Crónicas de Londres

Já não é preciso ir a Londres, sob que pretexto for, para escrever crónicas de Londres, hoje com a net qualquer um as pode escrever, mas andar por lá ajuda, da mesma maneira que flanar por uma livraria é uma experiência mais rica do que simplesmente comprar livros na “Amazon”.

A Inglaterra, primeiro do que o resto da Europa em quase tudo, incarna alguns dos meus piores receios. Um deles é a troca de uma política de classes por uma política de “raças”. Primeiro uma história no Big Brother local em que até o Governo se meteu, de uma actriz de Bollywood que estava a ser bullied pelos fellow inmates. Depois uma notícia espantosa (que o “Guardian” tratou com uma seriedade também espantosamente ridícula), de uma oficial da polícia (de véu) que se recusou a apertar a mão ao Chief Constable porque na mão dela só o marido e o pai é que tocam. A seguir, o anúncio de que o “Red Ken”, Mayor de Londres e inveterado no disparate, vai criar”quotas étnicas” para uma série de funções municipais. Enfim, uma localzinha num pasquim qualquer, a informar que o council de uma terriola algures no Yorkshire vai contratar intérpretes de polaco para evitar os mal-entendidos nos pubs locais. Há razões para pensar que as coisas não virão a passar-se exactamente assim em Portugal mas, deslumbrados como nós somos, dêem tempo ao tempo e vão imaginando coisas parecidas por cá.

(A propósito de pubs: anúncios do Westminster Council espalhados por toda a parte e prevenindo para o risco de se fazerem certas coisas “c’os copos”, assim como outros do Camden Council em que se pergunta aos pais se sabem onde é que os filhos param à hora da escola, parecem provar que em Inglaterra há adultos que se embebedam e crianças que faltam às aulas – como de resto se poderia esperar num país que trocou há muito “a cruz pelo trapézio” e ao contrário do que se passa em Portugal, claro, onde a mera alusão à possibilidade de tais imoralidades existirem é recebida com fina ironia pela nossa melhor blogosfera).

Assisti na LSE a um debate.doc sobre a cena político-cultural francesa, a pretexto dos cinco anos da morte de Bourdieu, que recapitulou e sistematizou muita coisa mas acrescentou pouca. No final, continuei sem perceber porque é que foi precisamente em França que se formou aquela coligação de nouveaux philosophes, historiadores revisionistas e sociólogos acríticos que transformaram Paris nas décadas de setenta e oitenta do século que passou na “capital mundial da reacção”, como lhe chamou Perry Anderson num de dois memoráveis artigos na “London Review of Books”. Melhor momento do debate: quando alguém descreveu Bernard-Henri Lévy como um cruzamento de Jean-Paul Sartre com Cliff Richard, com nítida predominância do segundo…

A propósito de LRB, registe-se que a edição datada de 25 de Janeiro inclui outro artigo interessante de Perry Anderson, desta vez sobre a Rússia de Putin, para quem quiser desenjoar do “Economist” e não tiver paciência para esperar que a “Verso” edite mais uma colectânea de textos seus; pena só que o filo-trotskismo de P.A. lhe turve por vezes o intelecto, como na passagem algo patética deste artigo em que ele sustenta que a segunda principal causa da popularidade de Putin é o seu domínio da língua russa, o melhor de qualquer dirigente do país desde o tempo de Lenin… A propósito de LSE, assinale-se também que o prolífico Anthony Giddens, talvez cansado de escrever sobre a “terceira via”, publicou já em 2007 um novo livro sobre a Europa, a que eu tenciono voltar numa destas terças-feiras – quanto mais não seja porque acaba com um capítulo chamado “Oito Teses sobre o Futuro da Europa”, uma das quais é a conveniência já aqui defendida de não tentar forçar de novo a ratificação da Constituição Europeia, e não é todos os dias que o nosso antigo Director vem publicamente dar-nos razão…

As “Crónicas de Londres” e sobretudo as “Cartas de Inglaterra”, do Eça, mais o “John Bull”, do Ramalho, e “A Inglaterra de Hoje”, do Oliveira Martins, mereciam ser reeditados todos juntos num volume só, com um bom prefácio que situasse esses livros na trajectória de cada um dos seus autores, que salientasse as afinidades e diferenças existentes entre eles e, sobretudo, que ilustrasse de que modo a Inglaterra funcionava como uma referência para os três autores em causa e para o Portugal do seu tempo. De todos, o “John Bull” foi o que resistiu pior à passagem dos anos (como quase todo o Ramalho, de resto), “A Inglaterra de Hoje” é o mais instrutivo (se bem que termine, se a memória não me falha, com um capítulo bizarro, sobre a importância do espiritismo na sociedade inglesa, que nos autoriza a ter algumas reservas em relação às capacidades de julgamento de Oliveira Martins) e as “Cartas de Inglaterra” é o único que pode legitimamente aspirar à eternidade literária: como dizia Churchill creio que sobre o champagne, pode ser consumido antes, durante e após as refeições, assim como nos intervalos entre elas.

P.S.: Eu não sou um grande leitor de blogues, mas na caixa de comentários deste blogue apareceu uma remissão para um outro blogue onde uma coisa que eu escrevi aqui há algumas semanas é usada de uma forma abusiva e intelectualmente desonesta: descontextualizada e atribuída à “extrema-esquerda” (sic). Visto que eu não conheço o autor da peça em causa e que ele não me conhece a mim, tenho de concluir que nunca percebeu nada do que eu aqui escrevi (porque nada poderia justificar esse epíteto) e que acha que eu sou de “extrema-esquerda” apenas porque dois dos participantes deste blogue são figuras públicas do BE. Ora eu tenho a esclarecer o sujeito em questão que essas coisas não se pegam, nem sequer pelos genes (o facto de ter tido uma vóvó monárquica não me impede de ser republicano, e desde pequenino que fui habituado a dar-me com gente de todas as cores) e prefiro de muito longe gente que lê, pensa, escreve e critica com frontalidade e usando a sua própria cabeça do que o convívio dos pequenos polícias do espírito que à falta de argumentos se limitam a colar rótulos às pessoas.
   

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a Crónicas de Londres

  1. afonso dinis diz:

    Muito gostava eu de ter assitido a esse debate a propósito dos cinco anos da morte do Bourdieu.
    Mas também me parece que ficou um pouco aquém das expectativas…(!?)

  2. Ezequiel diz:

    Caro Antonio,

    Gostei mt deste post. Sem duvida, a GB pode transformar-se numa sociedade de raças, apesar de não ser uma sociedade racista. O caso do BBrother foi deveras ridiculo. Estamos, de facto, a viver em sociedades confessionais á lá Foucault. Hoje, pelos vistos, a politica é um efeito do poder da comunicação e pouco mais do que isto. E, claro, nunca faltam imbecis como o Ken etc para alimentar o apetite insaciavel da maquina semiotica. O essencial perde-se no bla bla hermeneutico..ou no bulshit generalizado…do PC.

    cumprimentos, ezequiel

  3. Ezequiel diz:

    E, já agora, um beijinho para a tua Vóvó. Manda estes atoleimados para a bordamerda. Não lhes des importancia. Cumps, Z

  4. Ezequiel diz:

    desculpa (esqueci-me)

    Os nouveaux philos nos dias de hoje apoiam Sarkhozy. “E esta hein?!?!?!?”(como diria o inimitavel)

  5. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Obrigado pelos comentários; ando sem tempo para lhes responder como devia, mas vou fazendo o que posso, e para a semana há mais; olha, agradeço-te o link para o Garton Ash e o beijinho para a vóvó, mas a esta temo que já tenha acontecido o mesmo que à monarquia: finou-se; só uma última pergunta: o PC do 1º comentário quer dizer o quê? personal computer, partido comunista, posto de comando ou politicamente correcto?
    Cumps., AF

  6. Pingback: cinco dias » A Europa em 2007 segundo Anthony Giddens…

Os comentários estão fechados.