Transistor

Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas. Às vezes dava-lhes medo: de onde vinham aqueles barulhos? seria de outro planeta? que desejavam eles? estariam para invadir-nos?

Seria errado dizer que o rádio iluminava a noite, mas antes que se infiltrava pela escuridão encontrando pequenos clarões de sons compreensíveis, retraindo momentaneamente o vasto ignoto, como um par de faróis num carro solitário. Passavam programas para camionistas acordados na estrada. O rádio de onda média apanhava estações espanholas com flamenco, relatos de touradas, noticiários. Espanha: havia um lugar chamado fronteira e depois dela as pessoas falavam outra língua — todas! — das crianças aos velhos. Mas havia mais. Havia Marrocos. Com sorte, nas noites favoráveis, encontrava-se uma daquelas estações com sumptuosa música oriental sinfónica, instrumentos de arco sinuosos, descendo e subindo languidamente as escalas. Depois um locutor interrompia a emissão para dizer umas palavras em árabe, não sei se eu já sabia que havia uma língua chamada assim, aquelas articulações guturais e vogais bruscamente interrompidas, uma espécie de regato brotando e dimanando por uma paisagem seca e acidentada. Mas às vezes — e isto era completamente diferente — ouvia-se falar a mesma língua por uma voz velosa de mulher, balsâmica e sedante, antes de entrar na noite sem estrelas com mais uma daquelas orquestras douradas. Eu adormecia.

Marrocos era um reino. O rei chamava-se Hassan II. Tinha cidades chamadas Casablanca, Fez, Tânger. Isso vinha na enciclopédia em três volumes, comprada às prestações. O atlas universal tinha as bandeiras de todos os países do mundo; alguém tinha assinalado com um pontinho os países comunistas e com um traço os países capitalistas, para fazer as contas à guerra fria e às medalhas nos jogos olímpicos.

A televisão foi muito tempo a preto e branco e, seja como for, tinha só dois canais. Tinha horário: começava ao fim da tarde e desligava-se depois do hino nacional. Eu às vezes implorava-lhe que me desse mais qualquer coisa; carregava em todos os botões e percorria UHF acima e VHF abaixo nessa vã busca de um surpresa. Uma noite, com todos já deitados, consegui apanhar a Radiotelevisión Española, por detrás de uma névoa de pontinhos brancos. Não voltou a aparecer.

Não havia comparação possível com a telefonia. Em casa de não sei qual tia havia uma enorme, com nomes de cidades dispersos pelo mostrador. Aquilo sim era o mundo: Johannesburg – Cairo – Leningrad. De regresso a casa no automóvel, pela Estrada Nacional nº 1, eu encostava a cabeça ao vidro do carro e via as luzes ao longe. O que eu via nem sempre eram cidades mas terreolas somente. E cada uma daquelas tremeluzindo na distância devia ser como essas cidades do mostrador da telefonia. Cada uma delas deveria cintilar contra o negrume à força da luz eléctrica, e certamente com várias vezes mais força do que Castanheira do Ribatejo ou Vila Nova da Rainha. Algumas delas teriam forçosamente de ser clarões enormes, estelares, belos quando vistos de cima com fieiras infindas de candeeiros nas ruas como gotículas de humidade numa teia de aranha. Essas cidades teriam prédios grandes e elevadores com muitos botões; e desses prédios grandes sairia gente para entrar nos automóveis; essa gente seria também ela grande, homens adultos com chapéus e sobretudos, mulheres com casacos de peles e os lábios pintados. E por vezes famílias inteiras, com cães de estimação.

E a questão então era a seguinte: poderia numa dessas famílias acabadas de entrar agora para o seu automóvel ir um miúdo com a testa encostada ao vidro embaciado de vapor, e poderia esse miúdo estar a pensar em cidades grandes do outro lado do mundo? E poderia ele imaginar a hipótese de numa dessas cidades haver um miúdo como ele? Quem seria esse miúdo que ele imaginava existir — conseguiria descobrir que era eu mesmo? — ou inventaria um terceiro? E se havia um terceiro porque não haveria um quarto? A propósito: um em cada quatro humanos era chinês. Poderia então haver um outro rapaz igualzinho a mim na China, um irmão gémeo de mim mas em chinês, e teria ele consciência da possibilidade da minha existência? E se em vez de um miúdo fosse uma miúda, quer dizer: não poderia antes acontecer que do outro lado do mundo eu fosse o meu exacto oposto de tudo quanto eu aqui era? Teria eu essa irmã chinesa do outro lado do mundo? Estaria ela a pensar no mesmo que eu neste preciso momento? Viria eu a conhecê-la? E se sim — agora é levemente embaraçoso — poderíamos vir a casar?

Tenho hoje a certeza que muitas crianças estavam ao mesmo tempo perguntando-se as mesmas coisas, e se não eram exactamente as mesmíssimas, a verdade é que talvez sempre se tenham feito perguntas que não são em si muito diferentes destas. O que me intriga agora é saber quantos desses meus companheiros e companheiras se lembram de um dia as terem feito. O que farão eles agora? Terão certamente morrido alguns; e quantos dos sobreviventes terão já tido filhos? Quais desses filhos já se terão perguntado as mesmas coisas? Quantos serão na proporção total das crianças de olhos esbugalhados?

Quando penso que bastava um rádio de pilhas para tudo isto, vejo que tão certo como ter tido um irmão gémeo chinês, é termos ambos tido um irmão mais velho no Japão. Porque foi lá que começaram a substituir-se as rádios antigas dos velhos tubos de vácuo por novíssimas, agora de transístores, e por um momento conhecidas apenas por esse nome. Os transístores aguentavam-se bem com baterias apenas. Eram pequenos e poupados, passado pouco tempo começaram também a ser baratos, e não deixariam nunca mais de se tornar cada vez mais baratos e pequenos e poupados. Hoje imprimimo-los aos milhões em cada bolacha de silicone dos circuitos integrados, junto com díodos e condensadores e resistências. Vistos de cima parecem cidades carregadas de prédios e casas e estradas paralelas, como as nossas cidades que cresceram juntando os tentáculos umas às outras, futuramente envolvendo o mundo inteiro, perpetuamente acesas num dia constante.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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6 respostas a Transistor

  1. a.castro diz:

    Gostei imenso deste artigo do Rui Tavares. Fez-me recordar com saudade tempos passados. Não me recordo se nessa altura já havia rádio de pilhas, mas lembro-me perfeitamente que o meu primeiro “rádio” tinha o nome de “rádio-galena” (!!!). Com esse rádio, à noite, após vir das aulas, cabeça escondida sob os cobertores, lá me punha eu diariamente a ouvir o meu rádio-galena e a sintonizar a “Rádio Moscovo” (a tal que não “falava verdade”), cheio de medo que um pide entrasse de repente pela porta dentro:(
    Abraço!

  2. caros editores do 5 dias, o endereço de email que o rui tavares me indicou para vos mandar material impede-me o “send” com uma mensagem de erro relativa ao yahoo groups e tal……….. se tiverem outra forma de contacto na qual possam receber as ilustrações indiquem-ma por favor para irmaolucia@nullgmail.com.

    um abraço,

    vieira

  3. António Figueira diz:

    “Glissavam”, Rui? E o gajo dos galicismos sou eu??
    Um abraço, AF
    PS: Bela prosa.

  4. blue diz:

    bela prosa, de facto!

  5. RB diz:

    Há por vezes textos que tocam muito exacta e profundamente nas recordações da infância e da juventude. Este é um deles. E, AF, o gajo dos galicismos só podes mesmo ser tu (e lembras-te do retrato de Hassan II na Pensión Mimosa?).

  6. António Figueira diz:

    Ainda hoje, em Tânger, os melómanos mais avisados (e mais velhos também, é preciso reconhecê-lo) recordam com saudade a mítica jam session dos Vidroveludo na Pensión Mimosa…

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