Jorge Palinhos: A ilusão e a crença

A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis de existir no terceiro mundo ou nas zonas mais remotas e atrasadas da Europa, mas parece que a crendice e o charlatanismo imperam ainda, fora dos focos dos nosso olhar.

É curioso notar que, apesar das afinidades de que falei no artigo anterior, o ilusionismo e a charlatanice são, normalmente, os piores inimigos. O primeiro ilusionista da era moderna, Jean-Eugène Robert-Houdin, foi contratado em meados do séc. XIX pelo Governo francês para desacreditar imãs que, através de truques e falsos milagres, atiçavam a população argelina contra os colonizadores franceses. Robert-Houdin, recorrendo a truques como deixar que disparassem sobre ele e apanhar a bala com os dentes (um truque que surge em “O Terceiro Passo”) ou fazer crescer uma laranjeira de forma acelerada (um truque que surgiu noutro filme recente, “O Ilusionista”), conseguiu aterrorizar de tal forma a população que os imãs perderam toda a sua influência.

Ehrich Weiss, um dos seus sucessores, e que em homenagem ao ilusionista francês adoptou o pseudónimo de Harry Houdini, optou por combater o charlatanismo desmistificando-o. Membro influente da comissão americana de combate aos fenómenos paranaturais, tinha por hábito desmascarar os falsos espíritas – muito em voga na década de 20 , reproduzindo todos os seus “poderes” de forma natural, ao ponto de ter ganho a feroz inimizade do seu antigo amigo Arthur Conan Doyle, crente fervoroso nos fenómenos paranormais. Um dos seus casos mais famosos foi o de “Margery”, uma alegada espírita que “produzia” ectoplasma a partir de cavidades corporais, graças aos bons ofícios do seu marido, um cirurgião.

Outro ilusionista mais recente que se dedicou a desmascarar “paranormais” famosos, como Uri Geller, foi James Randi, que em vários episódios do programa Tonight Show desmistificou vários “curandeiros espirituais” e “psíquicos”.

Mas, apesar de tanto cepticismo e denúncias, parece que os mesmos truques continuam a surtir efeito. Randi pode ter desmascarado os curandeiros, mas eles ainda existem, e continuam a ter os mesmos artifícios. Há anos o conhecidíssimo (e rico) Professor Bambo exercia o seu “ofício” num canal de televisão, em que o público ligava para ouvir o Professor “adivinhar” os seus problemas e dar conselhos. Não é difícil perceber que, antes de falar com o Professor Bambo, o espectador conversava com um assistente que, de forma discreta, colocava perguntas vagas ou simplesmente lhe dizia “com tantos espectadores a ligar não sei se pode falar com o professor Bambo, se não puder, que mensagem gostaria de lhe deixar?” Como humano que é, o espectador falaria imediatamente dos seus problemas de uma forma ou de outra. Depois era questão de, através de um micro-auscultador, o assistente transmitir as informações ao Professor e este concentrar-se para fazer a sua “adivinhação”.

O mesmo acontece com a astrologia. Esta pode ser uma bela metáfora para nos analisarmos a nós próprios, mas como forma de adivinhar o futuro é, simplesmente, uma balela, assentando em pressupostos cósmicos há muito desacreditados.

Foi a partir do Renascimento que a astrologia se popularizou. O mais famoso astrólogo da época foi Nostradamus, cujas profecias ainda hoje são lidas por alguns como guia dos tempos vindouros. E como é que são as profecias de Nostradamus? São da seguinte lavra:

“Dois reais irmãos farão feroz guerra um ao outro.Tão mortal será a luta entre cada um deles,Que tomarão cada um para si um forte contra o outroE o seu reino e a sua vida serão a sua batalha.”
(Tradução minha a partir da versão inglesa)

Que diria o leitor se lhe dissesse que esta quadra prevê a guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro IV? Ficaria surpreendido, até levemente lisonjeado? E se lhe dissesse que a mesma quadra também pode prever a luta entre D. Afonso VI e D. Pedro II? Ou se lhe dissesse que, em retrospectiva, também se aplica à luta entre D. Sancho II e D. Afonso III? Ou à luta entre D. João I e os seus meios-irmãos D. João e D. Beatriz de Castela? E, metaforicamente, que até prevê as divergências políticas entre os irmãos Miguel Portas e Paulo Portas? Talvez o leitor comece a achar que lutas fratricidas pelo poder são a coisa mais corriqueira do mundo e que prever uma delas é como prever que um dia destes há-de chover.

As profecias de Nostradamus popularizaram-se em meados do séc. XV, mas quinhentos anos depois os seus sucessores continuam a escrever “Proteja-se do frio; está sujeito a problemas nas vias respiratórias”, uma profecia dificílima de fazer no pico do Inverno.

Em 2004 folheei o livro de profecias para 2003 de um famoso astrólogo português. Fi-lo porque queria saber quantas coisas acertara no meu caso e a resposta foi: algumas. De início fiquei especialmente surpreendido por o livro falar de um problema de saúde no primeiro trimestre do ano que, efectivamente, tinha acontecido. Mas depois fiz as contas: havendo quatro trimestres no ano, havia 25% de hipóteses de o astrólogo acertar. Sendo que haverá provavelmente mais de um milhão de portugueses com o meu signo astrológico é quase certo que a profecia estará certa para várias centenas de milhar de nós.

É certo que muitas das outras profecias do mesmo livro estavam rotundamente erradas, no entanto o meu olhar deteve-se naquelas que estavam certas e relativizou as falhadas, num processo que os cientistas chamam a “ilusão do pequeno efectivo”: a tendência para empolar um sucesso insignificante. Detentor apenas da minha experiência pessoal, um problema de saúde é para mim algo de significativo, mas esqueço-me que todos os dias os hospitais estão cheios de problemas de saúde, facílimos de prever de forma vaga. Se eu prever que neste preciso instante está uma pessoa a dar entrada nas urgências de um hospital do país, tenho quase a certeza de não falhar. Se meter 12 signos na equação, a probabilidade desce ligeiramente, mas entre as várias dezenas de hospitais públicos e privados do país, é quase impossível não acertar em alguns casos.

Este é, de forma geral, o método de ilusionistas e charlatães: vagos quanto ao que vão fazer, desviam o nosso olhar daquilo que não querem que vejamos, contam com o nosso egocentrismo e com a nossa experiência limitada para empolarmos os seus resultados e, acima de tudo, contam com o nosso profundo desejo de mistério e de deslumbramento, com o desejo de fazermos parte de algo que nos transcende.

Esta é, em parte, também a metodologia dos escritores, realizadores, pintores e artistas em geral: fazem-nos ver aquilo que querem, não ver aquilo que não querem e interpretar segundo a nossa experiência pessoal aquilo que nos mostram. Só que tal como os ilusionistas, os artistas enganam-nos para nos deleitarem e despertarem em nós questões e experiências adormecidas. Mas quando os artistas nos enganam para nos manipularem e extorquirem são também charlatães, que usam a sua técnica para nos fecharem dentro do seu mundo.

Na próxima semana vou falar destas técnicas aplicadas a um caso da actualidade.

P. S, – Quanto ao nosso miraculoso homem falante sem língua, pergunto-me se será muito difícil arranjar uma tinta preta não-tóxica com que se possa pintar a língua. Depois, é só aprender a manter a língua na parte inferior da boca enquanto se aponta com a lanterna para a parte de cima.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

4 respostas a Jorge Palinhos: A ilusão e a crença

  1. Rui,
    a charlatinice espiritualista e milagrosa é para mim de tal modo aldrabona que já não me desperta a atenção, não me mete medo e nunca me gastou um tostão. Estou munido por uma espessa camada de cepticismo contra ela. Mas por incrível que possa parecer, essa mesma camada de cepticismo parece não querer aceitar muito a crença que se tem hoje na ciência.

    Também aqui se assiste a muita charlatinice. A ciência serve para tudo, até para substituir a ética e a política (veja-se a discussão sobre o aborto). Se alguém, por mais bestial que seja, quer estar bem acompanhado tem um cientista por perto (vejam-se as proximidades entre políticos e cienstistas em períodos de eleições e em períodos de financiamento científico).
    A recepção social da ciência é próxima da recepção da crendice. O que está em causa na recepção social não é a crendice ou a ciência em si. É a moda e crença generalizada numa ou na outra. Há épocas para tudo e seria ingénuo acreditar que hoje já não há crendice, ou que toda a valorização da ciência é feita com base na razão, na experiência e no espírito crítico.

    Mas é claro que nos tempos que correm acabei de cometer uma heresia e agora tenho de me retratar e penitenciar para não ser queimado em público. A ciência é fixe camaradas! Falar de ciência é bacano men e a malta gosta! A gente pode duvidar de tudo, sobretudo da crendice, mas nunca da ciência, yô!

  2. Pingback: cinco dias » Jorge Palinhos:Crença e ilusão – O referendo ao aborto

  3. Deusarino de Melo diz:

    É dos tempos imemoriais, o ilusionismo. E necessário, em certas situações, senão vejamos: Se Moisés não fizesse o povo hebreu (um povo infectado pela falta de asseio dos desertos) acreditar seu falar com o Todo-Poderoso, como iria exigir o cumprimento da proibição de ingestão de carne de porco (remosíssima, principalmente para pessoas com infecções como as deles) ? Se o povo não acreditava em quem quer que fosse, só poderia acreditar numa criatura que tivesse o privilégio de falar com o próprio Deus. E, diga-se de passagem, essas idéia de Moisés, quem provará que não foram sugeridas pelo próprio Jeová, a fim de encaminhar seu povo? Afinal, os vencedores e os bem-sucedidos são os contadores da História e isso só pode influenciar a partir de acontecimentos inusitados e excepcionais. Olhe-se para as idéias (moderníssimas e loucas para sua época) de da Vinci, hoje todas realizadas. Isso tudo deixa bem claro que Deus não escreve certo por linhas tortas, mas que simplesmente escreve, e sempre certo. Eu não acredito em ateus, porque não concebo um mortal tão burro que não veja mão superior num simples olhar para cima e ver nuvens, sol, estrelas etc. Aliás, ai de nós se não fosse esse Ilusionista Maior, capaz de tudo. Bendito seja!

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