isso, se não é burro (e sabemos perfeitamente que não o é) é intelectualmente desonesto.
    É fantástico, por exemplo, como o Rui consegue dividir os campos em pró-despenalização e pró-penalização. Da mesma maneira eu poderia dividí-los em pró-liberalização e anti-liberalização. O Rui não gostaria dessa terminologia, como eu não gosto da dele. Segundo ele, a sua é a única aceitável e tudo isto é, evidentemente, “muito simples”. Depois os contorcionistas da terminologia somos nós.
    Esta então é uma pérola: “Há quem tenha problemas com a expressão “interrupção voluntária da gravidez” por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo.”
    Rui, o termo que se usa para distinguir “aborto espontâneo” de um “aborto não natural” é “ABORTO PROVOCADO”. Interrupção Voluntária da Gravidez não é a unica solução linguística a que se conseguiu chegar para distinguir essas duas obscuras realidades. É nada mais que um eufemismo para Aborto Provocado, ou Aborto Voluntário. Termos bastante mais claros que IVG e até bastante mais simples. Mas isso tornava a sua pergunta “tão simples” um bocado mais desagradável, menos higiênica. Compreende-se.

    “Ou o facto de só se poder andar até cinquenta quilómetros por hora dentro de uma localidade significa “velocidade livre”? Não faz muito sentido, não é verdade?”

    O que não faz muito sentido é pensar que alguma vez achaste que isto era um argumento com pés e cabeça. Não, não significa “velocidade livre”, os defensores do Não também não dizem que a “despenalização” até às dez semanas seja “aborto livre até aos nove meses” dizem que é aborto livre, precisamente até às 10 semanas.
    Na mesma medida, a questão da velocidade é precisamente “Velocidade Livre até aos 50” depois dos 50 deixou de ser livre.
    Ah não! Espera, já percebi. Eu não tenho a liberdade de andar até aos 120 na auto-estrada. Essa prática simplesmente foi “despenalizada”, que simpático! Se amanhã quisessemos aumentar o limite de velocidade, a pergunta seria a seguinte: “Concorda com a despenalização do limite de velocidade de condução até aos 160km, se praticado num veículo que tenha passado na Inspecção Periódica Obrigatória?” Está tudo mais claro, agora, tudo muito mais simples.
    Mas há aqui, neste raciocínio, uma coisa que me choca tremendamente! Como democrata, como cidadão responsável e amigo das mulheres. É esta frase Rui: “E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai se agravando quanto maior for o excesso de velocidade.”
    Tendo em conta a comparação que está a fazer, devemos depreender que as mulheres que abortem depois das 10 semanas vão ser penalizadas com esta lei? Uma lei para ser aplicada, como vocês querem não é? Vamos ver mulheres na prisão?
    Então posso-te descrever, segundo a tua própria lógica, como “pró-penalização” das mulheres que abortam depois das 10 semanas?
    Posso esperar que, no dia em que a primeira mulher seja detida e levada a tribunal por ter abortado depois desse prazo, publiques uma crónica no Público a dizer algo do género: “estão a ver como não era aborto livre? Estão a ver! É bem feita. Esta mulher agora vai ser presa durante 3 anos, e é bem feita para verem todos como estavam a ser histéricos quando diziam que eu queria a liberalização.”

    Cheira-me que isso não vai acontecer pois não Rui? Afinal parece que as coisas até são um pouco mais complicadas do que dás a entender.

  10. [ comentário extra post]

    caros editores do 5 dias, o endereço de email que o rui tavares me indicou para vos mandar material impede-me o “send” com uma mensagem de erro relativa ao yahoo groups e tal……….. se tiverem outra forma de contacto na qual possam receber as ilustrações indiquem-ma por favor para irmaolucia@nullgmail.com.

    [ e agora prossiga-se a temática do aborto]

  11. 212ahora diz:

    O Black, o Marcelo e o Aborto
    O programa do Marcelo aos domingos começa a perder interesse, sendo evidente alguma dificuldade sua quando tem pela frente uma jornalista que não se limita a fazer figura de corpo presente.
    Ao ser provocado por Maria Flor Pedroso sobre a disputa de audiências no youtube entre o Gato Fedorento e o Marcelo sobre o Aborto, o Marcelo vacilou e entrou numa lógica pouco adequada ao seu elevado nível intelectual, tendo sido, simplesmente, vulgar.
    Mas, enfim, o debate sobre o Aborto está a ser mesmo vulgar, servindo de palco ao protagonismo dos habituais personagens políticos e claramente partidarizado, sobretudo pelo lado do PS, o que é lamentável.
    Por mim, é muito simples, o feto com dez semanas é vida, mas não é uma pessoa nem um animal. E para quem, como eu, a única coisa que sou capaz de matar são as moscas, e só quando estas me chateiam a sério, não tenho dúvidas de votar Sim. Embora com um grande nó na garganta.

    Com o Sim só o faz quem quer, podendo fazê-lo com condições.
    Com o Não, continua a ser feito, mas sem condições.
    E com o Não, para quem quiser condições, apenas o pode fazer quem tenha capacidade económica.
    Por outro lado, não acredito que nenhuma mulher faça um aborto, simplesmente porque quer, não fazendo qualquer sentido a sua penalização.
    Tudo o resto, é mera polémica para consumo de alguns intelectuais e actores políticos, à mistura com grandes doses de hipocrisia.

    Não aceito a pena de morte, podendo cair no ridículo de trazer para aqui, num assunto tão sensível, o facto do Black, hoje, ter corrido o risco de levar com uma injecção letal. Acho que é assim que resolvem o problema dos cães não reclamados no canil municipal.
    Amanhã, vou desembolsar quase cento e trinta euros, pelo resgate do Black, que, ontem, mordeu o pescoço a quatro ovelhas e foi parar ao canil municipal, onde esteve preso durante uma noite.
    Estava em estado de choque e chorava como uma criança.
    Foi resgatado hoje, comigo em pijama e debaixo de medicação devido a uma gripe que não me deixa dormir há duas noites.

    Peço desculpa de trazer o Black para aqui, quando está em causa a vida de um feto.
    Mas, também não tenho dúvidas de que muitas crianças não desejadas, não têm a sorte de receber o amor que eu tenho por um cão.
    E, sobretudo, não gosto de hipócritas.

  12. 212ahora diz:

    Obviamente, Sim
    Excelente debate, de facto, o do Prós e Contras desta noite.

    Porque despenalizar não é liberalizar.
    Obviamente, que liberalizar não significa dar o direito à mulher de chegar ao médico e simplesmente lhe exigir que lhe faça um aborto.

    Obviamente, que se o Sim vencer, tal implica que a lei a criar preveja, as condições em que o aborto pode ser feito, para além das condições que já estão explícitas na pergunta.
    Mas já fora do contexto criminal.

    Porque o feto, ou o embrião, ou o que lhe queiram chamar, apesar de tudo, é uma vida.
    E aqui entra o papel de mediação do médico, que, necessariamente, irá decidir se dos contextos sociais, familiares e clínicos em que o aborto é pedido, este deve ou não ser feito.
    Isto não precisa de estar na pergunta, está implícito.

    E o Sim traz a mulher para a possibilidade de poder ser convencida em não abortar.
    O Não afasta a mulher dessa possibilidade, porque quem colabora no aborto clandestino tem, seguramente, ou, pelo menos, pode ter, uma lógica, comercial.

  13. woodie diz:

    Escreve Filipe d’Avillez: «É evidente que esta questão não tem só a ver com a penalização das mulheres, é evidente que implica muitas outras coisas.»
    Interessante palavra, a palavra «questão». Pode significar «assunto» e pode significar «pergunta». Se Filipe d’Avillez a utiliza na primeira acepção, tem razão, certamente: de facto este assunto implica muitas outras coisas para além da penalização das mulheres. Se a utiliza na segunda acepção, não tem razão nenhuma: a pergunta a que vamos responder implica de facto só uma coisa, e essa coisa é a alternativa entre penalizar ou despenalizar, nas condições enunciadas, a uma determinada conduta.
    Quanto ao nome a dar a essa conduta, a mim tanto me faz chamar-lhe «interrupção voluntária da gravidez» como chamar-lhe «aborto provocado». Ambas as expressões exprimem adequada e objectivamente a realidade. Do mesmo modo que não me incomoda chamar liberalização à despenalização: voto «sim» em todo o caso. E voto sim, obviamente, porque me oponho à penalização – à qual poderia chamar «repressão» se estivesse mais interessado nas conotações das palavras, como parece estar d’Avillez, do que no seu significado directo.

  14. teresa diz:

    Caro Filipe d’ Avillez,
    Não lhe respondi antes, apenas por falta de tempo (tinha umas peças processuais importantes para entregar no Tribunal, que me impediram de dedicar tempo a responder condignamente).
    A pergunta que lancei para o ar, embora, talvez, pouco fundamentada, surgiu-me por um motivo: há cerca de 30, anos assisti a um funeral de um bebé (abortado espontaneamente, ou melhor, que nasceu morto) com cerca de 6 meses de gestação. Embora se tratasse de pais católicos, não me lembrava de ter assistido a qualquer cerimonial religioso.
    Após o que me respondeu, fui perguntar, e tentar descobrir porquê.
    Então fiquei a saber que, de facto, foi permitido àqueles pais sepultarem o bebé no jazigo de família, mas não lhe tinham sido feitas quaisquer exéquias religiosas por não ser adequado naquela situação (disse o padre da aldeia).
    Depois disso, fui procurar resposta no Cód. Canónico, e lá verifiquei que:
    CAPÍTULO II.
    DE AQUELLOS A QUIENES SE HA DE CONCEDER O DENEGAR LAS EXEQUIAS ECLESIÁSTICAS
    Canon 1183.
    1. Por lo que se refiere a las exequias, los catecúmenos se equiparan a los fieles.
    2. El Ordinario del lugar puede permitir que se celebren exequias eclesiásticas por aquellos niños que sus padres deseaban bautizar, pero murieron antes de recibir el bautismo. (mas depois de nascidos).
    3. Según el juicio prudente del Ordinario del lugar, se pueden conceder exequias eclesiásticas a los bautizados que estaban adscritos a una Iglesia o comunidad eclesial no católica, con tal de que no conste la voluntad contraria de éstos, y no pueda hacerlas su ministro propio.
    E que:
    Cânon 871:
    Os fetos abortivos, se estiverem vivos, sejam baptizados, enquanto possível.
    Aos outros, está-lhes reservado o limbo.
    Com isto eu quis dizer apenas que, para a Igreja Católica, um feto abortivo não tem a mesma dignidade que um bebé, uma criança, um jovem ou um adulto, por mais que argumente, agora, em sentido contrário.
    Não quis, de forma nenhuma, menosprezar os sentimentos dos pais que tiveram um desgosto desta natureza (e agora também lhe respondo: sim, já passei por isso, e partilho com todos os pais o sofrimento de tentar levar uma gravidez desejada avante, sem o conseguir).
    Mas essa é outra questão!
    Agora devo dizer-lhe também: não, nem sempre é irrecuperável o corpo do feto.
    Por outro lado, a sua argumentação entra em insana contradição, porque, se mesmo quando não há corpo é possível fazer um enterro (católico), por respeito e consideração a quem morreu, também nessas circunstâncias, e pelas mesmas razões, poderia e deveria ser feito um enterro a um feto – mas não é isso que acontece, pois não?
    Na realidade, é grande a dor de se não levar uma gravidez para diante, mas da mesma dor (ou de outra diferente) sofrem aqueles que perderam um ente querido, e mesmo assim não deixam de proceder ao seu enterro (ou a qualquer outra forma de homenagem).
    (Ah! Sabia que quem pede para ser cremado, deve, em princípio, ser excomungado?)
    Quanto ao mais, os parcos conhecimentos que possuo sobre liturgia, chegam-me e sobram-me. Aliás, não fosse o meu baptismo, a minha ligação com a Igreja nem sequer existia. Assim como assim, tenho os meus filhos sujeitos ao castigo do limbo, porque manchados com o pecado original.

  15. thais diz:

    gostaria de saber apos quanto tempo depois de sofrer um aborto espontaneo a mulher pode engravidar???
    E se caso tem pouco mais de 1 mes que ela sofre um aborto ele engravidar de novo ele perde e o bebeb e nao tem nenhum remedio para lever esse gestacao adiante??
    obrigada

  16. claudiane diz:

    qual a importncia do tema lixo

Os comentários estão fechados.